28 October 2007

O Deserto do Real

Há, no Matrix, essa obra magna da ficção científica, uma cena, ainda no princípio, em que o protagonista abre um livro do filósofo francês Baudrillard, Simulacros e Simulação, em cujo interior guardava alguns materiais informáticos. Porque, como os fãs aprenderam, tudo no filme dos irmãos Wachowski tem um significado, também eu, movido pela curiosidade, procurei saber mais sobre a obra do pensador francês. Esta inicia-se com uma reflexão baseada num conto de Jorge Luis Borges, titã da escrita, que, por sua vez, se inspirou em Lewis Carroll. O argentino imagina um mapa tão perfeito que corresponderia, ponto por ponto, ao próprio território que cartografava. Baudrillard usa a estória como uma metáfora: para o francês, o mapa triunfou sobre a realidade, e hoje a nossa vida desenrola-se no mapa, e não já no mundo real que ele encobre – desse apenas subsistem restos dispersos.

O real tornou-se, a bem dizer, irrelevante. Temos aqui um dos mais crus diagnósticos da nossa sociedade pós-moderna, onde tudo parece; nada, porém, é. Numa sociedade destas, a Estatística adquire particular destaque. Ela é, por excelência, a ciência da imagem, projecção do real que se quer fazer passar por ele. Neste mundo-mapa, em que o real foi soterrado sob o peso das suas variadas representações, transforma-se o retrato na cousa retratada (parafraseando Camões). Como Borges, também o génio de Poe intuiu a verdade do nosso tempo em O Retrato Oval. Nesse conto do mestre do gótico, certo pintor vai desenhando, em toda a graça e detalhe, a sua amada, sem se aperceber, contudo, que, lentamente, a vida dela é transferida para a tela. Quando o artista, por fim, contempla a sua obra, perfeita, olha a mulher – ela estava morta. É este, hoje, o estado das relações entre a realidade e o mundo fictício em que nos movemos.

Vem esta reflexão a propósito do novo Estatuto do Aluno, aprovado, faz hoje uma semana, pela Comissão Parlamentar de Educação, apenas com os votos favoráveis do obediente PS (Partido Sócrates). O diploma, que tem como principais objectivos, supostamente, combater o abandono e insucesso escolares, prevê que, para os alunos que excedam o número de faltas, os professores façam uma “prova de recuperação”. O PS defende a medida com o seu desejo de “uma escola pública inclusiva” que não exclua “por conta, apenas, de um determinado número de faltas”. Este novo Estatuto, na realidade, iliba os absentistas, concedendo-lhes uma possibilidade de recuperação à qual, em virtude do seu ostensivo desleixo, não deveriam ter direito. Torna-se possível a um aluno, teoricamente, faltar o ano inteiro e, ainda assim, passar de ano, bastando para tal ter um resultado positivo na dita “prova de recuperação”. Claro que as reprovações, graças a esta artimanha, vão diminuir: bem sublinhou Vasco Pulido Valente no Público que estas provas “pelo nome já indicam a sua natureza e o seu fim”.

Na prática, portanto, estatisticamente, se estas medidas entrarem em vigor, haverá uma redução assinalável no insucesso escolar. Deste modo, uma vez mais a imagem usurpará o lugar do real – e o mapa triunfará, de novo. É irrelevante que todos esses alunos que vão ser salvos graças às ditas “provas de recuperação” transitem sem quaisquer conhecimentos que lhes permitam enfrentar o ano escolar seguinte. O que interessa é a estatística, o retrato: e esse é positivo – mesmo que artificial. O mais grave, porém, é que, depois, serão sobre estas estatísticas – tão distantes da realidade quanto os funcionários da 5 de Outubro estão do quotidiano escolar – que novas medidas serão tomadas (ou não). O real, sublinhamos, ficou para trás há muito tempo: tudo são construções de imagens sobre imagens. É sobre uma ficção que trabalhamos, numa ficção nos movemos e existimos: eis a hipoteca da realidade. Como diz Morpheus, personagem do Matrix, citando Baudrillard: “Bem-vindos ao deserto do real”.

Sobre O Uso de Máscaras

No dia sete de Outubro, tendo-se deslocado a Montemor-o-Velho para assistir ao lançamento de um qualquer projecto, o primeiro-ministro foi recebido por alguns manifestantes. Nitidamente arreliado, acusou o PCP de ser o responsável pelos protestos: “Onde quer que eu vá [os comunistas] fazem manifestações, utilizando os seus dirigentes sindicais. A polícia, com a alegação de a manifestação não se encontrar autorizada, procedeu à identificação de alguns sindicalistas, isolou o grupo com fitas e apreendeu uma faixa. A “festa da democracia” – expressão cunhada por Sócrates – parece já não ser, afinal, assim tão engraçada. O fascinante neste episódio é o desmascaramento de Sócrates, mesmo se este se disse não ofendido. Subitamente, revela-se a sua incapacidade de lidar com as críticas de que é alvo, bem como o seu profundo orgulho, exposto a nu o artificialismo da sua persona pública e o seu sorriso falso.

Procurando evitar desagrado igual quando o primeiro-ministro, dois dias depois, fosse à Covilhã, alguém, vigilante (e anónimo), mandou, na manhã seguinte, dois polícias visitarem a sede do Sindicato dos Professores da Região Centro, donde levaram algum material de divulgação da acção de protesto prevista e autorizada para o dia seguinte. A governadora civil de Castelo Branco veio logo esclarecer que esta se trata de “uma actividade rotineira da PSP”. Julgava eu – erradamente, vejo – que a função normal das forças da autoridade era não tanto controlar o exercício da liberdade, mas antes garantir a segurança dos cidadãos. Oficialmente, essa foi, de facto, a justificação: a diligência foi destinada a averiguar situações com “significado para a segurança” do primeiro-ministro, e o próprio Corpo de Segurança Pessoal deste foi contactado. Calculo que pouco importará o facto de a manifestação nem sequer ter sido convocada pelo sindicato dos professores mas sim pela União dos Sindicatos de Castelo Branco.

Em parte, estes ataques aos sindicatos de professores já tinham sido anunciados pelo primeiro-ministro, a 5 de Outubro, quando sublinhou que “o governo não ataca os professores”, afirmando ser necessário não confundir “professores com sindicatos”. Daqui se subentende que quem é então atacado são os sindicatos. Aparentemente, o problema é estes confundirem “o direito à manifestação com o insulto”, como acusou Sócrates em Montemor. O Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, veio já esclarecer que “é preciso ter cuidado com o tipo de palavras que se colocam nas faixas”, porque “não se pode insultar as pessoas”. Toda esta insistência no insulto recorda-me demasiado o caso Charrua: lembram-se?

Questionado sobre o caso Covilhã, o secretário de Estado adjunto da Administração Interna afirmou que “se começamos a sustentar que na aplicação da lei, em relação a quaisquer manifestações ou expressões críticas ou de aplauso, há uma margem para se extravasar a lei [...] abre-se a porta para situações que podem ser melindrosas e depois exigirão medidas de correcção de intensidade maior”. Assusta-me imaginar o que possam ser estas “medidas”. Por sua vez, interrogado sobre o sucedido na Covilhã, Sócrates aconselhou a “esperar pelos resultados” do inquérito. A espera foi curta: menos de uma semana depois, o caso foi convenientemente arquivado sem resposta e sem vergonha. Tudo indica que a acção dos polícias não foi ilegal. Não sei como reagir: se fique descansado, por tudo ser conforme a lei; se fique inquieto, por a “lei” o permitir.

Recordo aqui uma estória grega, para explicar a origem do género cómico, segundo a qual certos camponeses atenienses, cansados da exploração de que eram alvo por parte dos habitantes da cidade, se dirigiram a Atenas e, aí, insultaram abertamente aqueles que os oprimiam. Contudo, temendo retaliações futuras, prudentes!, mascararam-se, para não serem identificados. Talvez seja tempo de os manifestantes portugueses, como os gregos, começarem, neste jogo de máscaras e hipocrisias, também eles, para sua segurança, a mascararem-se...

14 October 2007

Do Budismo

Retomei na semana passada um conto em que trabalhei durante as férias. Ao descrever um particular movimento de alma da personagem principal, veio-me à lembrança, como recta ilustração dele, uma velha parábola budista. Não me recordo onde a li pela primeira vez (quiçá, no bom Siddharta, de Herman Hesse?). A estória revolve em torno de um homem que, atingido por uma seta embebida em veneno, se recusa a ser tratado sem antes saber quem o feriu – perecendo antes que tal informação consiga ser averiguada. Pretende a parábola ensinar que o homem não deve ocupar-se com especulações filosóficas bizantinas; antes, face à realidade do sofrimento, superá-la. Curioso que a minha mente tenha regurgitado esta memória agora que se fechou o mês de Setembro, em que tanto se falou do budismo.
Tudo começou com a vinda do Dalai Lama a Portugal. O acontecimento acabou abafado pela polémica em torno dele, degradante espectáculo da diplomacia portuguesa. O governo português, “como é óbvio”, recusou-se a receber o Prémio Nobel da Paz. E, como é óbvio, o governo provou-se ridiculamente patético com essa sua atitude. Submisso como um cão, Portugal curvou-se (é esse o costume oriental de saudação) perante a China. Eis que somos governados por quem valoriza o dinheiro acima do homem. Não me devia ter surpreendido, porém, com essa apóstata inversão de valores: este é o mesmo governo que sempre assim os ordenou e dessa forma justificou o encerramento de vários serviços públicos pelo país. Da mesma maneira – vergonhosa, esperada – o PCP veio servilmente em defesa da madrasta China. É revoltante, como um ultimato inglês, esta submissão a uma das maiores ditaduras do mundo. Pelo contrário, Angela Merkel, a chanceler alemã, recebeu, uma semana depois, o Dalai Lama, como é obvio. Convenientemente para o governo, o telejornal da estação pública ignorou por completo o acontecimento, como nota Eduardo Cintra Torres no Público de sábado. Porém, já em Dezembro, mês em que se comemora a Declaração Universal dos Direitos Humanos, Portugal, coerente e contente com a sua hipocrisia, deverá abrir as suas fronteiras a outro ditador: Robert Mugabe, presidente do Zimbabwe. Causa-me impressão que um país destes esteja à frente da presidência da UE – causa-me impressão que eu seja um cidadão desse país.
Os monges budistas têm também chamado a si as atenções pelo papel proeminente que estão a desempenhar na chamada “Revolução de Açafrão”, na Birmânia. Subitamente, os media começaram a falar desse país, do longo lento e mudo sofrimento de uma ditadura de quarenta e cinco anos. “Todos somos responsáveis por tudo perante todos.” – esta frase de Dostoievsky, que conheci via Simone Beauvoir (O Sangue dos Outros), hoje, num mundo globalizado, em que, à imitação de Deus, tudo sabemos, e cada canto do mundo é uma casa vizinha, é mais do que nunca verdadeira, carregando-nos de uma responsabilidade de que não nos podemos, sem prejuízo moral próprio, escudar. Várias campanhas têm sido lançadas estes últimos dias e petições diversas, por exemplo, correm apressadas pela Internet. Também a comunidade internacional tem vivamente repudiado a repressão de que estão a ser alvo os manifestantes. O futuro, porém, está longe de estar seguro – e tudo pode ainda terminar num imperdoável massacre, do qual seríamos todos culpados. A acção urge. Contudo, a China é possivelmente o único país capaz de forçar efectivamente a Junta Militar a abrir o regime, devido à importância das relações económicas entre os dois países. Infelizmente, Pequim não preza particularmente a democracia ou a liberdade dos povos. Triste mundo este em que os direitos humanos são negociados com base em questões económicas. Como na China. Como em Portugal. Parece-me que não precisamos de criar, como insensatamente sugeriu Maria José Nogueira Pinto, uma Chinatown: Portugal é já, neste campo, um Chinacountry.

16 September 2007

Realportugal


Ofegante, pedi autorização para passar à frente na fila, comprei o bilhete, corri para a plataforma e saltei para a última carruagem. Sentei-me e descansei da minha maratona. Subitamente, ainda nem tínhamos chegado à Estação Velha, o comboio parou na linha. Cinco minutos depois, persistia na sua birra de não andar. Cansado de mais para ligar o mp3, resolvi ouvir a conversa que, duas filas à frente, se desenrolava entre algumas passageiros de idade.

«Trabalhamos para ganhar uma miséria», desabafava uma senhora junto à janela (chamemos-lhe G.). A frase deu o mote: começou a rabujar-se contra as regalias dos políticos. Do seu lugar solitário, um viajante (digamos, B.) contribuiu: «Todos querem ir para o poleiro. Ao fim de quatro anos têm reformas». A outra resmungou que por isso é que já não punha os pés nas eleições. A mais nova do grupo (tratemo-la por H.), algures nos seus cinquenta, afirmou que insistia em ir às urnas, mas votava em branco. B. avisou-a contra isso: tinha já estado em mesas de voto e sabia como os votos em branco eram por vezes adulterados, aconselhando-a por isso a votar sempre nulo, com uma cruz de alto a baixo. H. agradeceu o alerta.

G. retomou a conversa para lançar nova invectiva contra os privilégios da classe política. Tinha sido revelado no talkshow da Fátima Lopes que mesmo o ex-presidente ainda tinha guarda-costas. H. mostrou-se particularmente indignada: asseverava que n’ As Tardes da Júlia tinha estado uma mãe a quem, por causa de negócios da droga, haviam morto o filho e cuja cabeça estava a prémio. «Mas essa, que precisava, não tinha protecção policial: teve de ser a Júlia a garantir que a protegiam à saída do estúdio». O filantropismo televisivo, de facto, continua sempre capaz de me surpreender. «Estes são grandes programas para se descobrir certas coisas», rematou a mulher, convicta da sua palestra.

Inevitavelmente, chegou-se ao caso Maddie. «Agora já ninguém os apanha», declarou H. firmemente. «Quem vai mantendo este caso são os governantes, porque assim ninguém fala do governo», explicou B., entre gestos fortes. Alguém acrescentou que os McCann mantinham amizades com altas chefias do Estado. G. passou então à acusação: «Aquela mãe... Ela tem má cara: não engana ninguém». H., que parecia sempre actualizada, completou: «Diz-se que na Inglaterra fizeram um perfil dela e que tem os traços todos de quem matou a menina». G. prosseguiu a leitura da sentença: «Nem uma lagrimazinha deitada! Ao menos a mãe da Joana ainda foi lá chorar para as televisões». Foi então que B. lançou a sua bomba: «Nós em Portugal ainda estamos muito atrasados sobre esta caso. O meu genro, que é da Alemanha, diz que lá já veio nos jornais a dizer que eles pertencem a uma seita de orgias em que matam crianças para as luxúrias deles». A conversa prosseguiu, e por fim regressaram a outros temas nacionais. Em jeito de sumário, H. suspirou: «É o país que temos: temos de nos contentar».

Dentro de mim, recalcava-se uma vontade de rir. Assistira a um exercício totalmente gratuito de especulação barata, cujas teses não resistiriam à mais superficial leitura de um jornal dito sério. Ao mesmo tempo, porém, abatia-se sobre mim uma tristeza: era isto o país. Há a chamada realpolitik: bem-vindos ao realportugal. Ali estava a falta de esperança no futuro, a descrença total na classe política, a manipulação fácil pela televisão, a especulação tonta e, finalmente, dramática, a resignação. Isto, mais que tudo, preocupou-me. É que, como dizia José Manuel Fernandes no editorial do Público há uma semana: “Nenhum país, nem nenhum povo, nem nenhum indivíduo, conformados com os seus destinos, podem mudá-los”.

03 September 2007

O Nojo (Em Dois Tempos) ou As Vantagens da Internet

1. A Internet, corolário tecnológico da democracia, é, possivelmente, a maior invenção do século XX. Espaço inédito de expressão, experiência sociológica anarquista, a web é a manifestação por excelência da vox populi: veja-se, por exemplo, a facilidade com que hoje é possível a qualquer utilizador criar uma petição online e divulgá-la por e-mail ou na blogosfera. Servindo-se dessa possibilidade nova, um dos autores do blogue Hotvnews 2.0, espaço dedicado ao cinema e à televisão, redigiu uma furiosa invectiva contra o quarto canal, disponível em http://www.petitiononline.com/offitvi/petition.html, onde pode ser subscrita.

A irritação do autor e de quantos já assinaram a petição deve-se aos novos horários para que a TVI relegou The Office: O Escritório. Versão americana de um original inglês que apenas posso vivamente recomendar, esta série de culto foi inclusive vencedora do Emmy de Melhor Série de Comédia em 2006, encontrando-se de novo na corrida ao prémio este ano. A TVI, que tinha adquirido os direitos, cancelou, ao fim de duas semanas em Julho, a emissão de The Office, apenas para a retomar em finais de Agosto com um episódio às cinco e dez da manhã.

O nojo – esse é o único sentimento que me invade perante a atitude do canal de Queluz. O nojo – e a revolta, acrescentaria. Esta petição reveste-se de um valor simbólico: ela não protesta apenas contra o tratamento dado às séries, mas contra toda a política de programação da TVI e o seu telelixo. Ouso mesmo mais: esta petição é quase um manifesto não só contra o quarto canal, mas contra todas as estações generalistas e a sua lógica estupidificante, contra a forma como sistematicamente exorcizam de si os programas de qualidade. Ainda este Verão, tempo sempre mais propício à preguiça de ver televisão, verifiquei essa verdade. E, ao contrário do que se possa argumentar, não se trata – ou não é isso o fundamental – de uma questão de audiências, mas sim de uma alergia patológica ao Bom (ou inveja dele). De que outra forma se explica que a SIC, por exemplo, a 17 de Agosto, tenha relegado para a uma e quinze um filme como o Senhor dos Anéis III, que, como é sabido, tem um imenso público? Chega disto.

2. Espaço de liberdade absoluta, viveiro de freelancers, a Internet constitui-se à margem dos circuitos convencionais de informação controlados pelos media. Assim, pelo trabalho vigilante dos bloggers, notícias que, doutro modo, não teriam cobertura, chegam à esfera pública: sucedeu isso, por exemplo, com o caso da licenciatura de Sócrates, divulgado pelo Do Portugal Profundo. Da mesma maneira, o Kontratempos, de Tiago Ribeiro, denuncia agora a presença, entre as listas de convidados da Festa do Avante, de algumas delegações suspeitas.

Estarão na Quinta da Atalaia, ao que parece, representantes dos respeitáveis partidos comunistas de Cuba, do Vietname, da Coreia do Norte e da China: impecável lista de ditaduras. Com estas presenças, é caricato (ou revelador) que um dos temas em destaque no ciclo de debates a promover na edição deste ano da Festa seja precisamente, de acordo com o Jornal de Notícias, “as ameaças ao actual regime democrático de Portugal”. Já a edição do ano passado não escapou à polémica, quando foi denunciada a presença na Atalaia de um stand da revista oficial dos guerrilheiros da FARC, grupo que a União Europeia classifica de terrorista. O PC, curioso!, discorda deste rótulo, argumentando que se trata de “uma organização popular armada que há mais de 40 anos prossegue a luta pela real democracia na Colômbia e por uma justa e equitativa redistribuição da riqueza”. A prossecução desses nobres fins, estou certo, justificará os raptos e mortes perpetrados pelas FARC. Alguns, no ciberespaço, apelam já ao boicote da Festa da Atalaia. Urge que as “amizades” do PC comecem a ser discutidas publicamente: leia-se, a esse propósito, a peça laudatória de Miguel Urbano Rodrigues intitulada Guerrilheiras das FARC, disponível no site do Avante!. Haja vergonha: da nossa parte, só sobra o nojo. ■ o corvo

25 August 2007

O Despertar da Mente

Entre os leitores deste texto, algum porventura mais cinéfilo terá reconhecido no nome da crónica o título do penúltimo filme de Michel Gondry, estreado em 2004, com Jim Carrey no papel principal. O famoso actor interpretava nessa película Joel, um homem que, desiludido com o fracasso da sua última relação amorosa, resolve recorrer aos serviços de uma novíssima empresa dedicada à eliminação de memórias com o objectivo de apagar todas as recordações da mulher que amara e assim ultrapassar a dor que o acomete.

Vem a referência cinematográfica a propósito de uma breve notícia, já do mês passado. Assuntos mais urgentes, contudo, adiaram o seu tratamento aqui neste espaço crocitado. Segundo o Público, então, uma equipa da Universidade do Colorado terá concluído, em estudo publicado na Science, que “as pessoas conseguem suprimir memórias específicas num dado momento, através de um treino repetitivo”. Se o jornalista sublinhava as eventuais utilizações positivas da descoberta – por exemplo, para as vítimas de stress pós-traumático –, menos optimista foi a minha reacção, que na novidade descobria um potencial perigo.

Já o brilhante Borges, na sua História da Eternidade, relembrava: “Sabe-se que a identidade pessoal reside na memória e que a anulação desta faculdade implica a idiotia”. Para Platão, tudo era, de resto, reminiscência. A nossa identidade reside, efectivamente, no nosso passado, o operário do nosso presente. Apagar memórias, por desagradáveis que sejam, é um exercício de amnésia, de desfiguração do eu. Freud demonstrou como acontecimentos desagradáveis, recalcados na ânsia de esquecer, acabam por influenciar o comportamento. O psicanalista esforçava-se, nas suas palavras, por substituir o id pelo ego, trazer o inconsciente ao consciente: só deste modo o doente compreenderia as causas profundas dos seus medos e desejos. Ousa-se agora o contrário: recalcar essas memórias ao extremo de apagá-las.

Se, de facto, o que distingue duas pessoas é, essencialmente, as suas memórias, então, alguém a quem se elimine uma lembrança não é, por certo, depois da operação, a mesma pessoa que era antes: passa a ser alguém diferente, digno mesmo de outro nome. Há, nisto tudo, também um sinal da progressiva e maior assimilação do homem à máquina: tal como num computador, eliminam-se “ficheiros” do cérebro humano. Receio passarmos a ter semipessoas, preenchidas de lacunas; pessoas felizes somente porque esquecem, como os tristes lotófagos da ilha onde Ulisses desembarcou no seu périplo errante, narrado na Odisseia.

Este é, de resto, um tempo que valoriza o esquecimento e a tudo dá prazo de validade, atitude perigosa, pois o passado é a chave para perceber o presente e prevenir o futuro. A memória é um dos cinco pontos cardeais da essência da Europa, na opinião de George Steiner, que a define como lieu de la mémoire no seu importante ensaio A Ideia de Europa. Pude comprová-lo na minha ida a Paris, em inícios do mês: as ruas enchiam-se de lápides relembrando quantos tinham tombado em defesa da cidade na Segunda Guerra Mundial. Deparei-me mesmo com uma inscrição dessas que celebrava “um francês”, caído no sítio onde se erguia a placa: nem sequer lhe sabiam o nome, mas persistiam em relembrá-lo, todavia.

Esta contracorrente, insistindo em recordar num tempo de esquecer, anima-me. Para concluir, recorro a essa linguagem verdadeira que desaprendemos com o tempo: a mitologia. Um dos dois corvos de Odin, deus primeiro do panteão nórdico, chamava-se Memória. O par de pássaros era o símbolo da sua omnisciência. Julgo a alegoria decifrada.

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos - Parte III

Concluímos nesta crónica a enumeração das figuras que representam, pelas suas acções, uma ameaça para a sociedade aberta. Os seus dois detractores que aqui apresentamos têm em comum a tentativa – inédita entre os demais que aqui temos vindo a indicar, cujos poderes, escassos, tanto não permitiam – de controlar/silenciar os media, o dito “quarto poder”.

4) Rui Rio, Presidente da Câmara do Porto. Reconhecemos ser estranho, num jornal local, criticar a actuação do presidente de uma câmara que nem pertence ao nosso distrito. Perdoe-nos o leitor esta pequena heresia, mas sentimos que, na lista que temos vindo a fabricar, a omissão de Rui Rio descredibilizá-la-ia, porquanto isso equivaleria a encobrir alguém que, pelo seu comportamento, provou já repetidamente não aceitar com especial agrado o exercício da liberdade. Alguns, dotados de memória – um bem cada vez mais raro e subestimado hoje –, lembrar-se-ão de quando o presidente da câmara do Porto atribuiu subsídios aos agentes culturais da cidade mediante a condição expressa de estes não criticarem o executivo camarário: ei-la!, a lealdade, de novo, tão querida aos inimigos da sociedade aberta! Também antigo é o diferendo mantido com o Jornal de Notícias e o Público: contra-ataca o primeiro no site oficial da câmara e o segundo nos “direitos de resposta” que, ao abrigo da lei, faz publicar; ambos em termos tão aguerridos que devem, ao observador atento, causar desconfiança. Esta não disfarçada “oposição à oposição” ganhou atenção mediática, porém, quando, no dia seguinte ao da manifestação “silenciosa” frente ao Rivoli, o site da câmara publicou um texto, onde noticiava, em tom nitidamente crítico, a participação de David Pontes, director adjunto do JN, no dito cujo protesto. O facto de um munícipe, no exercício legal dos seus direitos de cidadania, ser denunciado no site camarário – uma aberração numa sociedade aberta – parece, contudo, inteiramente justificável a Rui Rio, porque «pode ajudar a explicar muita coisa». Certamente que sim: explica toda a razão que o JN tem nas críticas que tece a este executivo. Porém, mais revoltante é que, sem consentimento do próprio, David Pontes foi filmado a participar na “manif” e o vídeo foi colocado online, a acompanhar a notícia que registava o caso no site. Este gesto representa um atropelo inominável de um dos mais básicos direitos do sujeito: o direito à imagem. Há algo de Big Brother na atitude. Note-se, por fim, que, apesar de o site da câmara criticar o director adjunto do JN pela participação na manifestação, não se faz qualquer referência à realização desse mesmo protesto, que contou com mais de mil pessoas. Confusos? Nós, pela nossa parte, estamos bastante elucidados.

5) José Sócrates, Primeiro-ministro. Sócrates figura nesta lista por demérito próprio e não apenas pela complacência para com os “erros” dos seus ministros que demonstrou no último sábado no Parlamento: o debate foi profundamente revelador ao não revelar nada. O engenheiro sem Ordem pôs ainda em tribunal, recentemente, o autor do blogue Do Portugal Profundo, aparentemente por difamação e denúncia caluniosa. O assunto da licenciatura de Sócrates, continuando nebuloso, mostrou, porém, um primeiro-ministro que, na ânsia de afastar de si as suspeitas, acabou por se contradizer (logo quando mandou retirar, do site do Governo, o título de engenheiro) e contradizer também documentos que depois vieram a público, falhando em esclarecer o caso completamente. Porém, eis agora António Caldeira, que sempre deu a cara – ao contrário de tantos outros –, processado, por ter, com a questão da licenciatura, destruído, definitivamente, o estado de graça do primeiro-ministro. Que Sócrates procura refrear os media vê-se, por exemplo, no novo Estatuto dos Jornalistas. Nesta «festa da democracia», espero eu, agora, não levar também com um processo em cima! ■ o corvo

10 July 2007

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos - Parte II

Continuamos a listagem não exaustiva já iniciada na crónica anterior das figuras mais proeminentes que, de alguma forma, ameaçam a sociedade aberta e livre como a conhecemos.

3) António Fernando Correia de Campos, Ministro da Saúde. O afastamento da ex-directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, Maria Cardoso, é mais uma manifestação da acentuada sensibilidade do actual executivo. De acordo com o despacho da exoneração, Maria Cardoso foi demitida “por não ter tomado medidas relativas à afixação [...] de um cartaz que utilizava declarações do Ministro da Saúde em termos jocosos, procurando atingi-lo”. Não se acrescenta, contudo, que, por sua vez, essas “declarações do Ministro da Saúde” ofendiam os profissionais daquele serviço. O cartaz em questão reproduzia uma entrevista concedida por Correia de Campos ao Jornal de Notícias, a 6 de Agosto de 2006, onde este declarava: “Nunca vou ao SAP, nem nunca irei! [...] Porque não têm condições de qualidade. Têm um médico e um enfermeiro e conferem uma falsa sensação de segurança.”. As bases devem respeitar as chefias; estas, porém, podem livremente desdenhar do trabalho dos seus dependentes.

A lealdade – conceito importante em que os adversários da sociedade aberta baseiam as suas invectivas – funciona num só sentido. Não se espante, considerando os traços que vimos serem próprios dos inimigos da liberdade, que Maria Cardoso tenha sido acusada pelo ministro precisamente de “deslealdade”, por não ter prontamente mandado retirar a entrevista. Por outro lado, num exercício de obstinada lealdade, um membro da Juventude Socialista denunciou o caso aos seus superiores, que, depois, fizeram chegar a notícia às cúpulas. É caso para relembrar as palavras avisadas de Jorge Coelho: “Quem se mete com o PS, leva!”.

Outro pormenor que merece destaque é o facto de Maria Celeste ter sido pressionada para abrir um processo disciplinar contra o médico que afixara a entrevista e a rematara com um curto comentário irónico. Porém, ao contrário de Margarida Moreira, da DREN, criticada na crónica anterior, Maria Cardoso, numa atitude louvável, recusou-se a fazê-lo, sendo consequentemente demitida. Se seria ainda possível, por parte dalguns, defender que, efectivamente, não era muito correcto uma entrevista assim estar exposta num centro de saúde, é já, contudo, difícil – a partir do momento em que se percebe que a razão da demissão foi a recusa de Maria Cardoso em instaurar um processo contra o médico – não suspeitar que estamos perante um exercício de violência política.



Em defesa do ministro, a Secretária de Estado da Saúde, Carmen Pignatelli – que aqui inscrevemos no rol dos inimigos da sociedade aberta – considerou que a liberdade de expressão deve ser exercida nos “locais apropriados”, a saber, “nas nossas casas, na esquina do café (?), e com os nossos amigos”. Note-se a incorrecção das palavras, porquanto o professor Charrua foi precisamente denunciado por um “amigo”. Muito segura das suas afirmações, sem pudor, exclama: “não tenhamos vergonha de dizer isto”. Não tenhamos nós, de facto, vergonha de dizer isto: a liberdade está a ser, já nem muito veladamente, ameaçada, por comportamentos dos seus opositores como os acima descritos. Ao caso Vieira do Minho, como este já foi apelidado, vem-se juntar o de Fernando Portal, alegadamente afastado, ao fim de dezassete anos, da presidência do hospital de S. João da Madeira por críticas à política de encerramento das urgências do ministério, caso que remonta já a Maio. Pouco a pouco, vai-se revelando a verdadeira natureza deste ministério que de saudável, sinceramente, tem pouco.
o corvo

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos - Parte I

O título da nossa crónica remete para o conhecido livro homónimo de Karl Popper, escrito durante a II Guerra Mundial, onde o filósofo procede a uma crítica implacável daqueles que considera serem os ideólogos do totalitarismo e opositores das democracias liberais. Inspirados pelo exemplo, e porque a nossa sociedade livre, filha do 25 de Abril, está hoje sob ataque cerrado, procedemos no seguinte texto a uma identificação dos seus principais inimigos.

1) Margarida Moreira, Directora Regional de Educação do Norte. Nela, traço recorrente dos adversários da sociedade aberta, o ódio à liberdade surge associado à megalomania: José Manuel Fernandes, director do Público, com doce ironia, afirma que a de Margarida Moreira é «proporcional ao seu volume». Assim, a Directora da DREN, como protectora dos oprimidos, na sua importante entrevista ao DN de dia 14, reconhece que quebra o silêncio apenas porque sente ser sua “obrigação” defender a instituição que coordena e os que nela trabalham. O discurso de Margarida Moreira é ainda, como seria expectável, pautado por súbitas, mas coerentes, manifestações de apoio a práticas autoritárias. «Defendo uma liderança forte», confessa. A entrevista tem este duplo mérito de, por um lado, permitir a análise do perfil psicológico do inimigo típico da sociedade aberta, por outro, de fornecer dados relevantes para uma análise mais profunda do “caso Charrua”. Margarida Moreira afirma ter sido avisada do insulto de Charrua, primeiro, por SMS, depois, por meio de uma participação escrita. Quanto mais dados emergem sobre este acto bufão, tanto mais detestável ele se torna a qualquer espírito livre – apenas aos inimigos da sociedade aberta ele não repugna; não transparece, de facto, uma única nota de condenação nas palavras de Margarida Moreira. Pelo contrário, a própria parece sugerir que quem, por exemplo, num contexto desportivo, insulta os árbitros, deve também ele ser punido. Os resultados do processo disciplinar movido contra Fernando Charrua foram entretanto revelados. Este é acusado de «grave desinteresse pelo cumprimento dos deveres gerais de lealdade e correcção». No tempo de Salazar, era também preciso ser-se leal: declarava-se mesmo, por segurança, «activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas». Sobre este caso, ainda, acrescente-se que é particularmente sintomático que o mesmo insulto (“filho da p...”), quando dirigido ao primeiro-ministro, num ambiente privado, resulte num processo disciplinar; quando dirigido aos jornalistas, frente às televisões, por Alberto João Jardim, seja saudado com a permissividade do costume.

2) Maria de Lurdes Reis Rodrigues, Ministra da Educação. Esta mostrou a sua clara conivência com a actuação de Margarida Moreira ao reconduzi-la no cargo, em despacho também assinado pelo primeiro-ministro, a 5 de Junho. Ao fazê-lo, incorre em todos os crimes de que a outra é acusada no tribunal da liberdade. A Ministra, enquanto superiora política, terá ainda de se justificar pelo estranho afastamento da Associação de Professores de Matemática (APM) da comissão de acompanhamento do Plano da Matemática. Aparentemente, sob pressão repetida de um seu subordinado, Luís Capucha, a APM viu-se forçada a abandonar a já referida comissão em consequência das críticas que teceu publicamente ao funcionamento desta. Note-se que tropeçamos, de novo, no dever de “lealdade” – já invocado no processo de Charrua – que parece proibir críticas aos órgãos para os quais se trabalha ou com os quais se colabora, sob pena de afastamento dos mesmos. É próprio dos inimigos da sociedade aberta, por um lado, refugiarem-se no silêncio, fugindo às críticas, por outro, incentivarem-no, porquanto assim nem críticas há. Assiste-se à apologia do silêncio quando o exercício da liberdade se faz pelo uso da palavra. A prepotência, que isolámos já enquanto traço distintivo do adversário da liberdade, reencontramo-la na Ministra que, muito recentemente, ao ser confrontada com o acórdão do Tribunal Constitucional que declarou inconstitucional a repetição dos exames no ano passado, afirmou que voltaria a tomar a mesma medida. Em suma, inimiga da liberdade – e da razão.
o corvo

Os "G " Feitos Num 8

A cimeira dos G8, em Heiligendamm, na Alemanha, concluiu-se, enfim. Se alguma atenção os media lhe concederam, isso fica-se a dever não tanto ao trabalho dos políticos ali congregados, mas às manifestações violentas de alguns protestantes anti-globalização. Curioso é que, pesadas as verdades, no fim destes encontros, que, pouco a pouco, se foram infiltrando no quotidiano anual do mundo ocidental, ambas as partes ganharam o mesmo, que foi terem perdido. De facto, os líderes que, ritualmente, se reúnem, já provaram ter tanto sucesso nas suas aspirações quanto os manifestantes estão perto de travar a globalização e destruir o capitalismo.

O conclave dos ricos anunciou sexta-feira ao mundo que contribuiria com sessenta mil milhões de dólares para a luta contra a sida, a tuberculose e a malária em África. A declaração, porém, omitiu, convenientemente, o pormenor de que metade desse dinheiro virá dos EUA, que já antes tinham prometido essa ajuda. O texto não remete também para nenhuma data em concreto. Um prazo, contudo, tinha sido estabelecido na cimeira dos G8, há dois anos (por altura do celebrado Live Eight). Então, os governos haviam prometido duplicar a ajuda ao desenvolvimento africano até ao final da década. A verdade cruel, todavia, é que, ao invés, essa ajuda tem vindo a decrescer depois de 2005. Que necessidade há pois que se juntem agora para renovar a mentira das edições anteriores? De boas intenções, arde o Inferno.

Os oito companheiros manifestaram ainda – dizem os jornais – a sua preocupação com a situação ignóbil do Darfur, apelando a que os autores das “atrocidades” sejam julgados. O frenesim eufemístico da política moderna! No Darfur está em curso um genocídio: e por esse nome a Morte deve ser convocada. Os líderes das grandes potências, mais uma vez jogando com a ambiguidade da indefinição, prometeram ainda novas medidas contra o Irão, caso este não suspenda o seu programa nuclear. A avaliar pelo cumprimento de outras promessas do grupo, Ahmadinejad, o polémico presidente do Irão, poderá continuar calmamente a brincar à destruição de Israel, à qual já este mês se referiu novamente. O tom irónico destas palavras não deverá ocultar a gravidade da situação. Os G8 abordaram, de facto, questões essenciais: simplesmente, recuperando a sentença dos velhos Gatos, “falam, falam mas não fazem nada!”.

Claro que, naturalmente, não é fácil atingir um consenso quando um dos elementos de peso dos G8, a Rússia, por um lado, de acordo com a Amnistia Internacional, tem fornecido armas ao Darfur, por outro, sistematicamente, veta sanções que o Conselho de Segurança da ONU tem tentado impor ao Irão. A Rússia é, cada vez mais, uma peça central no xadrez do mundo: ainda há uma semana, ameaçou apontar mísseis a alvos europeus. O Kremlin parece, no entanto, ser assaz querido ao nosso primeiro-ministro, o qual foi recentemente à Rússia. O aspecto mais mediático desta deslocação toda foi, certamente, o jogging de Sócrates. O fait-divers não nos deve distrair, contudo, das suas afirmações, que não auguram nada de bom. “Ninguém queira começar a dar lições seja a quem for”, disse. Se há algo a que sou sensível, e me repugna com especial fervor, é a hipocrisia. Dói-me que Sócrates faça tábua rasa dos atropelos constantes do regime de Putin aos direitos humanos. Justificadamente, a delegação russa da Human Rights Watch exprimiu já a sua indignação com as afirmações do Primeiro. São as opções éticas do nosso bem-amado governo. Porém, igual indignação me causou a posição do Partido Comunista relativamente à censura de que foi alvo a RCTV, canal venezuelano, oposto ao regime, a que o presidente Hugo Chávez não renovou a licença de emissão. O PCP, no seu site, defende nitidamente a medida – coisa triste, muito triste.

O mundo enferma e, entre os sorrisos das fotografias, ninguém tem a coragem da chapada necessária. ■ o corvo

Anedota Triste

Há, entre a democracia e a ditadura, um amplo espectro político que aceita desvios a alguns traços-base de cada um desses dois regimes sem que, por isso, um se transforme no outro. Assim, a efémera primavera marcelista, não obstante certas liberdades arriscadas, era, ainda, um autoritarismo. Do mesmo modo, o regime de Putin, na Rússia, permanecendo uma democracia, contempla, porém, com vertigens (que induzem a queda), o precipício da ditadura. Ora, se Moscovo está já no final desse nebuloso espectro que separa os dois regimes, Portugal, longe ainda, inicia-se nessa travessia obscura, timidamente – ou não.

Muitos indícios têm vindo a acumular-se que confirmam esta suspeita, porém, nenhum tão vergonhosamente explícito como a recente suspensão de um funcionário da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte): Fernando Charrua, professor de inglês (sinto-me tentado a um “comentário jocoso” envolvendo o termo “inglês” e uma alusão sub-reptícia à licenciatura do primeiro-ministro: o exemplo alheio cala-me as palavras), ex-deputado do PSD. Este, em conversa privada com um colega, terá feito um piada sobre o curso de Sócrates. Um outro funcionário, contudo, tendo ouvido a observação satírica, relatou a anedota à directora do serviço, Margarida Moreira. Esta tomou as medidas “adequadas”. No dia seguinte, chegado ao emprego, o professor tinha o computador bloqueado, o e-mail fora lido e ele estava suspenso.

Há um pormenor, em todo este caso, que me choca quase tanto quanto a suspensão em si de que foi vítima o professor, a saber, o facto de o e-mail de Charrua ter sido devassado. Isto é próprio de regimes totalitários. Quando se atinge estes extremos, é porque eles já não existem – tudo é válido. Declaro aqui, solenemente, que já não confio no Estado. O seu longo nariz (de pinóquio, de tanto mentir) intromete-se em todo o lado. Bem-vindos à “claustrofobia democrática” que Paulo Rangel denunciava no 25 de Abril.

Margarida Moreira justificou a suspensão por “poder haver perturbação do funcionamento do serviço”. Gostava, sinceramente, de perceber esta última afirmação, pois não consigo (e já puxei muito pela cabeça, ao ponto de a ter arrancado) entender como pode uma piada rápida perturbar a DREN. Ai, que maquilhagens da verdade inventam! E, clarifique-se, é aqui irrelevante para o caso se se tratou mesmo de um “comentário jocoso” ou de um insulto: se alguém, de resto, tinha de apresentar queixa, era o visado, o próprio primeiro-ministro.

Este, para “serenizar” os portugueses, veio dizer – cinco dias depois! – que ninguém será sancionado pelo exercício da liberdade de expressão. Comentava Constança Cunha e Sá no Público que um primeiro-ministro ter de vir dizer isto transparece muito do actual clima. A ministra da educação, que recusa ir ao Parlamento, e o seu ministério têm procurado fugir à polémica. Maria Lurdes Rodrigues confessa não ter “nenhum sinal ou motivo para duvidar do [...] correcto funcionamento [...] da DREN e dos seus serviços”. Porém, o ministério está também envolto no escândalo. A 26 de Abril, o secretário-geral da educação assinou o despacho de suspensão de Fernando Charrua. Ao contrário da ministra, eu tenho razões para duvidar não só do funcionamento da DREN, mas da 5 de Outubro.

O outro Sócrates, o verdadeiro, morreu por falta de liberdade de expressão; o regime do novo, asfixia-a: a sua popularidade continua, porém, em alta. Ficaremos calados a assistir? É nosso dever reflectir no que, democraticamente, está ao nosso alcance fazer. A Declaração da Independência dos EUA diz que as pessoas estão dispostas a aceitar os erros de um governo enquanto estes forem suportáveis, mas que, atingido um certo ponto, revoltam-se. Questiono-me se faltará muito, por este caminho, para aí chegarmos... ■ o corvo

13 May 2007

Rádio Macau



Confesso, sinceramente, que não tenho um tema para esta crónica. Sentei-me na cadeira, li os jornais da semana de lés a lés e só confirmei a velha sentença do Eclesiastes 1.9: “nada há, pois, novo debaixo do sol”. Algum leitor pode ficar espantado com a arrojada afirmação. Houve nada menos que três eleições (Madeira, França, Timor), outras foram prometidas (Lisboa) e uma criança desapareceu (Algarve). Porém, a vitória de Ramos-Horta era adivinhável, a de Sarkozy expectável e a de Jardim inevitável. Rói-me um medo por dentro sussurando-me maledicente as palavras d'O Leopardo de Lampedusa:é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma”.

Carmona, filho mal-comportado, foi “expulso” do poder. Porém, no fundo, que novidade há numa câmara de Lisboa em crise e num autarca arguido – as duas coisas em risco de se tornarem um pleonasmo? Ainda recentemente, a PJ foi a Gondomar de Valentim Loureiro e Fátima Felgueiras foi acusada de eliminar elementos de acusação. E, claro, Jardim ganhou. Mas todos estes factos não significam nada, obviamente!

Por fim, o desaparecimento de Maddie tem ocupado gordamente os horários nobres dos telejornais: nem isto, contudo, é, infelizmente, novidade – Alice continua demasiado marcado no nosso espírito para que possamos esquecer isso. Porém, como o filme de Marco Martins desencantadamente revela, o interesse dos media é passageiro e superficial e, acima de tudo, desonesto, porquanto, mais do que com o drama pessoal, está procupado com as audiências baratas. A excessiva cobertura mediática do caso tem sido alvo de críticas, com muitos a sugerirem que tem sido empolado devido à origem estrangeira da vítima que tem levado a uma mobilização policial para, literalmente, inglês ver – e, mesmo assim, como o revelam os tablóides britânicos, o inglês não está contente.

A leste (e a oeste), nada de novo, portanto. Encontrei, na minha pesquisa, reconheço, meia dúzia de notícias engraçadas, insuficientes para fazer uma crónica. O primeiro prémio da bizarria é arrecadado definitivamente pelo Hamas que, durante um mês, terá mantido um programa infantil semanal de apologia à resistência armada, cujo apresentador se vestia como o Rato Mickey. Recomendo uma busca rápida no YouTube para ver excertos das aterradoras emissões. O problema dos fundamentalismos atingiu uma tal dimensão que, veja-se!, o Grande Oriente Lusitano organizou um encontro em Lisboa para debater a questão, isto numa altura em que o Serviço de Informações e Segurança confirmou que terroristas, inclusive da Al-Qaeda, têm usado Portugal como país de passagem, fraude e falsificação de documentos.

Por cá, o troféu da bizarria vai para a Segurança Social, que exigiu a uma mulher, dada como morta pelo sistema há sete anos, que provasse estar viva, por meio de certidão. O absurdo é, todavia, mitigado por um mea culpa já assumido. Ao mesmo gesto de retractação não se prestou o Tribunal da Relação de Coimbra, cujo acordão sobre o caso do sargento Luís Gomes é chocante, referindo-se ao militar como “actor-encenador privilegiado do teatro da vida da criança-vítima”, acusando-o de ter forjado um “mundo de encantamento”, uma “ficção de realidade familiar”, induzindo na menor “laços de amor”, “criando-lhe uma personalidade para o futuro, como se de animal de estimação se tratasse”: tudo pelo “interesse pessoal e egoísta de ter um filho”. Não se trata de emitir aqui qualquer juízo sobre o caso – o qual, de resto, nem tenho acompanhado muito de perto – mas sim de constatar o teor do texto.

Mas que a Justiça está mal também não é, enfim, novidade. O mundo está monótono. Abriu esta semana, em Lisboa, uma delegação de Dennis Hope, que clama ser dono da lua e vende terrenos no nosso satélite. Quiçá, por lá, a realidade será mais interessante. Por enquanto, preso à terra, vou ouvindo os velhos Rádio Macau , cantando, com eles, o célebre verso do refrão: “Já não há nada de novo, aqui, debaixo do sol”... o corvo

29 April 2007

Novos Oportunismos


Há, em Fight Club, essa icónica antologia satírica do mal de vivre finissecular, uma cena em que o protagonista, Tyler Durden, com uma pistola apontada à cabeça de um pequeno lojista, depois de este ter confessado que abandonara, por falta de empenho nos estudos, o seu curso de Biologia (a sua ambição era ser veterinário), ameaça o homem de morte caso, nos próximo dias, ele não reentrasse na Universidade e prosseguisse aquele seu emprego menor, em detrimento do seu sonho, que deixara por preguiça. Idílico, Tlyer termina: “Raymond K. Hessel, amanhã será o dia mais belo da tua vida. O teu pequeno-almoço vai saber melhor do que qualquer refeição que alguma vez tomaste”.

Evoco a cena à laia de prelúdio de uma breve reflexão sobre a mais recente campanha do Governo, Novas Oportunidades. Nela – como alguns, por certo, terão já observado, ainda que, tanto quanto me foi dado ver (mas eu também sou distraído), nenhum cartaz tenha sido afixado na nossa cidade – personagens célebres aparecem em profissões vulgarmente consideradas menores, tentando-se apresentar isso como consequência da não prossecução dos seus estudos. Assim, naquele que é talvez o cartaz mais divulgado, Judite de Sousa aparece numa banca de jornais com a legenda “Esta é a Judite Sousa que não acabou os estudos”.

Os anúncios rapidamente causaram celeuma. Manuel Alegre, indignado, chamou a atenção para a forma como ostensivamente se desvalorizavam certas profissões, representando os que as desempenham como perdedores. Se o objectivo da campanha – a luta contra o abandono escolar – é, certamente, louvável, o mesmo não se passa com o método escolhido. Como comentou José Diogo «Gato» Quintela, na sua crónica dominical no P2, esta campanha é a modos que «abrutalhada». No fundo, Tyler Durden no Fight Club e o Governo parecem padecer dos mesmos vícios de comunicação, mau grado as suas boas intenções. Não é isso que, porém, mais me choca, embora também partilhe das reticências expressas pelo deputado-poeta.

Aquilo que me irrita no cartaz é a associação simples entre estudos e sucesso. Primeiro, porque, como todos nós sabemos pelos mais variados exemplos do quotidiano, muitos são os que, sem acabar o curso, triunfam nas suas áreas e tantos outros os que, tendo o «canudo», estão longe da excelência dos primeiros. Segundo, porque aqueles que hoje cursam sabem não ter – quantas vezes! – lugar no mercado à sua espera. Magoa-me particularmente o anúncio com Pedro Abrunhosa, em que este aparece como mero arrumador de uma sala de espectáculos – é que, há cerca de um ano, a revista económica Dia D dedicou uma reportagem aos jovens licenciados que, para susbsistirem, aceitavam empregos fora da sua área e uma das entrevistadas, precisamente, ganhava a vida a indicar os lugares num qualquer teatro.

É esta mentira suprema que me revolta. A ordem natural das coisas parece mesmo funcionar ao contrário: se os que completam os estudos trabalham atrás de balcões e em cinemas, os que não os completam, ascendem, se necessário, até às cúpulas. Estas mentiras e incoerência do Governo, porém, são mais amplas. Veja-se: o partido que, por meio do Ministério da Justiça, num guia lançado depois do 25 de Abril, incentiva os funcionários a denunciaram casos de corrupção, é o mesmo que, poucos dias antes, recusou, na Assembleia, pela terceira vez, a criação do crime de enriquecimento ilícito. Isto tem, na terra em que eu cresci, o nome de hipocrisia. Como hipócrita é o discurso de austeridade do Governo: não porque, per se, seja errado, mas porque é inconsistente, como bem demonstrou o Tribunal de Contas, que voltou a criticar as nomeações excessivas do Executivo. São os “jobs for the boys”!

Novas oportunidades? Novos oportunismos! o corvo

24 April 2007

Nacionalismos

Madrugadores pontuais da cidade despertante notavam, frente à Câmara, o autocarro. Pormenor intrigante do invulgar cenário, algumas dezenas de jovens deambulavam em torno do transporte verde. Pouco depois das oito, embarcavam ordeiros e a camioneta arrancava. Assim começava para eles o Dia da Defesa Nacional. Para aqueles porventura mais estranhos ao assunto, diga-se que esta jornada veio substituir a antiga recruta e a sua obrigatoriedade estender-se-á para o ano às raparigas. Mancebo enfim maior de idade, acompanhei esta leva.

Não é minha pretensão proceder aqui a uma descrição exaustiva do dito cujo dia, sobre o qual, entre os jovens, correm as mais variadas anedotas reais. Infelizmente, a minha visita ao Aeródromo de Maceda (Ovar) não foi tão profícua em casos e ditos caricatos. Relembro, contudo, a explicação dada por uma militar para a proibição do consumo de bebidas alcoólicas na messe: «antecedentes negativos» – gosto de imaginar o que o eufemismo pode encobrir. A mesma precaução suponho que tenha presidido ao aviso do militar que, antes do hastear da bandeira, nos pediu que, solenemente, não nos ríssemos. O público, esse, só manifestou sincero interesse, no seu nacionalismo de mercenário, na sessão da tarde, dedicada às questões fundamente práticas, leia-se, aos agradáveis salários e confortáveis vantagens de uma carreira de armas. De resto, desinteressadamente suportámos o Dia nublado.

Pouco tempo volvido sobre esta experiência, na longe Lisboa, como que em resposta a esse nacionalismo tépido, o PNR col(oc)ou um cartaz no Marquês, destinado à polémica. Lembro-me de, no Secundário, agarrar um pequeno papel que afincadamente dois jovens distribuíam à saída. Só depois de atravessar a passadeira olhei para o impresso, com uma reprodução da estátua de D. Afonso Henriques e palavras de ordem semelhantes às do cartaz do PNR. Voltei-me veloz para trás, porém não vi já o que desejava descobrir. Atrás de mim, tinha vinha uma rapariga de cor: quanto não gostava de saber se também lhe distribuíram o flyer!

Se narro este pequeno episódio, é apenas para reforçar a ideia de que, longe de ser um fenómeno novo, este nacionalismo anacrónico e desproporcionado tem-se vindo a instalar entre nós lentamente e – aqui reside o busílis do problema – entre grupos jovens. Disso é sintomática a criação, em 2005, da Juventude Nacionalista (JN). O mal, porém, é geral. Há coisa de dois meses, por exemplo, recebi um mail alertando para supostos raptos de crianças por chineses nas suas lojas. Isto é tão xenófobo como o outdoor de José Pinto Coelho e dos seus. Porém, muitos persistem em repassar estas mensagens mentirosas.

Animado pela recente vitória de Salazar n' Os Grandes Portugueses e com a polémica em torno do Museu em Santa Comba Dão, o nacionalismo radical vai ganhando espaço público. Mesmo na Covilhã, onde fui passar a Páscoa, encontrei num mural alusivo ao 25 de Abril a seguinte inscrição, que vim mais tarde a saber, por meio de uma reportagem do Público, ser da autoria da JN: “hipocrisia censurar opiniões”. A frase podia estar gravada no segundo cartaz do PNR na rotunda do Marquês, que recorre a igual defesa. Sinceramente, concordo que mesmo partidos com opiniões desta natureza não devem ser proibidos de expressar os seus pontos de vista, pelo que o vandalismo de que foi alvo o primeiro cartaz me parece não só incorrecto mas também uma resposta medíocre quando comparada com a intervenção do Gato Fedorento. Contudo, o caso não é cómico, antes se reveste de andrajos trágicos, transversal a países cujo futuro inquieta: na Rússia, enquanto Kasparov era preso, uma manifestação de extrema-direita decorria sem entraves. No xadrez estranho do mundo, quem adivinhará a próxima jogada?

o corvo

04 April 2007

Quando Marilyn Encontrou Albert


Estava entre amigos, a almoçar, quando, à cabeça da mesa, alguém, espontaneamente, perguntou, entre duas garfadas descontraídas: “ viram o novo programa da TVI?”. Num só coro, as cabeças ergueram-se, como suricates, e rapidamente se instalou uma vilipendiosa troca de comentários. Ingénuo, a medo, interrompi: “Mas que programa é esse?”. Animados pelo fogo e fôlego da discussão, explicaram-me em palavras simples e curtas a essência da coisa: oito mulheres, regurgitações do estereótipo louro herdado das actrizes americanas, fechadas numa casa com oito nerds desleixados, ambas as partes tentando aprender da outra, respectivamente, a inteligência e a beleza – era esta a premissa de A Bela e o Mestre.

A descrição lembrou-me o famoso mito urbano do encontro entre Marilyn Monroe e Albert Einstein. Diz a estória que, tendo-se ambos cruzado numa festa, a diva se terá voltado para o cientista e sugeriu: “Devíamos ter um filho! Imagine se ele tivesse a minha aperência e o seu cérebro!”, ao que o físico replicou: “Imagine se tinha a minha aparência e o seu cérebro”.

Abanei a cabeça, enquanto as minhas amigas continuavam a criticar o machismo inerente à estrutura do programa. Alguns rejeitam esta crítica, afirmando que o novo reality show é igualmente preconceituoso no que toca aos homens. Porém, isso não é mais que uma falácia politicamente correcta pois se a mulher é correntemente, na sociedade materialista, pensada enquanto objecto sexual – e assim aparece retratada em A Bela e o Mestre; o homem, pelo contrário, não é concebido, no imaginário colectivo, como propriamente culto, antes, numa cultura de valorização do exterior, aparece, moldado por Hollywood, fisicamente trabalhado. Assim, o programa acaba por acentuar um estereótipo machista em relação à mulher, mas o inverso não sucede no que diz respeito ao homem.

Porém, ainda mais do que o sexismo de base do programa, inquieta-me a vitalidade do incessante e, aparentemente, infindável filão dos reality shows. Numa altura em que vividamente se discutiu, por ocasião dos cinquenta anos do primeiro canal, o serviço público, chegando mesmo algumas vozes a sugerir a sua extinção, julgo que, se há, na sua grelha, programas de qualidade duvidosa certamente dispensáveis, parte do mérito da estação reside também nos programas que dispensa, precisamente os reality shows. Este fenómeno da “tv real” confirma uma tendência que outros indícios há muito verificaram: mais e mais, desvaloriza-se a privacidade da pessoa, elemento constituitivo da sua dignidade e liberdade. É sintomático – mais, é macabro – que o protótipo de todos estes programas, o Big Brother, tenha ido buscar o seu nome ao universo totalitário orwelliano. Não é difícil, portanto, estabelecer uma ligação, por muito distantes que inicialmente pareçam um do outro, entre este fenómeno e a ressureição popular da figura de Salazar, tornada visível pelo concurso d' Os Grandes Portugueses.

Um exercício interessante, que revela bem a decadência deste género de programas, consiste em seguir o destino de cada um dos participantes depois de abandonar a mansão omnividente. Na semana passada, uma pequena notícia nos jornais sérios e um título de capa nos sensacionalistas davam conta de que “Big Mário”, participante do primeiro Big Brother, fora condenado a sete anos de prisão por roubo qualificado e agravado. Foi a pessoas como estas que metade de Portugal assistiu durante três meses! Mas, também, se é o mesmo Portugal que elege Fátima Felgueiras... ou Valentim Loureiro, o do julgamento televisivo, mais uma expressão deste conceito da “tv real”, da qual os reality shows são apenas a materialização mais bárbara. A mim, confesso, basta-me o reality show da lenta decadência nacional, transmitida em directo de qualquer telejornal, de todas as estações.

11 March 2007

Para O Futuro, Siga Em Frente


Numa cena do aguardado filme Southland Tales, de Richard Kelly, uma personagem, em posição de professora, comenta: “Os cientistas estão a dizer que o futuro vai ser bem mais futurista do que inicialmente previram.”. A observação rebolou-me na cabeça quando, na semana passada, encontrei no Público uma pequena notícia de uma grande curiosidade. A Coreia do Sul – onde se calcula que, entre 2015 e 2020, todos os lares terão um robô - reuniu um conjunto de peritos para conceberem um “código de ética” para estas máquinas. A iniciativa não é inédita: a Rede Europeia de Investigação Sobre Robótica divulgara no ano passado um relatório onde reflectia, por exemplo, sobre a justeza ética da criação de robôs destinados ao prazer sexual dos humanos, lembrando as máquinas do A.I., de Steven Spielberg.
A iniciativa da Coreia do Sul afectará, em primeira análise, as relações entre robôs e seres humanos: poderá, por exemplo, um homem casar com um andróide? Contudo, parece-me interessante reflectir também sobre a consequência de uma tal legislação para os robôs. A máquina é uma criação teleológica, destinada à execução de uma dada função. Não deverá suceder, porém, que, com os avanços da ciência, a máquina se mostre capaz de entender – e não somente obedecer – a sua finalidade e natureza compulsiva desta. O robô dotado dessa consciência estaria, nitidamente, numa condição de servidão inumana, privado da sua liberdade. Deste modo, qualquer corpus ético que se desenvolva não poderá ser do conhecimento do robô. Naturalmente, daqui resulta um intrincado conflito entre uma visão pragmática da robótica e o lado prometeico e genesíaco desta: a primeira concebendo as máquinas como servos felizes, cujo trabalho nos permitiria a nós, seus senhores, reganhar o otium horaciano; a segunda correndo atrás de um novo ser, par do homem, inteligente e crítico. Para que este último existisse, não poderia estar limitado pelo “código de ética”, mas, não preso por este, a sua vontade de servir os humanos seria decerto reduzida, almejando antes uma vida independente.
Procurando explorar estes imbróglios éticos do progresso científico, mas no campo da biogenética, um estudante canadiano concebeu um pequeno animal doméstico, sem pêlo, diferente das demais espécies conhecidas, cuja expectativa de vida é entre um a dois anos, e que pode ser adquirido em lojas seleccionadas, onde se encontra em caixas de plástico, em hibernação, à espera de ser despertado pelo dono. Pormenor importante: é tudo uma farsa. Adam Brandejs procurou com este seu projecto escolar interrogar as pessoas sobre as fronteiras morais da ciência e estudar o consumismo moderno. A sua conclusão, face aos relatos de crianças que pediam aos pais que comprassem o “bicho”, é, acertadamente, que “para toda uma geração, a vida e a ideia de vida estão a tornar-se bens descartáveis”: infelizmente, também nós aqui em Portugal compreendemos isso recentemente. É este o Maio de 68 da ciência, em que se grita pelos laboratórios: “é proibido proibir!” ?
Por vezes, perante tudo, dava vontade de construir o mundo de novo. Mas até essa última utopia parece ter ruído como uma senhora idosa que cai das escadas abaixo. Notícias recentes do Second Life [à letra, Segunda Vida], jogo cibernético onde o utilizador leva uma vida paralela à sua escolha, mostram que, onde existiam todas as condições e a reunião de vontades necessárias para, a priori, gerar uma outra sociedade melhor, esse ideal ficou pelo caminho: entre os utilizadores já circulam drogas, a corrupção já alastrou, as grandes companhias já asfixiam o mercado. Um grupo de utilizadores mais antigos criou mesmo uma Frente de Libertação que, triste ironia!, leva a cabo acções violentas de protesto, em nome do sonho perdido da terra nova e boa. O futuro pode ser, de facto, bem mais futurista do que previsto inicialmente; todavia, em última análise, assemelhar-se-á sempre, e demasiado, ao triste presente. ■ o corvo

28 February 2007

O Estudo da Nação

Um povo mal-acordado tem duas maneiras de se olhar ao espelho de manhã: pelas mãos dos artistas e filósofos, nas metáforas múltiplas da criatividade e do pensamento; ou pelos lábios dos sociólogos e matemáticos, nas estatísticas estatalmente encomendadas. O pequeno mês de Fevereiro enlatou em si, como num metropolitano japonês, ampla quantidade de estudos, revelados na última quinzena: os portugueses, como uma mulher, mediram-se no reflexo de uma montra – e descobriram a sua tristeza.

O mote foi lançado pelo último relatório da UNICEF, que registava que uma em cada cinco crianças em Portugal estava descontente com a sua vida. Só a Noruega, por meio ponto percentual – mania dos países nórdicos de liderarem todas as tabelas e todas as estatísticas!, superava a nossa taciturnidade (derivará esta tristeza comum do bacalhau?). Porém, em compensação, regista-se em Portugal o mais baixo nível, dentro do espaço da OCDE, de «bem-estar educativo», parâmetro que afere, de um modo geral, a qualidade do ensino: possuímos uma das mais elevadas taxas de abandono escolar e os resultados dos alunos portugueses nos vários testes de literacia – a nível de conhecimento científico, somos mesmos os mais fracos – justificam plenamente a nossa humilhante posição. É significativo que Portugal seja o país onde mais jovens (13%) confessam não existirem sequer dez livros em sua casa. Não obstante tudo, ou talvez por isso mesmo, os alunos portugueses são dos que dizem gostar mais da escola (31%) – possivelmente, porque nada (ou muito pouco) se faz lá. É um exercício de humor negro ler os cartas de leitor, assinadas por professores, que chegam aos jornais, relatando peripécias de aulas de substituição ou problemas com o prolongamento dos horários no primeiro ciclo. O problema só secundariamente reside em alunos ou professores, antes se centra nos poderes que lhes são superiores: respectivamente, os pais e o Ministério da Educação, prodígios de incompetência.

Tal como as crianças, também os pais deste país rasgam as vestes e batem no peito, em espectáculo tragicómico de tristeza. Um relatório de meados do mês, por exemplo, dava conta da estagnação das vendas de antidepressivos. Porém, os médicos entrevistados manifestavam o espanto, pois os casos de depressão, a seu ver, haviam aumentado – andamos todos deprimidos.

O jornalista, coitado!, avançava então com a tese da redução do poder de compra para justificar o paradoxo. E, efectivamente, Portugal, revelou dia vinte a UE, está entre os mais pobres dos seus vinte e sete estados-membros. Mais grave é o facto de o emprego não constituir necessariamente uma salvaguarda contra a pobreza: assim, 14% dos portugueses empregados vivem, mau grado o seu salário (esses salários baixos, lembram-se?, que devem atrair os chineses), abaixo do limiar da pobreza – a taxa é o dobro da média europeia; Portugal regista o pior resultado. O elevado risco de pobreza, afirma a Comissão Europeia, justifica-se pelo aumento do desemprego e o baixo nível de escolaridade dos jovens: assim fica comprovado como os dois lados da balança se interrelacionam e, por isso, o Ministério da Educação é quase tão vital para a recuperação económica do país como o da Economia.

Esta precária conjuntura contribui decerto para que Portugal apareça como o país onde se registe menor bem-estar psicológico, num estudo anglo-americano que investigou os níveis de felicidade de quinze nações europeias para os relacionar, surpreendentemente, com os problemas de hipertensão. Consequentemente, Portugal é não só, dos quinze, o mais infeliz: é também o mais hipertenso. E, desengano!, nem no campo se achará a paz que na cidade se perdeu: outra investigação da UE publicada este mês revelou que, em média, a qualidade de vida no campo é inferior à da cidade, sendo tanto pior quanto mais pobre o país. Coerentemente, Portugal aparece nos últimos da lista: eis o estado e o estudo da nação. o corvo

14 February 2007

Brincar à Paz + Memória

No primeiro dia do mês mais longo desta cidade, o mundo soube a data do último volume da saga mágica de Rowling: o sétimo livro de Harry Potter estará nas livrarias a 21 de Julho. Outro anúncio e lançamento, contudo, passaram mais despercebidos. Uma empresa americana, Impact Games, disponibilizou o seu primeiro título: Peacemaker, à letra, aquele que faz a paz. Nunca fui assíduo consumidor de jogos de computador, mas apressei-me a adquirir este. Descarreguei o programa do site oficial – www.peacemakergame.com, custando-me a compra menos de vinte euros: nitidamente um preço simbólico, se atentarmos no atentado que são os preços dos grandes jogos do mercado. Instalado o ficheiro, corri a corrê-lo.

O meu invulgar interesse remontava já ao Verão, altura em que pela primeira vez contactara, numa notícia de jornal, com o projecto. Como o próprio nome indica, neste novo jogo de estratégia, contrariamente ao que sucede nos clássicos do género, o objectivo não é tanto a eliminação física do adversário mas sim a coexistência pacífica. Se o didactismo e inovação inerentes a este conceito seriam suficientes para que o projecto fosse louvado, este reclama maiores aplausos por servir-se de um conflito real para o seu propósito. Assim, o jogo reproduz, com fidelidade e ilustrando com vídeos e imagens, o problema israelo-palestiniano.

O jogador pode optar por desempenhar o cargo de presidente da Palestina ou primeiro-ministro de Israel, em três níveis de dificuldade diferentes: calmo, tenso ou violento. Dispondo de um vasto leque de acções ao seu dispor, o utilizador tem essencialmente de tomar decisões, com cujo resultado é confrontado no fim do round, e que não só condicionam as suas escolhas como influenciam todos os outros poderes em jogo, como o Hamas, os EUA ou a ONU. O jogador estará tanto mais perto da vitória quanto melhor conseguir reunir o apoio dos vários intervenientes na cena política, preparando-os e preparando-se para o difícil caminho da paz.

Os jogos didácticos tendem a não agradar aos jogadores normais, por raras vezes conseguirem ter a mesma qualidade de outros títulos do mercado, saídos dos grandes estúdios. Tendo já mostrado Peacemaker a alguns amigos meus, não é essa a impressão que tenho: o jogo, que creio ser peça de um mundo melhor para um mundo melhor, representa um verdadeiro desafio – talvez porque o problema em que se inspira é ele mesmo um dos maiores desafios da sociedade actual. Ainda no final da semana passada, reuniram-se em Meca o presidente e primeiro-ministro da Palestina, sob os auspícios do rei saudita, para procurarem pôr termo, pela formação de um governo de unidade nacional, à guerra civil. Islão significa paz, etimologicamente. Que as raízes da palavra mergulhem na terra.

*

Faz hoje uma semana que o P.e. Abílio faleceu. Não posso deixar, dolorosamente, de o evocar aqui. O P.e. Abílio, sob o seu frontispício de rigor e precisa exactidão de latinista nas palavras e nas coisas, era também um espírito cómico, de subentendidos humorísticos de uma elevação rara, sempre perspicazes e bem-dispostos. Professor nato, nunca se escusou a pôr ao serviço dos outros – e que é a vida de um padre senão o serviço? – os seus conhecimentos, quer fosse na tarefa de revisor deste jornal (quantas vezes a sua paciência e lápis me limaram – como num trabalho de ourives – as crónicas!), quer fosse no exercício do professorado: na escola, no seminário ou entre os imigrantes, quando começou para eles aulas de português. Como pároco, o seu trabalho é indesmentível e duradoiro – fui relembrado disso quando, no sair triste e lento da igreja, revi as duas placas que ladeiam aquele hall. O P.e. Abílio, estou certo, permanecerá muito mais tempo connosco que aquele que nós permanecemos com ele.


Publicada a 14.2.2007

29 January 2007

Em Busca da Identidade Perdida

Na semana passada, integrado no Ciclo de Filmes de Culto do Teatro Gil Vicente, vi O Elemento do Crime, primeira longa-metragem de Lars von Trier, verdadeiro génio da sétima arte. O filme inaugura a sua trilogia Europa reflexão sobre o futuro do nosso continente e civilização – apresentando-nos uma Europa decrépita, pobre e podre, abandonada, impotente. A visão e a fita levaram-me a reflectir sobre o nosso destino enquanto membros desse espaço, que ainda com o início deste ano se alargou à Bulgária e Roménia, cuja entrada na União foi tão mornamente celebrada. O Espaço Euro enriqueceu-se também com a entrada da Eslovénia: quantos o terão notado, fora os numismatas? Alguns poderão justificar a falta de entusiasmo com a distância geográfica ou com a diferença de culturas, mas é o não percebermos que aqueles povos partilham as nossas raízes – e, ao mesmo tempo, as acrescentam de valores e tradições novas – que mais nitidamente revela como há Europa, mas ainda não há uma identidade europeia.

Esta falta de consciência de um elo comum – que se chama passado – é preocupante para os que olham para o futuro. Em reganharmos a certeza de sermos um estará o sucesso da nossa sobrevivência – a linha que nos separa da visão apocalíptica de von Trier. A louvada paz que tem sido abençoada como um dos maiores dons da União é uma consequência directa da percepção de que “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”, para citar Carlos Tê. Entendamo-nos: a união política e económica é somente um reflexo dessoutra unidade mais profunda de um conjunto de países que, porque partiram do mesmo ponto, querem agora chegar à mesma meta. Se a Europa está estagnada enquanto projecto é por as suas populações não entenderem esta verdade: só assim se explica as águas de bacalhau da Constituição Europeia.

Veja-se o português: este continua a olhar a UE como nascente de dinheiro (ou exílio oportuno), escapando-lhe o seu desígnio maior, como bem se percebe da recepção de Bolonha. Independentemente da atribulada aplicação do documento nas universidades (essa criticável), Bolonha, em si, pode vir a tornar-se, aliada ao programa Erasmus, no «Euro» dos universitários.

(E eu que começo a pensar que só uma Bolonha no Básico poderá salvar a educação nacional!)

Bolonha é mais um instrumento na construção da consciência europeia, que, dizíamos, é importante cimentar nos espíritos, especialmente agora, com a futura entrada, eternamente retardada, da Turquia, estranha ponte entre Ocidente e Islão, no espaço europeu. O desafio já nos é posto com o problema da integração das comunidades árabes – vivamente discutido aquando do atentado em Londres. Parte do falhanço na sua integração prende-se directamente com a grosseira ausência de um sentido de identidade europeia que os anos já deviam ter sedimentado. Quem desconhece a sua própria cultura não pode levar outros a adoptá-la. E a cultura europeia é mais do que uma mera repetição dos valores ocidentais. Se a identidade americana resulta duma mistura de culturas, a nossa resulta de uma profusão de culturas a partir de um mesmo tronco. Esta mesma derivação é, espante-se!, paradoxalmente, a nossa unidade. Angela Merkel, ao assumir este mês a presidência rotativa da UE, chamou a isto tolerância.

É que a Europa não é um monólito, mas uma árvore. Porém, tolerância, repito, não significa ignorância: pelo contrário, ela incentiva a um maior conhecimento da cultura própria e alheia, pois só assim se gera respeito mútuo. A Europa é uma ideia, e isso é fraqueza e força: fraqueza, porque não subsiste per se, antes depende das mãos e dos lábios que a façam viva; força, porque, imaterial que é enquanto ideia, nada a pode destruir – e ela persistirá!

19 January 2007

A Manifestação

4 horas: é preciso amar muito Amadeo. Regozijei na leitura da capa do jornal; preenchi-me de alegria com as imagens na televisão. Amadeo não está na lista dos grandes portugueses – Amadeo teve porém consigo os portugueses. O pintor, nome maior do modernismo europeu, teve duas infelicidades: morreu cedo, nasceu português. “Um pouco mais de sol - e fora brasa, /Um pouco mais de azul - e fora além.”, escreveu o seu amigo Sá-Carneiro: tivesse Amadeo apenas nascido em França!, houvera subido, elegante e ligeiro, mais alto que tantos outros.

O que se passou na Gulbenkian foi uma manifestação. Quiçá, mais poderosa que aos protestos convencionais. Força de um fantasma do passado!, que invocado por uma evocação, convoca assim um povo. Não houve cartazes, houve quadros; não houve sindicatos, houve Amadeo – e uma revolta, marcha silenciosa, que brilhava. Uma rebeldia contra o PREC: Processo de Rápida Estupidificação em Curso. Este foi o sinal que os portugueses quiseram enviar, como estrela de Belém, de Belém a São Bento. Este fim-de-semana, os portugueses berraram, numa língua sem TLEBS, «Nós queremos ser cultos!».

(Entretanto, na telenovela TLEBS [nova terminologia linguística], o governo procedeu a uma interrupção voluntária da mesma: “deficiências” obrigam a proceder a um trabalho de revisão nos próximos anos. Registo, para a posteridade, a seguinte frase de Luís Capucha, director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, em entrevista ao Público de seis de Janeiro: “Vamos sujeitar a TLEBS a um teste prático: saber se os alunos que aprenderam com a terminologia têm melhores resultados a Português. Vai ser já este ano que vamos fazer essa comparação, através dos exames do 9º e do 12º ano”. Não me rio de imediato: esperarei, calmo; como, de resto, procedi no caso da repetição dos exames – aguardando que o tempo me engorde a razão. Se, por acaso, os resultados dos exames forem superiores – saiba-se, foi só por acaso.)

Os portugueses não só querem não ser estúpidos, como não querem ser vistos como tal. E por isso manifestaram-se, na semana em que se soube que o Museu do Azulejo – o quarto mais visitado de Lisboa – é forçado no fim-de-semana a fechar ao almoço por falta de pessoal e que para essa situação caminham o Museu dos Coches e o Museu Nacional de Arte Antiga, não obstante em 2006 os museus estatais terem superado o recorde de visitantes firmado em 98, ano de Expo. Isto, para não mencionar na lista de indignações o fim, anunciado ainda no ano passado, da Festa da Música. Ou a imensa confusão que continua a rodear a colecção Berardo.

Dir-me-ão que quem esteve ali, na Gulbenkian, não foi o público da Floribella – mas foi decerto o público que não quer que o país caia nas mãos do público da Floribella. Foi uma população escondida que se revelou – que se vai revelando, discreta, quando as coisas boas aparecem, para as saborear (ah!, como me ocorre à memória o recente e excelentíssimo Hamlets encenado pelo TEUC no Gil Vicente de Coimbra!). E esta massa muda vai relembrando urgentemente que este país, que pôs na lista dos seus cem maiores Maria do Carmo Seabra – que promulgou a TLEBS, foi o mesmo que nela inscreveu o Pe. António Vieira, Vieira da Silva ou Almada Negreiros e levou ao grupo dos dez maiores Pessoa e Camões.

A semana passada, Portugal ratificou uma convenção da UNESCO com vista a proteger da liberalização do mercado os bens culturais, assim salvaguardando as manifestações artísticas locais que, doutra forma, não poderiam subsistir: haveria cinema português sem Estado? Calculo que os manifestantes da Gulbenkian, no meio do seu descontentamento, tenham sorrido com a notícia, esperançosos – e eu com eles – de um futuro melhor.