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08 February 2009

Escola de Meio Dia, Erros de Meia-Noite

Regresso: abandonei, enfim, o poleiro inglês. Concluí a minha emigração. Bom tempo para a viagem: depois que deixei aquilo, dizem-me, os ingleses vieram para a rua pedir emprego para os seus, zangados com os portugueses a trabalhar em terra alheia. Numa Londres agora agasalhada em neve, um corvo, preto, seria um alvo fácil da ira dos manifestantes. Bati pois as asas e voei de volta, curioso também de saber as coisas daqui. Recordo bem o meu espanto ao chegar de visita no Natal e descobrir o «novo» candidato do PSD a Lisboa: senti-me tentado a rumar de novo norte e, depois do telejornal da uma, cheguei ainda a pedir ao meu pai que comprasse o bilhete. Entretanto, Obama virou presidente e eu tive esperança que o mundo ficasse melhor e, quiçá, talvez mesmo Portugal. Quatro meses fora mudaram-me muito, certamente – mas continuo irremediavelmente ingénuo.
O país está, afinal, como o deixei e ler o jornal continua a ser aquela actividade cómico-depressiva ideal para os sábados à tarde. Lia há pouco que, pelos vistos, uns mestrandos da Universidade do Porto desenvolveram um programa para telemóvel, o Quizionário, que, dizem, é suposto ajudar os professores nas aulas: os miúdos têm uma pergunta, quatro opções e têm de escolher a certa, somando pontos. A coisa tem até níveis e tudo, para a competição ser mais renhida. Aparentemente o produto já está a ser testado e logo na mais improvável das escolas: a Carolina Michaëlis. Dá-me o telemóvel já, quero estudar – é este o novo grito de ordem.
Sejamos realistas: um aluno com um telemóvel nas mãos tem mais que fazer que jogar ao Quem Quer Ser Milionário?; inevitavelmente usa-lo-á para outra coisa qualquer, mais do seu interesse: sms e afins. Pôr-lhe um telemóvel na mãos é como dar urânio enriquecido ao Irão e esperar que ele o use para fins civis. Duvido, porém, que o projecto vá longe: Sócrates não deve apreciar concorrência ao Magalhães. A ideia, contudo, teria, estou certo, a benção da novíssima pedagogia, contente de converter toda a aprendizagem em algo necessariamente divertido. Antes, tal estratégia era próprio do infantário; aparentemente, agora, é geral.
Louvo este regresso à cultura clássica: em latim, ludus quer dizer tanto escola como brincadeira. Parece ser isto que o Ministério da Educação tem em mente agora que pretende alargar o horário das escolas do primeiro ciclo para doze horas, como anuncia, contente, a Confederação Nacional das Associações de Pais. Na Inglaterra, reparei que os filhos da minha senhoria estavam sempre em casa antes das quatro da tarde, multiplicando-se depois ubiquamente por mil e uma actividades. Aqui, pelo contrário, os próprios pais querem os filhos encarcerados na escola, à qual caberia então entretê-los após o período lectivo propriamente dito. É que, explica o presidente da Confap, «esperar que, em casa, os pais tenham literacia suficiente e computadores para ajudar os filhos a perceber as matérias» é algo que «tem de acabar». Mais valera ser directo e dizer que os pais, simplesmente, não têm pachorra.
Os longos horários de trabalho de hoje levam, de facto, a que para muitos pais seja cómodo, até necessário, os filhos poderem ficar na escola até tarde. Isto, porém, conduz necessariamente a um estranhamento entre pais e filhos, juntos cada vez menos tempo. A solução mais humana, escandalosa para os mais zelosos do lucro, seria a redução dos horários de trabalho. Isto teria ainda a vantagem de, como notava Obama na tomada de posse, combater o desemprego, pois se cada um trabalha menos, são precisos mais para fazer o mesmo trabalho.
O Ministério da Educação, pelo contrário, face ao desemprego que grassa entre a classe docente, pretende agora fazer regressar professores reformados, em regime de voluntariado, para ajudar nas escolas. A medida escandaliza-me quando penso em quantos jovens, sem conseguirem ingressar na carreira docente, trabalham em call centers. Mas este é o país em que estão – perdão, em que estamos: às vezes, ainda me esqueço que estou de volta.

imagem:
Mining Town/ Pa., Alfred Eisenstaedt (1943)

20 August 2008

Estudo Sociológico da Alma Portuguesa (Disfarçado)

Sempre apreciei os artistas de rua, na existência secreta que levam à margem de toda a sociedade, livres duas vezes, porque vão aonde querem e têm só o essencial. O meu paraíso privado é a escadaria imensa do Sacré-Coeur, em Montmatre, Paris, onde (e aqueles que viram Amélie lembrar-se-ão disso) dezenas destes bons saltimbancos encantam os transeuntes com o seu talento. Em tempo de Verão, não é raro encontrá-los nas artérias nocturnas das cidades junto à praia. Na outra noite, junto ao Casino da Figueira, ali estava: um malabarista jogando com o fogo, logo depois da estátua viva da mulher-borboleta. Impressionante. Alguém por trás de mim comentou: “Com tanta habilidade não deve ser português”. Esta frase é todo um programa.
Não acreditamos em nós próprios, maldizemo-nos (dizemos mal de nós e fazemos disso um desporto): temos a sinceridade de nos sabermos, no geral, homens sem qualidades. Que haja génios em Portugal, como o Gonçalo M. Tavares, é puro acidente, e nada tem a ver com o facto de serem portugueses; como o Euromilhões quando calha em Portugal calha em Portugal porque calhou (mas podia ter sido na China até, conquanto a China fizesse parte da Europa). O primeiro-ministro leva um lenço à cabeça, para apagar o suor e o medo, e pede-nos que não sejamos tão pessimistas porque tudo está bem e temos o Magalhães. Como não havemos de dizer mal de nós, se fomos nós que o elegemos? Com tão pouca habilidade para governar, é sem dúvida português: “Os lusitanos não se governam nem se deixam governar”, Júlio César dixit.
Esta falta de habilidade geral anda a preocupar gravemente a Ministra da Educação, que propõe agora instituir (a ver se estimula a habilidade, que é tão tímida) um prémio monetário de quinhentos euros que será entregue ao melhor aluno de cada escola, no final do Secundário. Escandalizou-se meio mundo com a notícia, incapaz de compreender que nenhum aluno se vai esforçar por tirar melhores notas na pauta para ter notas na carteira. Algumas notas soltas sobre o assunto. Temem os sociólogos, os psicólogos e outros –ólogos que esta medida fomente uma competitividade pouco saudável entre os alunos, mas isso revela um desconhecimento profundo da alma portuguesa. O português, efectivamente, tudo faz para ganhar mais uns tostões, desde que isso não implique trabalho. Exemplo: são vários os prémios de mérito nas universidades (com recompensas monetárias bem superiores a 500€); isso, porém, não trava a altíssima taxa de reprovações. Se a Ministra pretende reduzir o insucesso escolar, e é isso que pretende (engraçado que este mesmo verbo, em inglês, signifique fingir), escolheu o método errado. Quem tira boas notas (falamos aqui das notas de topo, claro) fá-lo, na maioria dos casos, como resultado de uma cultura de excelência inculcada cedo na criança pelos pais (não pelo país – um acento faz toda a diferença entre a verdade e a mentira) e, paralelamente, por um imperativo pessoal, outrora chamado brio. Excluem-se destas considerações os alunos de medicina.
Esses, empurrados por um sistema errado, são forçados a competiram estupidamente entre si, eliminando-se mutuamente por questões de centésimas. É por isso uma autêntica revolução o que o reitor da Universidade do Algarve veio anunciar no início do mês em relação ao novíssimo curso de medicina da sua universidade, que abrirá para o ano. Serão tidos em conta na admissão dos candidatos, como critérios verdadeiramente relevantes, a “atitude humana” ou a “experiência de vida com pessoas vulneráveis”. Enfim se entende que um médico tem de ser tão profissional quanto pessoa: só gostamos do Dr. House na televisão. Uma razão para não nos maldizermos: estamos a ganhar juízo, e em grandes quantidades (esperamos agora que isso não cause nenhuma indigestão). Nota importante, todavia: quem está a preparar o curso é um estrangeirado (outro que teve de partir), catedrático no King’s College, em Londres.
P.S.: O malabarista “com tanta habilidade” era alemão.

04 July 2008

Os Dias da Ment-ira

Há muito – tenho já saudades! – que não pratico o meu hobby favorito: atacar a excelentíssima Ministra da Educação e a sua trupe iluminada. Perdoe-se-me a crueza dos termos, politicamente incorrectíssimos, mas “a ira tem, porém, seus privilégios”, como escreveu Shakespeare no Rei Lear. Estes, contudo, mais que os dias da ira, são os dias da mentira (e não é abril, sequer). No requiem pela educação, a furiosa secção do dies irae (na cabeça ribombam os acordes de Mozart) foi substituída, parece, pelo dies mendacii, o da mentira.
A política tornou-se, de facto, a arte de bem mentir. A expressão peca por redundância: toda a arte é fingimento (“O poeta é um fingidor”, dizia Pessoa), mas, como explicava a protagonista de V de Vingança, o filme: “Os artistas utilizam mentiras para revelar a verdade enquanto os políticos as utilizam para esconder a verdade”. A grande vantagem da mentira hoje é ser fácil demonstrar cientificamente que é verdadeira. Já Sócrates, esse heterónimo de Platão, dizia no Hípias Menor: “o mesmo homem que mente é o que diz a verdade”. E assim a Ministra proclama: foram reduzidas de maneira extraordinária as negativas nas provas de aferição. E esquece-se: isso está longe de se traduzir num maior domínio da disciplina pelos alunos, antes reflecte uma simplificação excessiva das provas, como critica a Sociedade Portuguesa de Matemática. A Ministra vende-nos uma verdade falsa (só um tempo como o nosso podia ter engendrado este paradoxo lógico). As estatísticas, barro fácil de moldar conforme mais sirva ao oleiro, são apresentadas como espelho do real, quando nem espelho nem real são: são caricatura.
As estatísticas são hoje o bunker do governante, que nele fechado vai ignorando a cidade que se desmorona à sua volta. Hitler, nos seus últimos dias, enterrado debaixo de terra entre paredes e corredores de cimento, movia divisões imaginárias no seu mapa de guerra: assim age o político, armado dos seus números, geografias de uma realidade imaginada, falando de um mundo fantástico, irmão da Terra-Média de Tolkien ou da Nárnia de Lewis. Pouco importa que, na prática, muitos alunos pouco ou nada saibam; o importante é assegurar o seu “direito a ter sucesso”, como lhe chamou Margarida Moreira, Directora Regional de Educação do Norte, a responsável pelo badalado caso Charrua, no ano passado. Por isso, recomenda que se afaste da correcção das provas “aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média”, o que, neste contexto, significa, naturalmente, os mais exigentes.
Creio que tanto esmero não seria necessário: os exames já são, em si mesmos, assaz simples, como várias vozes têm confirmado. Importantes são os resultados, nem que para isso se recorra ao facilitismo. O lema destes novos pedagogos – devo escrever pedabobos? – parece ser o velho “laissez faire, laissez passer” – deixai fazer, deixai passar. É uma política coerente para um governo liderado por um primeiro-ministro que adquiriu a sua licenciatura da forma por todos conhecida. Ao contrário do que muitos então disseram, esta não é uma questão frívola, antes revela uma forma de ser, onde o que conta é o título, o grau, o diploma, o inglês técnico.
Veja-se a mirabolante ideia da Ministra de agora instituir um Dia do Diploma, a saber, dia doze de Setembro, em que se procederá à entrega dos certificados aos alunos que tenham concluído o Secundário no ano anterior. Trata-se da importação de uma tradição americana, bem conhecida de todos por causa dos filmes. Depois das sorridentes e televisivas entregas de computadores, a entrega de diplomas. Há-de ser giro fazer uma festa e gastar mais dinheiros públicos a distribuir papéis aos alunos. A mentira, Deus!, é uma coisa tão alegre.

O Desejo do Inútil

Hugo Pratt, um dos autores maiores do século XX, criador do imortal Corto Maltese, tendo sido, uma vez, criticado pela aparente inutilidade da sua profissão, confessou em resposta o seu desejo de ser inútil: a expressão dá mesmo título a um magnífico livro de entrevistas com o desenhador. Não raras vezes, quando me interrogam sobre o meu curso, perante a pergunta inevitável “para que é que isso serve?” (posta, por vezes, na variante, mais atenta ao futuro e ao emprego, “para que é que isso dá?”), gostava de poder responder do mesmo modo, evocando o meu capricho e gosto pela inutilidade, como Pratt.
Vivemos no que eu costumo definir como uma sociedade romana, eminentemente prática e pragmática. Se dos gregos se dizia que, para eles, tudo quanto era útil tinha de ser belo, dos latinos comentavam as más línguas, acertadas, o oposto: tudo quanto era belo tinha de ser útil. Não é sem razão que a economia triunfou sobre a política, subjugando-a: onde a política era, na origem, o combate pela utopia, um discurso sobre o que deve ser, a economia é, hoje, o manuseamento amargo do real, um discurso sobre o que pode ser, quando não mero discurso sobre o que é. Esta obsessão pelo fazível dita, por exemplo, entre as ciências, o triunfo da tecnologia. Hoje, a aferição da verdade assenta no proveito último que as coisas nos podem dar.
Muitas canetas e tinteiros se sangraram em redacções apaixonadas a propósito do recente caso de violência escolar no Porto, que o YouTube trouxe para a praça pública. Poucos, contudo, parece-me, reflectiram sobre por que razão não estava a aluna a fazer o que, naquele contexto, dela se espera: estar atenta à aula (alguns, pelo contrário, defendiam mesmo o direito da estudante a estar desatenta, se assim lhe aprouvesse, conquanto não perturbasse os demais). Pouco me importa aqui falar da falta de respeito demonstrada (sobre isso, outros, mais e melhor que eu, escreveram), mas sim sobre o profundo desinteresse que o manuseamento do telemóvel em contexto lectivo explicita. Espantarei alguns, creio.
O episódio da vergonha sucedeu numa aula de francês. Mas qual é, de facto, o interesse em estudar uma língua démodé, como o francês, especialmente hoje, num mundo em que todos compreendem o inglês? Entendo a indiferença da aluna perante a lição da professora. Mais: qual a vantagem de conhecer as bases da trigonometria, ou os maiores exportadores de cereais a nível mundial, ou de ler Os Lusíadas? De que serve saber o quotidiano dos camponeses e dos nobres na Idade Média, ou todos os detalhes do funcionamento do intestino delgado, ou a fórmula exacta para calcular a gravidade? Tudo isto são matérias que se estudam até ao nono ano. Sejamos sinceros: metade destas coisas, nenhum de nós as recorda já, e, a bem dizer, reconheçamos que mentimos quando procuramos convencer-nos da sua suma importância. Na sociedade que fabricámos, bem mais do que de conhecimentos, fala-se hoje de competências. Daí a aparição nos currículos escolares de mirabolantes disciplinas como Área de Projecto.
Esta é uma sociedade que desvalorizou o conhecimento, porquanto a maioria deste não é, de facto, útil: é meramente um exercício daquilo que nos faz mais humanos – daí ser tão precioso. É preciso inculcar nas crianças, desde a primária (aí apenas se podem plantar estas sementes), o culto da inutilidade, o saber pelo saber, sem quaisquer pretensões pragmáticas. Hoje temos inúteis (muitos, até), não temos inutilidade, porém. Uma é a receita contra isto: a curiosidade. Quando perguntaram a Pratt o que o guiou a vida toda, foi isso precisamente que ele respondeu: “a curiosidade intelectual”. A aluna da Carolina Michaelis tinha razão: a aula, é verdade, pouco valor prático tinha. Porém, tacanhos são os que se encerram nesses juízos. Amasse ela a curiosidade, tivesse sido educada para a amar, o telemóvel, esse grande hipnotizador (como aquele ladrão italiano do momento), há muito se teria reformado, derrotado.

ilustração pedida emprestada a http://binoculosqb.blogspot.com/

14 February 2008

Disparem Sobre O Pianista

Uma amiga minha, estudante de boas notas, abandonou recentemente o curso de Direito para, corajosa, prosseguir o seu sonho de longa data: ser cantora lírica. Marcámos um lanche, para ela me contar a novidade e eu lhe cantar os parabéns. Entre tostas mistas e um sumo, fomos conversando sobre a música e o mundo. Vice-presidente da Associação de Estudantes do Conservatório de Coimbra, L. (guardemos, por ora, o anonimato – em tempo oportuno, daqui por uns anos, talvez descubram, num cartaz do São Carlos, o nome dela) chamou-me a atenção para o ataque que o Ministério da Educação está a (pro)mover contra o ensino da música em Portugal. Eu lera já umas notícias sobre o assunto, e logo na altura achara tudo aquilo muito disparatado (mas essa já é a minha opinião natural sobre várias obras da actual Ministra), mas, após o lanche, resolvi, sherlock holmes, investigar o caso – e o que descobri horrorizou-me.

Depois do ataque ao Sistema Nacional de Saúde, eis o ataque à rede pública de ensino de música, essa arte maior, das artes a maior. De novo, tudo se pratica com boas intenções (o povo e os artistas é que, lá está, são burros, coitados!): desta vez, o alibi é a democratização do ensino da música. Pretende a Ministra que os conservatórios não possam dar aulas (os chamados cursos de iniciação) aos alunos do primeiro ciclo que, doravante, serão iniciados na arte musical na própria escola, no âmbito das actividades de enriquecimento curricular. Uma coisa, porém, não substitui a outra; posso afirmá-lo por experiência própria, eu que tive quer educação musical na primária, quer aulas de piano por fora, numa escola privada. Basta considerarmos que, numa turma, apenas se pode fazer uma sensibilização geral para a música, porque a aprendizagem séria de um instrumento requer um acompanhamento individual: não se pode ensinar piano a uma turma de trinta alunos (vulgarmente, escolhe-se a flauta de bisel, portátil, simples e barata). Para ultrapassar este limitação é que o conservatório oferece uma formação musical especializada, de seis horas por semana, às crianças.

A loucura da Ministra, contudo, não conhece limites, tendo passaporte para todas as fronteiras que pudéssemos conceber. Pretende pois o Ministério extinguir ainda o regime de frequência supletivo do conservatório, o mais comum, que permite ao aluno frequentar paralelamente o ensino normal e o musical, sem que seja obrigado a decidir-se especificamente por um deles. O fim deste modelo traduzir-se-á na perda de 75% dos actuais estudantes do Conservatório de Lisboa. Doravante, apenas o regime integrado estará disponível, o que obriga a que a opção por uma carreira musical de carácter profissional seja feita com somente dez anos. Esta situação – que uma criança, tão nova, seja forçada a decidir o seu futuro – é tão ridícula que, sou-vos franco e aberto, faltam-me palavras para a comentar: não sei que diga – apenas me resta o espanto ante a situação em que naufragámos. Com esta reforma, quem queira aprender um instrumento, sem desejos de fazer da música profissão, não tem mais os conservatórios.

No seminal 1984 de Orwell, todos os ministérios são nomeados pelo seu antónimo: assim, por exemplo, o Ministério da Paz é o responsável por perpetuar a guerra em Oceânia. Da mesma forma, em Portugal, o Ministério da Educação está na verdade encarregue da deseducação geral. Lamento que o novo Ministro da Cultura ainda não se tenha debruçado sobre este problema, contendo a insensatez da sua colega de governo. A música, como toda a arte, exercício humano de transcendência, é uma característica essencial da nossa natureza. Nela se exprime muito da grandeza ou ridículo de uma nação. Mesmo os cépticos e economistas têm de se curvar perante os números: a cultura representa 2,6% do PIB da UE, bem mais que o sector têxtil, a restauração ou o tabaco. Vale a pena investir nela. Estes aspectos financeiros, para mim, porém, são o menos relevante: o importante é a formação de homens, íntegros e integrais.

Contra isso combate o Ministério: contra ele combatemos nós.

imagem: fotograma de Tirez Sur Le Pianiste (1960), de Truffaut.

28 October 2007

O Deserto do Real

Há, no Matrix, essa obra magna da ficção científica, uma cena, ainda no princípio, em que o protagonista abre um livro do filósofo francês Baudrillard, Simulacros e Simulação, em cujo interior guardava alguns materiais informáticos. Porque, como os fãs aprenderam, tudo no filme dos irmãos Wachowski tem um significado, também eu, movido pela curiosidade, procurei saber mais sobre a obra do pensador francês. Esta inicia-se com uma reflexão baseada num conto de Jorge Luis Borges, titã da escrita, que, por sua vez, se inspirou em Lewis Carroll. O argentino imagina um mapa tão perfeito que corresponderia, ponto por ponto, ao próprio território que cartografava. Baudrillard usa a estória como uma metáfora: para o francês, o mapa triunfou sobre a realidade, e hoje a nossa vida desenrola-se no mapa, e não já no mundo real que ele encobre – desse apenas subsistem restos dispersos.

O real tornou-se, a bem dizer, irrelevante. Temos aqui um dos mais crus diagnósticos da nossa sociedade pós-moderna, onde tudo parece; nada, porém, é. Numa sociedade destas, a Estatística adquire particular destaque. Ela é, por excelência, a ciência da imagem, projecção do real que se quer fazer passar por ele. Neste mundo-mapa, em que o real foi soterrado sob o peso das suas variadas representações, transforma-se o retrato na cousa retratada (parafraseando Camões). Como Borges, também o génio de Poe intuiu a verdade do nosso tempo em O Retrato Oval. Nesse conto do mestre do gótico, certo pintor vai desenhando, em toda a graça e detalhe, a sua amada, sem se aperceber, contudo, que, lentamente, a vida dela é transferida para a tela. Quando o artista, por fim, contempla a sua obra, perfeita, olha a mulher – ela estava morta. É este, hoje, o estado das relações entre a realidade e o mundo fictício em que nos movemos.

Vem esta reflexão a propósito do novo Estatuto do Aluno, aprovado, faz hoje uma semana, pela Comissão Parlamentar de Educação, apenas com os votos favoráveis do obediente PS (Partido Sócrates). O diploma, que tem como principais objectivos, supostamente, combater o abandono e insucesso escolares, prevê que, para os alunos que excedam o número de faltas, os professores façam uma “prova de recuperação”. O PS defende a medida com o seu desejo de “uma escola pública inclusiva” que não exclua “por conta, apenas, de um determinado número de faltas”. Este novo Estatuto, na realidade, iliba os absentistas, concedendo-lhes uma possibilidade de recuperação à qual, em virtude do seu ostensivo desleixo, não deveriam ter direito. Torna-se possível a um aluno, teoricamente, faltar o ano inteiro e, ainda assim, passar de ano, bastando para tal ter um resultado positivo na dita “prova de recuperação”. Claro que as reprovações, graças a esta artimanha, vão diminuir: bem sublinhou Vasco Pulido Valente no Público que estas provas “pelo nome já indicam a sua natureza e o seu fim”.

Na prática, portanto, estatisticamente, se estas medidas entrarem em vigor, haverá uma redução assinalável no insucesso escolar. Deste modo, uma vez mais a imagem usurpará o lugar do real – e o mapa triunfará, de novo. É irrelevante que todos esses alunos que vão ser salvos graças às ditas “provas de recuperação” transitem sem quaisquer conhecimentos que lhes permitam enfrentar o ano escolar seguinte. O que interessa é a estatística, o retrato: e esse é positivo – mesmo que artificial. O mais grave, porém, é que, depois, serão sobre estas estatísticas – tão distantes da realidade quanto os funcionários da 5 de Outubro estão do quotidiano escolar – que novas medidas serão tomadas (ou não). O real, sublinhamos, ficou para trás há muito tempo: tudo são construções de imagens sobre imagens. É sobre uma ficção que trabalhamos, numa ficção nos movemos e existimos: eis a hipoteca da realidade. Como diz Morpheus, personagem do Matrix, citando Baudrillard: “Bem-vindos ao deserto do real”.

01 January 2007

O Padrinho


O Estado está, como polvo, espalhado, tal bebida entornada, por todo o lado. Por isso, é forte – nesse adjectivo que, para classificar este governo, é promíscuo – de em tantas bocas já ter sido falado. Sócrates apresenta-se, sistematicamente, na pesrpectiva de uma certa camada pública, como um símbolo de unidade e direcção, homem bravo, capaz de afrontar os interesses instalados – e daí retira o seu aplauso e graça. Porém, esta força, que é omnipresença, tem os seus custos – como aqueles dos que, imprudentemente, hoje querem tanto vender a sua liberdade pela sua segurança.

Exemplo: “Teme-se o pior em 2007, pois, se tudo correr como o Governo deseja, a censura vai regressar”, comentava Francisco Penim, director de programação da SIC, no Correio da Manhã de sexta-feira passada. Ainda em Dezembro, no antologia semanal do Contra-Informação, abruptamente a emissão foi interrompida para publicidade (sem que fosse depois retomada) quando Vladimir Putin (isto é, o boneco parónimo) ameaçava de morte os atletas do Spartacus de Moscovo com uma caixa contendo material radiocativo. Falha técnica? Porém, difícil de conciliar com a hipótese do erro humano, em jeito de dúvida prudente, foi a cobertura da estação pública da estação dos incêndios. A situação de aparente e subtil relação entre o Estado e a televisão pública foi sintomaticamente caricaturada pelo Gato Fedorento num dos seus sketches, onde se mostrava o apego do canal à agenda do governo. É necessária uma séria investigação sobre o assunto e, mais ainda, uma constante postura crítica por parte do espectador (hoje tão urgentemente reduzido à estupidez pelo telelixo). Este ano, de resto, foi, efectivamente, pouco abonatório para a liberdade de expressão, especialmente se tomarmos em consideração a conjuntura global com o paradigmático caso das caricaturas do Profeta.

Lendo o jornal e correndo a net, tropecei em mais um caso de intrusão do Estado num matéria, verdadeiramente, absurda. Soube recentemente que o famigerado Ministério da Educação legislou em Outubro sobre a dimensão dos cacifos das escolas: assunto de público interesse e urgência para o aumento de qualidade do ensino português. Li esta semana a sugestão de se extinguir o Ministério da Educação – efectivamente, já foi maior o meu desacordo com a ideia.

Com dois mil e sete entrou também em vigor a lei que obriga a que os pescadores lúdicos adquiram, para o efeito, uma licença, a qual os submete a um conjunto de normas como a obrigatoriedade da distância de uma dezena de metros entre cada praticante do pacífico desporto. O governo planeia, de seguida, obrigar à aquisição de uma licença semelhante os praticantes de xadrez, malha e bisca. Será enfim tempo de estender ao Ministério das Pescas a crítica que tão recorrentemente – porque acertada – se faz ao da Educação: quem nele trabalha, decerto que não tem exercido a profissão sobre a qual legisla.

Porém, revelador desta omnipotente introdução do Estado em qualquer assunto, por muito remoto que lhe seja, é a situação, tragicómica, do novo cemitério na Póvoa do Varzim, onde, por imposição da câmara, todas as sepulturas passarão a ser tayloristicamente iguais, sem ornamentos de maior: nome do morto e jarra de flores. O lema que preside à medida, confessado pelo vereador responsável, é gaulesamente inspirado: “Iguais a nascer, iguais a morrer”.

Este é verdadeiramente o Estado Social (qual crise dele!): o Estado que acompanha o seu cidadão desde o berço (em Badajoz) até à cova (na Póvoa).

22 December 2006

O Processo


Quando o bicho espevitou o olho, permaneci adormecido – e guardei silêncio. Sabia em mim muita coisa e deixei que o mundo seguisse o seu curso natural. Há um prazer hediondamente cínico em rir por último: mas até o cinismo era entre os gregos uma escola de filosofia! Acolhi, pois, como um déspota a notícia dos jornais que ordenava que o Ministério da Educação repetisse apressadamente o exame de Química a uma aluna de Coimbra, cidade do conhecimento!, e que, a obter média igual ou superior à de acesso em Medicina, se abrisse nova vaga na vetusta Faculdade local. Ah!, que gozo, ah!, que espanto!

Recordo, vívido!, uma altercação na TSF, no dia em que me fui candidatar à Universidade, e o comentário de um ouvinte que afirmava que se geraria o caos se todos os exames fossem repetidos. E eu disse, deus feito: «Faça-se o Caos!» e o Caos fez-se por tribunal. Faço figas secretas agora pela desconhecida que se sentará numa sala vigiada por dois docentes e responderá certas às perguntas. E, nessa altura, se ainda houvesse honra, a Ministra demitia-se.

De um lado, pois, se erguem prometeicos exames prometedores; do outro, esgaravatam os cientistas da 5 de Outubro as suas pedagogias alucinadas e declaram eurekas!: Filosofia não terá mais exames nacionais. [Só há, coisa de somenos, cerca de 300 cursos que aceitam Filosofia como prova de ingresso.] A Ministra e a sua equipa são reencarnações, em linha directa, sem interrupção, dos juizes que condenaram Sócrates no Areópago: estabeleço definitiva a tese da metempsicose! A Filosofia é arma do pensamento: e o Governo não quer armas, e o Governo não quer pensamento: e o Governo não quer revolução! E o Governo quer poder.

O silogismo é breve: ou a Ministra é de uma ignorância tal que não consegue perceber a fundamentalidade da Filosofia e então, pobre!, falando como Cristo, perdoemos-lhe, porque não sabe o que faz; ou a Ministra é suficientemente lúcida para entender aquilo que está em jogo e, então, é claro a intenção propositada e maléfica nisto tudo. Não há inocência na política: e todos têm as mãos cheias do sangue de Lady Macbeth. Repito: está em curso um processo de estupidificação.

E não nos deixemos enganar pelas mentiras! Ontem, como hoje, os “cérebros” quando não fogem, são vandalizados. Prova disso é a recentíssima demonstração dos bolseiros da área das Ciências frente ao Parlamento: alheados do sistema de Segurança Social, estes jovens – tantos deles, demasiado deles! – vivem em absoluta precariedade, não tendo assegurada reforma ou não podendo, sem grande luta, conseguir um pequeno crédito numa instituição bancária. Não me cabe aqui discutir que outro sistema de bolsas pode ser reinventado, cabe-me assegurar que seja respeitada a dignidade destes manifestantes – e não que sejam achincalhadas pelo Estado.

A nossa educação é kafkiana, isto é, não tem sentido nenhum. Os velhos gregos primavam por que as suas crianças desde cedo fossem cultivadas na música, na língua, na ciência e na filosofia. A primeira, ninguém sequer se levanta para discutir a sua inclusão obrigatória a substituir ridicularidades como Área de Projecto; a língua, com a nova terminologia, pode ter ficado mais cientificamente correcta, mas aparece hidra às crianças que se têm de fazer Hércules para a vencer; quanto à ciência e filosofia, já falámos. Estamos cada vez mais distantes do tempo absoluto de Sophia, esse tempo que aprenderíamos do exemplo dos helenos. No último Jornal de Artes & Letras, sugeria-se um referendo aos currículos: estou plenamente de acordo. Mais, faça-se um referendo à Ministra e sua equipa! Mais ainda, faça-se um referendo à interrupção voluntária do Governo!

11 July 2006

Histreta



Exames.

A palavra, curta, mas suficiente para fazer um parágrafo pelo peso. Por duas semanas longas, bicho hibernado, centrei-me concentrado – como os sumos artificiais, como é tanto do estudo que, neste tempo, se pratica – na matéria grave e sábia em que me iam experimentar. O de História era, a mim e aos como eu, aquele que mais pesadamente preocupava. Ironia do destino – e o destino tem essa virtude de ser particularmente cínico, foi o mais triste de todos.

Com novo programa, impossibilitados de utilizar os exames de anos anteriores como referência, sem qualquer prova modelo enviada pelo Ministério (apenas algumas directrizes), foi com surpresa manifesta que recebemos a aberração, entre grande formalidade de exame. Num primeiro conjunto, éramos confrontados com quatro questões semi-sucintas sobre o Estado Novo e uma de desenvolvimento. Esta última, contudo, não só era loucamente absolutizante, exigindo que nos estirássemos ao longo de múltiplas linhas – e, mais grave, minutos – como nos forçava a repetir muita informação anteriormente referida noutras perguntas.

O segundo grupo, esse, porém, é que se apresenta com todo o seu esplendor de disformidade: três perguntas referindo-se a um discurso de Kofi Annan sobre as questões transnacionais da actualidade, datado de 2004. Se o Ministério pretende com este grupo – que valia, note-se!, 70 pontos – testar a interpretação textual, só posso deduzir que, por certo, se terá enganado no exame: o de Português B talvez fora, para isso, mais eficaz. Ah!, mas esqueço-me que também este deixou aparvalhados alunos que, obrigados a decorar, à pressa, num só ano final, matéria gramatical (e que matéria!, as novidades gramaticais que já tive aqui antes oportunidade de falar), a viram praticamente excluída do exame, o qual pouco apelava aos seus conhecimentos gerais, resumindo-se a uma correcta leitura de textos apresentados.

Como estes, também os alunos de História perceberam que o que haviam estudado – ou não, já que estes assuntos, últimos no programa, tendem, consequentemente, a serem deixados de lado ou dados sob pressão e mal – de pouco lhes serviria para resolverem aquelas questões. Porém, até isso é o menos! O que, de facto, escandaliza aqui é o próprio testar destes assuntos. Considera-se, lugar-comum, que a História se pode fazer com justiça e imparcialidade volvidos trinta anos sobre os acontecimentos que se pretendem estudar. Ora a matéria de 12º vai desde o final da I Guerra Mundial até ao ano passado, incluindo acontecimentos muitíssimo interessantes como os atentados da Al-Qaeda, o Euro 2004 ou a eleição de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia. Seguindo o critério referido, tal devia ser ensinado apenas em 2034 – se é se na altura ainda existir Portugal, algo de que devemos sempre duvidar.

Se já leccionar isto foi uma parvoíce, mais ainda que tal saia num exame nacional, para o qual se foi obrigado a estudar três maciços volumes para, no fim, sermos presenteados amargamente apenas com dois temas, um deles ridículo. Compara-se com o currículo anterior e o seu exame, de estrutura completamente diferente e que permitia uma muito maior cobertura do programa, abordando (tome-se o exame de 2005) o modernismo na arte, o pós-II Guerra Mundial, o 25 de Abril, a Grande Depressão, a Primeira República, entre outros. Até neste aspecto, regredimos. Mas, aliás, em todos os aspectos, enquanto país, regredimos. Descansa-me ao menos que os que se me seguirão não terão igual exame de Histreta (Históra+Treta), mas novo (provavelmente, também sem prova modelo...). Só posso reiterar o que escrevia Eça n’Os Maias (aplicação de conhecimentos do estudo para os exames): «Isto é um país impossível!»

Metamorfose Incompleta IV


Concluímos, nesta crónica, a revisão dos avanços e recuos na educação portuguesa, no fim deste primeiro ano socrático, comparando com o que antes tínhamos proposto.

A última das minhas propostas era o fim de todas as reformas educativas a médio prazo. A OCDE apontou, para explicar os resultados portugueses insatisfatórios, a instabilidade governativa na pasta da Educação: 27 ministros em 30 anos. Cada um com a sua reforma, como uma senhora chique que se faz acompanhar, ao descer à rua, do seu cãozinho. Não nego que algumas possam ter sido proveitosas, mas esta espiral instaurou um mal-estar profundo na comunidade educativa. Note-se: eu apanhei uma nova reforma; aqueles que me precederam tiveram a sua própria; aqueles que, para o ano, tomarão o meu lugar, têm já uma nova.

Às propostas que em tempos idos lacei, acrescentaria outra que, cada vez mais, se me tem imposto com vital para um rendimento escolar saudável e que a OCDE veio reiterar: corpo docente mais estável. Em Portugal, dizem as estatísticas, um terço dos professores muda de estabelecimento de ensino todos os anos. Para além de prejudicar fortemente as vidas pessoais dos docentes, afecta ainda os alunos que, a meu ver, em cada ciclo, deviam ser acompanhados pelo mesmo conjunto de professores, ou seja, do 5º-6º, do 7º-9º e do 10º-12º. Eu tenho essa experiência, escolas de sucesso têm-na, e, são benéficos os efeitos duma tal política.

Claro que, a ameaçar esta estabilidade docente, aparece o novo diploma que a senhora ministra quer fazer aprovar, onde se pretende que os pais avaliem os professores, os tais, que, nas palavras da mesma, parecem ser os únicos responsáveis pelo insucesso escolar. Plagiando um filme francês, onde um rapaz perguntava a uma rapariga, que lhe respondia afirmativamente, se cria no amor à primeira vista, eu, tal ele, depois, replico «Ingénua». De facto, muito naïv deve ser a ministra senhora para diabolizar assim os docentes, esses mesmos que, como mostrou uma reportagem recente da televisão pública, estão, em muitos sítios, em estado de sítio. Ao entregar a avaliação a uma das facções do processo educativo (os encarregados de educação), vicia todo o sistema. Era como se, suponhamos absurdamente, o BE fosse encarregue de ajuizar sobre o PSD. Os pais, esses mesmos que, na maioria dos casos, se demitiram da educação dos filhos (veja-se quantos respondem às convocatórias escolares), obviamente tenderiam para a parcialidade, no grosso das situações, como é facilmente entendível. Avaliem os professores: mas que o trabalho seja feito por uma comissão neutra, também conhecida por independente.

Os professores, esses, face a tantos ataques sistemáticos, falaram na possibilidade de uma grave greve que abarcaria os dias dos exames nacionais. Sei que balbucio “Razões de quem parece que é suspeito”, como dizia Camões de Baco. Enquanto finalista, sei da fragilidade da minha posição nesta matéria, por inevitavelmente surgir como tendenciosa, por muito que eu clame a sua neutralidade. Que um grupo (professores) prejudique outro (alunos), quando a única razão de existência dos primeiros é educar os segundos, parece-me reprovável e revela que, em Portugal, não se combate pela educação, mas por interesses de classes.

O relatório da OCDE vem-nos relembrar o verdadeiro objecto da justa luta. Diz: “Apesar de não ser o discurso oficial, a retenção dos alunos é uma prática frequente e tida como a principal ferramenta para corrigir as lacunas na aprendizagem”. Ai!, quem me dera poder chumbar o Ministério da Educação!

Metamorfose Incompleta III

Continuamos a nossa análise, à luz das conclusões do relatório da OCDE, do que, no primeiro ano do executivo socrático, foi feito na área da educação, em comparação com as propostas que avançámos há um ano neste mesmo espaço.

Salientámos então a importância da obrigatoriedade da creche. Obviamente, continua por realizar. Por sua vez, o que então me motivou a inclusão desta reivindicação (que opunha à decisão ministerial de prolongar a obrigatoriedade do ensino até ao 12º ano) parece ter caído no esquecimento. Sobre este projecto do governo, diz a OCDE que não passa por aí a solução, já que poucos são os países que adoptaram essa estratégia. Acresce que se deve continuar a apostar na diversificação do secundário, investindo no ramo tecnológico. Este é, de facto, dos mais bem conseguidos e desenvolvidos do nosso país, razão de orgulho para nós (recordo a recente parceria estabelecida pela Vasconcelos Lebre com a Alemanha). O que, hoje, porém, me arrisco a defender é que esta via técnica se inicie muito antes, isto é, que, enquanto opção, seja disponibilizada logo desde o terceiro ciclo. Isso permitiria a muitos alunos – francamente desmotivados, que se arrastam pelo básico até aos 16 anos – seguir uma via profissionalizante que melhor os serviria e os manteria na escola, com mais interesse e, consequentemente, menos abandono. Esta deserção é um dos mais dramáticos fenómenos registados pelo relatório da OCDE, que pareceu ficar chocada com o facto de que aqueles que não acabam os estudos não têm dificuldades de trabalho, pelo contrário, a taxa de emprego é mais elevada para estes do que para os que concluem o secundário e mesmo para os licenciados. Que estes têm emprego é cada vez mais um mito.

Uma das outras bandeiras que levantava era a obrigatoriedade dos exames nacionais no termo dos vários ciclos de educação. Desenterrei esta preciosa frase da senhora ministra, proferida no início das suas funções: “É preciso ter consciência de que [os exames] avaliam apenas uma parte das capacidades dos alunos. Não avaliam coisas como a oralidade.” A frase põe o dedo na ferida, achando – eureka! – o busílis de toda a examinação das línguas estrangeiras. O que falta exactamente nos exames de, por exemplo, inglês, francês ou alemão é a avaliação da oralidade no seu duplo sentido: do falar e do ouvir. O conhecimento de uma língua não pode ser somente mudo (ler e escrever). Este é um dos vários pontos críticos a reformular nos exames. Porém, hoje, com a extinção gradual dos exames levada a cabo pela senhora ministra, mais importante que reformulá-los, é mesmo mantê-los.

Quanto à forte redução da carga horária, o Público de dia 28 de Abril tinha uma magnífica carta de leitor, onde, com toda a clareza, se apontava este problema como a causa maior do insucesso escolar e se acusavam os responsáveis pela perpetuação deste sistema em que os alunos do básico chegam a ter 15 disciplinas(!): os sindicatos (que, obviamente, não pretendem a redução do horário lectivo pois isso implicaria menos empregos) e as associações de pais (que querem as escolas abertas o maior tempo possível, pois não têm onde deixar os filhos). Os dois lobbies conjugados, ao qual se parece associar o próprio governo (não esqueçamos o adiamento da hora de saída na primária decretado por esta ministra), resultam na visão, comum a tanto bons como maus alunos, da escola como uma prisão. Só nenhum dos condenados compreende o crime que cometeu...

Metamorfose Incompleta II


Continuo o balanço, à guisa de avaliação, do último ano de políticas ministeriais educativas, iniciado na última crónica, recordando os pontos importantes da reforma necessária.

Um era a efectiva intervenção do Estado como órgão controlador do preço e qualidade dos manuais. Eis que, finalmente, estão em discussão pública projectos reformistas neste sentido. A 13 de Abri, o Governo aprovou o novo regime dos manuais escolares (no âmbito do qual se inscrevem as reformas já referidas no ponto anterior). O executivo anunciou que, a partir do fim da legislatura, 2009, os alunos carenciados verão os seus manuais pagos na totalidade. Não pretendo que o governo pague a íntegra dos manuais a todos os alunos, mas é preciso que estabeleça tectos mais apertados para travar o verdadeiro saque levado a cabo pelos editores. Talvez então, estes abandonassem cadernos e cadernetas que anexam aos livros, sem verdadeira utilidade senão torná-los ainda mais caros. As medidas aprovadas estipulam que o secundário passe a ser incluído no regime de preços convencionados, levando à descida do mesmos, regime que vigorava, até agora, só no básico. Os alunos, em nome dos pais que lhes pagam os livros, agradecem. O diploma prevê ainda que a escola, no exercício da sua autonomia, tenha a possibilidade de emprestar manuais, medida que vigora, por exemplo, na Alemanha.

Quanto à questão qualidade, o diploma supra-referido institui uma comissão que funcionará como entidade competente de aprovação dos livros. Aquilo que, fora eu outro, poderia, com toda a facilidade, qualificar de uma violação grosseira da liberdade, como o estão a fazer os editores (que classificam a medida de «estalinista»), não o é. Há quem diga que tal matéria (selecção dos manuais) devia caber às escolas, no quadro da sua autonomia, porém, note-se que a comissão de peritos não vai escolher os livros e impô-los, tão somente filtrar os de qualidade inferior. Os professores continuam a escolher, mas de um lote menor, onde ficam os melhores (volto a recordar que há editoras que chegam, para o mesmo ano, a ter dois manuais à escolha: absolutamente absurdo). Lia-se no Público “Do universo de livros certificados, os docentes de cada escola ou agrupamento poderão seleccionar os manuais que mais se adequam ao seu projecto educativo do respectivo estabelecimento.”: é inequívoco que a liberdade de opção não fica ferida.

Insiste, criticando, Vasco Teixeira, representante dos livreiros, “Não são dois ou três especialistas sentados num gabinete que vão saber o que precisam os alunos e professores espalhados desde o interior ao litoral e regiões autónomas”. Eu pergunto: e são dois ou três autores contratados para a feitura de o manual que o saberão? Bem vistas as coisas, quem define os manuais é um grupo não restrito, mas restritíssimo. O governo assegura que o objectivo da comissão é assegurar “a conformidade dos manuais escolares com os objectivos e conteúdos dos programas ou orientações curriculares em vigor” e promover “a elevação do seu nível científico-pedagógico“. A ser cumprido o que está no papel, só posso subscrever, com uma assinatura grande, mostrando o meu orgulho em, pela primeira vez, sair uma medida inteligente do Ministério nesta legislatura.

Quanto à mudança profunda dos programas, as minhas razões de queixa não se mantêm: agravaram-se. Como descrito numa outra crónica há pouco tempo, a reforma que na minha sombra cavalga parece que só veio agravar o fosso entre a inteligência e o sistema de ensino português – vergonhoso.

Metamorfose Incompleta I


Há pouco mais de um ano o governo de José Sócrates entrou em funções. Há um ano eu escrevia, neste espaço, um conjunto de dez medidas que urgiam em nome da saúde do sistema de educação. Hoje, um ano depois, chegaram os resultados do relatório da OCDE, que muito discorre sobre o problema do nosso ensino. À boleia, voltaram à tona os problemas estruturais: muito, ultimamente, se tem discutido sobre eles. Volvidos estes 365 dias, parece justo fazer um balanço daquilo que então chamei a lição da educação, recapitulando o que, então, em jeito de manifesto, sugeri: para constatar, triste, a metamorfose incompleta do ensino.

Começava por pedir a redução do número de alunos por docente. Afirma a OCDE a necessidade de aumentar as turmas, baseando-se nos números que evidenciam o desperdício de recursos na Educação Portuguesa, em que 93,4%(!) da despesa se destina à remuneração dos professores. Indirectamente, o que se pede é a redução do pessoal docente: contribuição ao desemprego. “Assim será possível ter melhores condições materiais e fiscais de ensino, sem aumentar o custo por estudante”, lê-se. Contudo, existem outras condições, para além dessas, necessárias à boa aprendizagem e um número reduzido de alunos ajuda a que a aula renda mais. Se o digo, não é para banalizar mais o lugar-comum, mas porque, pela experiência, o confirmei: feita a razia de alunos que, pelo caminho do secundário, vão reprovando ou desistindo, chegado, enfim, ao 12º, é translúcido o melhor aproveitamento de cada colega que me acompanha. O processo de redução das turmas é, aliás, um natural, porque, como o próprio relatório da OCDE confirma, a natalidade diminuiu fortemente, o que – notam-se já os seus efeitos – leva a menos alunos, o que, mantendo o mesmo número de turmas, conduz obviamente a turmas menores.

Porém, não podemos evitar meditar nos números assustadores com que o relatório nos confronta, no que toca ao desperdício de recursos (materiais e humanos). Obviamente, tenho de concordar com a análise quando diz que as regras dos aumentos salariais e promoções têm de ser revistas (o princípio de contenção salarial, no cenário generalizado de crise, é certo em todos os sectores, de resto). Inevitavelmente, também, terá de haver despedimentos ou, diz a OCDE, recolocamento de professores noutras carreiras (e tudo isto me levanta sérias dúvidas sociais...).

Outra das questões que mais me mobilizava era o fim da multiplicidade de manuais escolares para uma maior homogeneidade. A 13 de Abril, o governo aprovou um novo regime para os manuais escolares, com significativas alterações. A ministra critica a “proliferação de títulos no mercado, impossibilitando o efectivo controlo da qualidade por parte das escolas e dos docentes". O diploma mencionado prevê o prolongamento da vida dos manuais de 4 para 6 anos. Para além de reduzir os custos das famílias mais numerosas, contribui positivamente para o que aqui defendemos. Àqueles que criticam, acusando que os manuais de História ficarão desfasados, chamo a atenção para que nunca, na prática, professor algum dá qualquer matéria que envolva os últimos 6 anos, para além de que, se trata de um período do qual, quer quem lecciona, quer quem aprende, está ciente, porque lhe é contemporâneo. Para outras disciplinas, a crítica torna-se inviável: Matemática, por exemplo, tem um currículo inalterável; Português, idem aspas, qualquer língua, o mesmo. Ciências é, ainda, o domínio mais problemático, mas, nessa área, qualquer ano é tão cheio de tanta novidade que seria necessário anualmente fazer novos livros de texto. Todavia, para toda uma maioria de disciplinas, o projecto governamental tem todo o sentido.

03 April 2006

Apelo Público

Três acontecimentos distintos precederam esta crónica. Nas últimas semanas antes desta pausa lectiva, alguns colegas meus dos agrupamentos de economia e artes tiveram de fazer um teste para aplicarem os seus conhecimentos gramaticais recentemente adquiridos: assim o obriga a inclusão de tal matéria – não leccionada em anos anteriores – no exame, forçando professores e alunos a verem num ano o que deviam ter visto em três. Se isto fora bastante para suspirarmos de requiem pela organização do país, acontece, porém, que algo mais de grave escondia o estudo dos meus amigos. Olhando para as suas fichas de trabalho, constatei a panóplia de nomes e designações gramaticais várias com que jamais me havia cruzado na minha carreira estudantil. Pedi-lhes que mo explicassem, o que prontamente fizeram, revelando-me que aqueles termos tinham sido difundidos por um qualquer iluminado do Ministério da Educação. Era o disparate cumprido e encarnado – para não mencionar o disparate intrínseco que é aprender gramática no secundário: de todo despropositado, se a Literatura é tão mais apaixonante.

Outro dia, numa amena conversa com outro meu conhecido, ele rejubilava, porque tirara boa nota num teste de português. Perguntei pela matéria da prova e ele respondeu-me: “discurso político”. Fiquei atarantado, sem compreender: não era ele do 11º de Humanidades? Nunca eu, em igual agrupamento, aprendera tal coisa. Esclareceu-me que era uma matéria dada agora em conjunto com o Sermão aos Peixes de P.e António Vieira, uma vez que os programas de português A e B haviam sido fundidos. Mas se era para fundir, que o programa de B se elevasse ao nível do A, nunca este se baixasse ao outro! Inquiri mais, e descobri – quão pouco informado andava! – que Amor de Perdição ou Folhas Caídas deixaram de constar das obras de estudo. Obviamente, algo de podre exalava cronicamente do reino do ensino do Português...

A minha imaginação é que não podia conceber barbárie como a que finalmente se revelou em todo o seu esplendor, há uma semana, num artigo de Maria do Carmo Vieira, aparecido no Público. Aí, denunciam-se Vpps, adjectivos relacionais, nomes epicenos, nomes agentivos. Se o leitor não percebeu, não se preocupe: eu também não. Mas estes são os palavrões inventados por um qualquer linguista que, doravante, devem ser ensinados no básico para classificar aquilo que antes eram adjectivos e substantivos.

Tenho vindo a denunciar sistematicamente nesta coluna atentados à inteligência dos alunos. Se não me engano (era tão bom que me enganasse!), daqui a pouco tempo, de novo me encontrarão vituperando sobre o mesmo assunto. Porém, o que hoje aqui apresento é, de tal forma, visceralmente repugnante ao trucidar a nossa pátria – que a “minha pátria é a língua portuguesa”, como dizia Pessoa – que exige que algo se faça contra tal. Lanço, pois, aqui o meu apelo público. Apelo para ti, aluno, não só porque isto é um claro atentado à tua dignidade e uma tentativa burocratizada de te estupidificar, mas porque desnecessariamente te complicam o que é simples; apelo para ti, professor, a quem esta reforma linguística obriga a que assistas pateticamente a acções de formação e que sabes, lucidamente, o quão errada ela é; apelo para ti, encarregado de educação, porque estão, obviamente, a manipular o teu educando, castrando-lhe a cultura; apelo para ti, cidadão, porque, com um ensino assim, permites que se fabriquem patetas que governarão o país em que vives. Apelo, no fundo, para todos os homens de boa vontade – e, mais que isso, de bom senso, que é o que falta abundantemente à Ministra.

Publicado a 1 de Março de 2006

22 February 2006

«É Milhor De Decer Que De Subir»

Já o preguei várias vezes deste meu púlpito e não cesso de o fazer: nas escolas portuguesas está em curso um processo de estupidificação dos alunos. «O analfabetismo protege o analfabetismo» acusava Vasco Pulido Valente na sua coluna do Público, a propósito do fim dos exames nacionais a Português, medida entretanto revogada. Contudo, só a disposição, por parte da malograda ministra, de o fazer deve preocupar. A situação recorda-me a proposta polémica, de há uns anos, de retirar os Lusíadas do secundário.

O conhecido professor Carlos Reis denunciou, argutamente, que a retirada do exame é a definitiva subalternização das ditas Humanidades aos cursos científicos. Tudo se processa no sentido inverso: acertado para a ministra seria, por exemplo, retirar a distinção entre Português A e B. Não deve um cientista ou economista conhecer Camilo e Antero, dois dos renegados da segunda variante? Enquanto desdenha estes, o programa mitigado contenta-se em ocupar os alunos ensinando-lhes conteúdos gramaticais aprendidos no segundo ciclo, mas, agora, com designações novas. Inconcebível é igualmente o estudo cronologicamente desordenado dos autores previsto no programa, não permitindo uma visão de conjunto e continuidade como o faz, por exemplo, o seu irmão mais velho, o Português A. E, entrementes, alegremente concebemos iliteratos. O que mais indigna é a Associação de Professores de Português ter-se pronunciado pelo fim do exame – não entendi ainda o paradoxo.


Semelhantemente queria a ministra fazer a Filosofia, disciplina que seria dramaticamente reduzida em Coimbra, não fora o exame ser exigido como prova de ingresso pela Faculdade de Direito e ser obrigatória – por ora! – no décimo e décimo primeiro anos. Os currículos de Filosofia podem ser comparados aos de Ciências pelo primitivismo de ambos. Em pleno século XXI, aqueles que não optaram pela via científica no liceu, chegam ao final do ensino básico sem terem ouvido falar da teoria da evolução, da complexidade do genoma humano, da física quântica ou da teoria da relatividade. O que desta conheço é graças ao livro Mais Rápido que a Luz, de João Magueijo, físico português que ensina em Inglaterra.


Do mesmo modo, no fim do décimo primeiro ano, a Filosofia, não foram abordados Kant, Hume, Descartes, Nietzsche ou Hegel. O desconhecimento deste último, a título de exemplo, implicou que tivesse de ser a professora de português a dar umas noções muito gerais de Hegel aquando do estudo de Viagens na Minha Terra, onde a teoria do filósofo alemão ocupa lugar de destaque. A triste verdade é que, fora Piaget e a Fenomenologia, aprendi mais lendo O Mundo de Sofia de Gaarder do que ao fim desses dois anos de Filosofia escolar; e, no que respeita à Lógica, o que sei devo ao pouco que li d’ O Lugar da Lógica na Filosofia, do português Desidério Murcho, mais um emigrado em terras inglesas.

Tiram-se exames quando estes deviam ser aumentados. Se o grau de exigência não subir, ao invés de diminuir, como constantemente verificamos, prosseguiremos com uma nação decrépita. Sem conhecimentos linguísticos decentes, os alunos são até incapazes de perceber os enunciados matemáticos. Mas, ai!, é que em Portugal, para todo o obstáculo, para todo o monte no caminho, para todo o desafio, ecoam aqueles versos do Poeta «...aquele outeiro/É milhor de decer que de subir»!

Publicado a 21 de Dezembro de 2005

09 October 2005

O Arrastão ou O Cansaço de Pensar (III Parte do Ciclo Nipónico)

Este mês de Setembro trouxe aos leitores da revista de cinema Première a oportunidade de adquirirem, conjuntamente com a publicação, o filme Battle Royale, uma violenta sátira à sociedade nipónica, criticando a extrema tensão a que estão sujeitos os alunos nas escolas, onde domina um frenético regime de competição, com elevadas pressões sobre os discentes para que sobressaiam acima dos seus companheiros. Levando a um extremo cruento tal concorrência, a película retrata uma turma de nono ano em que os alunos são presos numa ilha onde têm de se matar até que só sobreviva um, num futuro distópico.

Se a ideia é abjecta, conduz-nos também a uma reflexão sobre o seu oposto: se esta obsessão desenfreada pelo estudo e pelo sucesso tem os seus efeitos nefastos, o mesmo se aplica ao relaxamento generalizado que degenera na estupidificação da juventude, entre nós. A exigência deveria substituir a indulgência, sob a asa da qual tantos maus resultados são permitidos. O ritmo de aprendizagem é definido pelos que obtêm piores resultados, obstruindo o progresso do aluno médio e retardando o do bom pupilo. Vozes erguem-se já para me classificar de elitista, contudo, já a primeira Constituição no âmbito da Revolução Francesa declarava que todos os homens eram iguais, sem qualquer outra distinção senão o seu mérito e talento. Ser elitista significa defender e premiar aqueles que trabalham mais, que se esforçam. Quer-se mão-de-obra qualificada, mas a Juventude Comunista Portuguesa não deixa de reivindicar o fim dos exames nacionais, pela óbvia discriminação que eles constituem, como bem sabemos.

Mas de que servem também tais avaliações se – como no caso da prova de Português de nono ano – roçam o cúmulo do ridículo, com perguntas maioritariamente de cruz e outras que parecem escarnecer das capacidades intelectuais dos alunos? É que – isto é importante que se compreenda – a nossa juventude – não obstante tudo o dito, até por mim mesmo – não é estúpida: ela é estupidificada; mais, é encorajada a deslizar para essa estupidez por pedagogias baratas que, de reforma curricular em reforma curricular, têm vindo a simplificar os programas. Há um célebre problema conhecido como “o problema da batata”, que é uma sátira impecável e implacável a este processo degenerativo do ensino. Por questões de espaço, é-me impossível reproduzi-lo nesta coluna, mas pode ser encontrado no sítio http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/Math/EvolucaoEnsinoMatematica.htm. A Filosofia, suposta disciplina do pensamento, somos levados a decorar, mais que compreender; a aceitar, mais do que a conquistar; a calar, mais do que a discutir.

Assim, com a sociedade incitando os jovens a não pensarem, fornecendo-lhes uma mundividência fabricada pelos mass media, nunca poderá surgir um cidadão no verdadeiro sentido do termo, ciente dos problemas da sua pólis, pronto a discuti-los na ágora moderna. Inversamente, como exposto na última crónica, o jovem comum ocupa-se só de si, dos seus conflitos, dos seus conhecidos e promiscuidades. À crise económica e política acrescente-se a crise dos vindouros. Os efeitos da tomada do poder por parte de um homem conotado com a diversão boémia e as mulheres – que ele apelidava de “os meus colos” – foram desastrosos. Imaginemos um país dum povo de análoga massa à deste homem. A essa evidente crise social que produziu tais homens, ajunte-se uma crise económica e política, com gentes que, já o diziam os romanos, “não se governam nem se deixam governar”. Onde desembocam os pesadelos? ■ o corvo

31 August 2005

Pedi, e ser-vos-á dado (I Parte do Ciclo Nipónico)

Na penúltima Pública – revista dominical do Público – pude ler um dos mais interessantes artigos deste ano, dedicado a um fenómeno social japonês que foi apelidado de “hikikomori”, palavra que se refere a jovens que, devido a uma depressão, se resolvem trancar durante vários anos nos seus quartos. Anexada à reportagem, seguia-se uma outra sobre as adolescentes do Japão. Nela, via-se como as raparigas nipónicas, extremamente mimadas, esbanjam todo o dinheiro que recebem, quer como mesada, quer dos seus trabalhos em part-time, em roupas caras, com as quais vivem obcecadas, sem aspirarem a nada mais alto do que serem donas-de-casa, com um marido rico que as sustente. É a geração do “Pedi, e ser-vos-á dado.”, em que os pais acedem a todos os desejos das filhas.

Seja-me permitido aqui reproduzir as palavras, citadas na reportagem, de Takahiro Hadaki, director duma revista juvenil feminina, procurando explicações para tal exacerbado consumismo: «A política não está bem, nem a economia. A população está a envelhecer, e eles
[os jovens] sabem que lhes cabe sustentar os mais velhos. Mas acham que não vão conseguir ter dinheiro, mesmo que trabalhem. Estão a desistir de ter esperança no futuro».


Fora de contexto, dir-se-ia que esta frase se refere ao panorama português. Entre os jovens – falo por aqueles que me são próximos e mesmo por mim – esse desalento quanto ao futuro assombra-os: o desemprego é a nova espada de Dâmocles. Em Humanidades, então, o desespero é generalizado. Cada vez mais colegas se inclinam para a hipótese de seguir Direito, o último curso com saída dentro do nosso cada vez mais decadente agrupamento. Os poucos que permanecem fiéis aos seus projectos originais (como Psicologia, História ou Filosofia), ano a ano, tomam maior consciência do suicídio profissional que professam. A título de exemplo, soube recentemente que um archeiro da Universidade de Coimbra é licenciado em Psicologia.

Assim, não é de estranhar que, entre os que obtêm melhores resultados, seja comum o desejo de emigrar. Também não é de admirar que o sistema de cunhas, parecendo ser o único meio de assegurar um emprego, ainda que mal pago, prevaleça: lugares bem remunerados, não os há suficientes para a juventude. Porque administradores da Caixa Geral de Depósitos há só nove... E para que tenhamos as indemnizações, primeiro temos de lá estar! Não que seja complicado: as quotas do partido só têm de estar em dia. Não posso deixar de apontar, a propósito, que, entre os meus conhecidos, é significativo o número de jovens que se têm vindo a registar em juventudes partidárias. Sinal dos tempos? Não obstante esta nova vaga, os partidos insistem em usar os seus velhos vultos, alguns na casa dos oitenta. De facto, como acima dizia Hadaki, «A população está a envelhecer...».

Perante isto, não será normal o descrédito em que caiu a política nacional? Esta está num ponto degradante e promíscuo, em que se misturam interesses do futebol e dos partidos, com seus boys e demagogias autárquicas. Não se entende – e perdoe-se-me o lugar-comum – que haja dinheiro para estádios, mas não para hospitais; haja dinheiro para a Ota e TGV, mas os bombeiros – os últimos heróis da nossa era – não tenham equipamento adequado nem meios suficientes para combater os fogos, que tornaram o ar nas nossas cidades literalmente irrespirável. Com auto-estima, justificadamente, tão em baixo, qualquer dia, é o país que faz “hikikomori”... ■ o corvo

25 July 2005

Os Esquecidos ou O Oblívio e Minerva

Faço parte daquela que é a última turma de Latim da minha escola. Eu e os meus colegas somos os derradeiros e nunca mais se ouvirá nas paredes da nossa secundária esse falar vetusto quando para o ano concluirmos os nossos estudos. Um pouco por todo o país, o cenário é análogo e a herança romana vai-se gradualmente desvanecendo; a grega, essa há muito passeia manca em orfanatos escolhidos, raros como os trevos quadrifólios. Paulatinamente, o testemunho greco-romano, fundador, com o judaico-cristão, da nossa matriz cultural, vai sendo esquecido com consequências danosas para a sociedade, a começar por uma estupidificação generalizada.

O desconhecimento de nós e das raízes da nossa língua – que é a nossa pátria, como declarava Pessoa – conduz, primeiramente, a uma incapacidade de entendimento do mundo actual e a uma grave e preocupante iliteracia. Foi isso que nos vieram provar os resultados miseráveis e decadentes dos exames nacionais, onde cerca de um quinto reprovou a português e mais de dois terços no de matemática, onde, já várias vezes consecutivas, foi apontado que o principal problema é a inépcia dos alunos em entenderem os enunciados: reflexo da falta de bases linguístico-culturais que não são incutidas aos jovens, porque – argumentam certos senhores – não há necessidade e é uma carga excessiva para as crianças. Contudo, continuam a sobrecarregá-las com novos horários na primária para lá das cinco horas e com disciplinas sem sentido como Estudo Acompanhado e Área de Projecto.

Estamos perante, no fundo, um problema já aqui abordado que é o do mau ensino em Portugal, que mais uma vez verifiquei quando fui renovar a matrícula: prossigo com Francês neste ano final do secundário, mas o Inglês cessou já – foi a escola que assim o ditou, imitando muitas outras em Coimbra. Torna-se incompreensível atendendo à globalização que se serve do Inglês como língua de comunicação. Há tanta preocupação em iniciar já o ensino desse falar na primária, mas todos, pelo seu silêncio, são coniventes com esta situação. Ninguém nota que uma grande maioria – e não se tome isto como hipérbole – dos alunos atinge o final do secundário sem se conseguir exprimir, findos sete anos, duma forma minimamente fluente.

Porque eu sei isto – e sei porque o vejo, e sei porque o vi sempre, e não só a inglês – não me espanta o número de negativas nos exames, achando-as pelo contrário bem positivas. Eu venho proclamar: é preciso reprovar mais! Não podemos permitir que quem não sabe continue, porque é a falta de formação – como tantas vezes tem sido apontado – que torna os nossos trabalhadores muito menos qualificados. É importante a cultura – essa que foi toda banida dos currículos. Porque nos esquecemos das bases da nossa civilização, nunca nesse ponto poderemos competir com os terroristas que, ainda na semana passada, voltaram a actuar: porque eles sabem porque lutam, eles sabem o que defendem. Os políticos ocidentais falam da democracia e da liberdade – conceitos belos, mas aquilo que eles querem defender é algo muito mais complexo e de raízes que, por a população as desconhecer, nunca poderá compreender. Falamos em choque de culturas, mas a cultura atacada não se conhece a si mesma! Que seria, contudo, de esperar quando um recinto se enche – como na feira que recentemente a nossa cidade acolheu – para ouvir Quim Barreiros? E foi isto que substituiu gregos e romanos... ■ o corvo

17 June 2005

A Lição da Educação - II

Continuando a crónica iniciada há quinze dias, aqui se apresenta a segunda vaga de propostas para um melhor sistema de ensino em Portugal; sugestões estas resultantes das minhas próprias ideias e dum debate com um colega.

6. Obrigatoriedade de exames nacionais de final de ciclo. Uma das principais razões da gigante taxa de iliteracia portuguesa é o facto de, em nome do não elitismo do sistema, consecutivamente se transitarem alunos aquém dos objectivos que deveriam ter atingido. Uma forma de evitar esses favorecimentos, a meu ver, merecedores de tanto repúdio como uma cunha, passa pela efectivação da medida proposta. Caminha-se já em Portugal para essa situação e não se deve nunca ceder às exigências dos estúrdios que reclamam o cessar de tais avaliações e o fim da nota mínima de entrada na universidade. No dia 22 de Abril, o Ministro Mariano Gago reafirmou a sua determinação na obrigatoriedade da nota mínima de 9,5 para entrada nas universidades para assegurar um ensino superior de qualidade mínima. O facto de um governante ter de proclamar isto é a prova suprema de que vivemos numa país retrógrado. Se dúvidas ainda restassem do nosso atraso, basta rir-se com as declarações doutros sectores políticos acusando o ministro de ainda mais favorecer o elitismo do ensino. Sem nota mínima, onde estariam os valores do trabalho, do esforço, do mérito pessoal? É importante a afirmação e valorização do labor de cada indivíduo.

7. Redução dos agrupamentos e maior versatilidade na passagem entre eles. A nova reforma do secundário, entrada em vigor este ano lectivo, só complicou mais a vida aos alunos de nono ano que, face a uma maior gama de ofertas, cada vez mais especializadas, são obrigados a fazer uma escolha vital cada vez mais cedo. Isto só vem entravar a mudança de agrupamento numa fase posterior que só com quatro áreas já é complicada.

8. Forte redução da carga horária. Esta é claramente excessiva e nem a introdução das famosas aulas de noventa minutos a solucionou, porque o tempo que se perdeu com elas (cinco minutos por cada hora, em comparação com os horários antigos), foi somado e recuperado em novos blocos rotativos destinados a retomar esse tempo perdido. As manhãs livres deviam acabar e serem substituídas por tardes, o que é muito mais proveitoso. Já no básico, poder-se-ia acabar com disciplinas sem sentido como Estudo Acompanhado e Área de Projecto; tudo disciplinas que visam desenvolver o lado social do aluno, sem entenderem que isso é tarefa multidisciplinar, comum da família, amigos e sociedade em geral.

9. Mudança do currículo no secundário. Devia acabar a separação entre Português A e B e a Matemática devia tornar-se obrigatório para todos os agrupamentos, sem simplificações para os não-científicos. Isso evitaria muitas falsas vocações (sempre, contudo, cada vez menores) em Humanidades, para além de fornecer aos alunos uma bagagem intelectual imprescindível.

10. Fim de todas as reformas educativas, pelo menos durante um longo período. Acaba por ser frustrante e péssimo em termos de estabilidade educativa as constantes reformas que os diferentes governos promulgam e que de ano para ano mudam tudo, frequentemente para pior. Há que elaborar um pacote radical e profundo de alterações que reúna um vasto consenso partidário (ou, pelo menos, de dois terços da Assembleia), aprovar essa última reforma e deixá-la ser aplicada. Só vários anos mais tarde se poderia considerar uma revisão, depois duma inteira geração ter passado por ela e ser, assim, possível avaliar os seus afeitos reais. Melhor educação é possível! ■ o corvo

Publicado a 18 de Maio de 2005

A Lição da Educação - I

Um amigo meu de longa data, filiado desde o início deste ano numa juventude partidária coimbrã, falando comigo numa noite cibernética, contou-me que fora convidado para ser representante dos alunos do ensino secundário na comissão política dessa organização. Honrado com a proposta, aceitou-a. Apesar da minha postura reticente face aos partidos, não pude deixar de me alegrar com o sucesso deste meu colega. A propósito deste acontecimento, iniciámos um curto debate sobre a educação, nomeadamente a secundária – a que nos diz mais respeito. Dessa conversa amena surgiu uma série de ideias reformadoras que estão na base desta crónica.

1. As turmas deviam ser mais reduzidas. É um lugar-comum da pedagogia, mas a verdade é que na mais recente manifestação das associações de estudantes não era uma reivindicação, dando-se primazia a outros assuntos como o fim dos exames nacionais. A título de exemplo, a minha classe contém em si três diferentes que se fundiram numa só, o que leva a uma desigualdade de horários escolares tremenda: enquanto há colegas que usufruem de três tardes livres, um outro terço da turma só goza duma. E, é certo e sabido, quanto menos alunos, tanto mais a aprendizagem tende a ser mais efectiva e proveitosa.

2. A inexistência duma tal variedade de manuais escolares. Se o meu amigo pretendia um livro único, eu, não chegando a esse extremo, admito, todavia, apenas duas ou três variantes. Isto é, para uma disciplina dum dado ano de escolaridade, as escolas só devem poder optar por um número limitado de manuais, de modo a que haja uma muito maior homogeneidade entre os estabelecimentos de ensino do nosso país. É espantoso constatar que hoje em dia a mesma editora chega a oferecer dois ou três manuais para a mesma matéria. A aplicação desta norma facilitaria muito mais a transferência de escola a meio do ano lectivo para os alunos que o fizessem.

3. Uma efectiva intervenção do Estado, com um órgão controlador tanto do preço como da qualidade. É vergonhoso o peso no orçamento familiar que os manuais têm no início do ano lectivo. Outra forma de o reduzir seria assegurar a continuidade dos manuais escolares por um período de tempo mais longo do que o actual, de modo a que os irmãos pudessem, sempre que possível, reaproveitá-los.

4. A mudança profunda dos programas. O caso mais notório que eu e o meu parceiro de discussão comentámos foi o da disciplina de inglês, essa tal que agora também teremos na primária. O programa de inglês ao longo do básico e secundário é simplesmente infantil e ridículo, consistindo, a partir sensivelmente do meio do percurso escolar, duma recapitulação do anteriormente dado, que por si é tremendamente insuficiente para o nível de inglês que é exigido para a sociedade global em que vivemos. Em virtude disto, a maioria dos estudantes é simplesmente medíocre, incapaz de manter uma conversa de nível médio-alto durante um período médio-longo, sem bases para entender um texto literário ou escrever uma carta formal.

5. Fala-se em prolongar o ensino obrigatório até ao décimo segundo ano. Não tendo uma posição definida sobre o assunto, considero, porém, mais importante que se torne obrigatória a creche, que, sendo já uma prática muito comum em Portugal, merecia, contudo, um maior destaque, mais apoio económico e um maior desenvolvimento. ■ o corvo

Publicado a 4 de Maio de 2005