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04 July 2008

Senhoras e Senhores, o Apocalipse!

Tive a ocasião de, na semana passada, entre exames e trabalhos, ler um dos clássicos da nona arte, Watchmen, de Alan Moore e David Gibbons, evereste dos comics americanos, desconstrução moderna, de realismo bruto, das estórias de super-heróis, obra cuja grandeza nem eu mesmo, por ora, consigo apreender totalmente. Gostaria de lhe dedicar a crónica, mas seria difícil justificar essa escolha egoísta perante o leitor, com todos os acontecimentos da semana passada. A crónica, porém, poderia bem copiar o início da BD, com uma estranha personagem desfilando um cartaz avisado e avisando, a lançar o tom do que se segue: o fim está próximo.
Quem me conhece, sabe como, mascarado de Nostradamus, prevejo regularmente para 2052 o fim do mundo. Conto a anedota com sucesso em vários jantares de gala, mas ninguém me acredita e em vão prego a minha escatologia barata. Esta consciência permanente do fim, dizia-o Steiner, é dos nossos traços mais distintivos enquanto europeus: mas, coisa triste, parece que hoje já não há muita gente interessada em ser europeu – perguntem aos irlandeses. Sócrates, abatido, chora em São Bento: lá se foi o tratado “porreiro” que era “fundamental para a minha carreira”. O não irlandês cria, de facto, uma situação embaraçosa: se, ignorando o referendo, os líderes europeus resolvem (e parece ser isso que se cozinha) avançar com o Tratado na mesma, mais razão terão os críticos do texto quando rabujam contra a falta de democracia no processo de ratificação do bicho, que dizem amamentado em secretárias ministeriais, longe do povo. Por outro lado, a Europa, obesa de vinte e sete países, precisa de agilizar as velhas instituições, para bem de todos eles, e Lisboa era uma efectiva possibilidade disso, quero crer. Na ressaca do referendo irlandês, conversava com um amigo meu, poeta e lúcido, desgostoso com o resultado, sobre que futuro a partir daqui para o projecto europeu, sem conseguirmos achar respostas ou consolos. No meio disto tudo, a Europa, cansada, velha, fuma um cigarro – e espera, ainda mais.
Portugal, porém, provou outros aperitivos do apocalipse. A paralisação dos camionistas, tivesse durado um pouco mais, teria deixado provavelmente o país sem pernas para andar, ou noutra perspectiva, precisamente apenas com as pernas para andar, de carro parado na garagem. Sem carta de condução e hibernado em casa a estudar para os exames, não notei as prateleiras vazias nos supermercados ou as filas para abastecer nas bombas: tudo me chegou pela televisão. Pouco me importa aqui discutir a legitimidade do protesto, mas não posso deixar de sublinhar a incompetência do governo e sua resposta tardia, demasiado tardia. Se não me demoro demais neste ponto é porque outro é o meu intuito. Por ora, ainda que nada lesta, a actuação do governo conseguiu apaziguar os ânimos e adormecer a situação. O problema, porém, será daqui a uma década e meia, mais ou menos, altura em que o preço do petróleo disparará não por causa da especulação, como agora, mas sim por, pura e simplesmente, o ouro negro começar a escassear. Um qualquer comentador, que a memória não me deixa recordar quem era, perguntava no outro dia que fizeram os governos desde o primeiro choque petrolífero, em 1973, para evitarem que, no futuro, se conhecesse a mesma situação. Seria injusto dizer que nada foi feito, mas ainda há muito, muito a fazer – e pouco, pouco tempo.
Outros sinais do apocalipse: no Zimbabwe, onde o povo morre à fome, a mulher do presidente gasta mais de 50.000€ em compras, na Itália, durante a cimeira mundial sobre a crise alimentar (piada negra do destino). Leio tudo isto e desanimo, confesso. Há quem diga que sou um pessimista incurável (e insuportável, também). Escrevia o jornalista americano George Will: “a coisa boa em se ser um pessimista é que nós estamos sempre ou a ter a confirmação de que tínhamos razão ou a ser agradavelmente surpreendidos”. Prefiro, de longe, a última opção.

29 January 2007

Em Busca da Identidade Perdida

Na semana passada, integrado no Ciclo de Filmes de Culto do Teatro Gil Vicente, vi O Elemento do Crime, primeira longa-metragem de Lars von Trier, verdadeiro génio da sétima arte. O filme inaugura a sua trilogia Europa – reflexão sobre o futuro do nosso continente e civilização – apresentando-nos uma Europa decrépita, pobre e podre, abandonada, impotente. A visão e a fita levaram-me a reflectir sobre o nosso destino enquanto membros desse espaço, que ainda com o início deste ano se alargou à Bulgária e Roménia, cuja entrada na União foi tão mornamente celebrada. O Espaço Euro enriqueceu-se também com a entrada da Eslovénia: quantos o terão notado, fora os numismatas? Alguns poderão justificar a falta de entusiasmo com a distância geográfica ou com a diferença de culturas, mas é o não percebermos que aqueles povos partilham as nossas raízes – e, ao mesmo tempo, as acrescentam de valores e tradições novas – que mais nitidamente revela como há Europa, mas ainda não há uma identidade europeia.

Esta falta de consciência de um elo comum – que se chama passado – é preocupante para os que olham para o futuro. Em reganharmos a certeza de sermos um estará o sucesso da nossa sobrevivência – a linha que nos separa da visão apocalíptica de von Trier. A louvada paz que tem sido abençoada como um dos maiores dons da União é uma consequência directa da percepção de que “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”, para citar Carlos Tê. Entendamo-nos: a união política e económica é somente um reflexo dessoutra unidade mais profunda de um conjunto de países que, porque partiram do mesmo ponto, querem agora chegar à mesma meta. Se a Europa está estagnada enquanto projecto é por as suas populações não entenderem esta verdade: só assim se explica as águas de bacalhau da Constituição Europeia.

Veja-se o português: este continua a olhar a UE como nascente de dinheiro (ou exílio oportuno), escapando-lhe o seu desígnio maior, como bem se percebe da recepção de Bolonha. Independentemente da atribulada aplicação do documento nas universidades (essa criticável), Bolonha, em si, pode vir a tornar-se, aliada ao programa Erasmus, no «Euro» dos universitários.

(E eu que começo a pensar que só uma Bolonha no Básico poderá salvar a educação nacional!)

Bolonha é mais um instrumento na construção da consciência europeia, que, dizíamos, é importante cimentar nos espíritos, especialmente agora, com a futura entrada, eternamente retardada, da Turquia, estranha ponte entre Ocidente e Islão, no espaço europeu. O desafio já nos é posto com o problema da integração das comunidades árabes – vivamente discutido aquando do atentado em Londres. Parte do falhanço na sua integração prende-se directamente com a grosseira ausência de um sentido de identidade europeia que os anos já deviam ter sedimentado. Quem desconhece a sua própria cultura não pode levar outros a adoptá-la. E a cultura europeia é mais do que uma mera repetição dos valores ocidentais. Se a identidade americana resulta duma mistura de culturas, a nossa resulta de uma profusão de culturas a partir de um mesmo tronco. Esta mesma derivação é, espante-se!, paradoxalmente, a nossa unidade. Angela Merkel, ao assumir este mês a presidência rotativa da UE, chamou a isto tolerância.

É que a Europa não é um monólito, mas uma árvore. Porém, tolerância, repito, não significa ignorância: pelo contrário, ela incentiva a um maior conhecimento da cultura própria e alheia, pois só assim se gera respeito mútuo. A Europa é uma ideia, e isso é fraqueza e força: fraqueza, porque não subsiste per se, antes depende das mãos e dos lábios que a façam viva; força, porque, imaterial que é enquanto ideia, nada a pode destruir – e ela persistirá!

22 December 2006

Na Rota da Europa


Viajei até à Galiza celta, dois dias, para celebrar o início de Agosto. Levei, acompanhado de assuntos pendentes, o telemóvel, para a necessidade desconhecida. Rompida a fronteira hispânica, logo a operadora de rede, prestável, se dedicou a me informar do facto. Adolescentemente, não me apercebi da verdadeira substância do aviso automático, omnisciente. Só depois de atender uma anémica chamada e registar, em consequência, um saldo anoréxico, entendi, pleno, o significado do termo estrangeiro roaming. Independentemente das promoções que as operadoras possam anunciar, este é fantasticamente absurdo no espaço europeu.

Chocado, recordei-me duma leitura antiga, algures no último semestre do ano, de uma proposta, a discutir no Parlamento Europeu que visava, precisamente, a extinção do malfadado roaming. Calculava-se mesmo que, por volta da semana final de Julho, já estivesse em vigor a medida – pela minha experiência, apercebi-me, penosamente, que não. Este é apenas mais um dos exemplos, tão quotidianos, da Europa inacabada.

A UE é, possivelmente, o facto político mais miraculoso da segunda metade do século XX, independentemente de todas as crises porque passou (e passa hoje). Pessoa escreveu, nas suas reflexões sobre a I Guerra Mundial, que a civilização europeia assentava exactamente em três pilares comuns (o Poeta nunca definiu com precisão um quarto, que ele a estes juntava): a Cultura Grega, a Ordem Romana e a Moral Cristã. Que o conjunto de nações hoje tão amplo que se reúne sobre o mesmo abraço tenha, durante séculos, digladiado-se incessantemente é motivo de estranheza, perante esta inequívoca herança comum. Foi o reconhecimento desta que me converteu num acérrimo defensor da cidadania e do projecto europeus.

É, pois, com tristeza que me apercebo das falhas desse edifício, como a do mesquinho roaming. Mas fora todo o mal europeu esse! Quando um bom amigo meu me confessa que, no dia do mancebo, o militar que o acompanhou se lamentou que havíamos perdido parte da nossa identidade nacional com a adesão ao Euro; quando, numa aula de História, discutindo precisamente tal facto, vejo uma voz feroz contra a nova moeda; não posso senão sentir desilusão perante um nacionalismo caquéctico, primitivo e medricas.

Do mesmo modo reajo e me exalto ante a cruzada das Juventudes de esquerda contra o Processo de Bolonha, como este fora um apocalipse universitário. Eu propunha até que, na mesma linha, esses grupos iniciassem manifestações contra o Projecto Erasmus, ou, ainda mais fiéis a tão nobres princípios, contra os estudantes portugueses que partem para estudar Medicina em Espanha: acaso não serão estas duas situações prenúncio de Bolonha, na permutabilidade entre universidades que pressupõem e que esta reforma vem amplamente facilitar, na uniformização europeia dos cursos que procura? Tudo quanto possa evadir os portugueses de Portugal só pode ser favorável.

Comemora-se este ano a entrada do nosso país na então CEE. É uma oportunidade única de se rever, em perspectiva positiva, esta caminhada. O fenómeno não é só português, mas sendo eu português (e mais europeu), é sobre Portugal que me debruço, constatando que ainda não soubemos acolher devidamente a ideia europeia. Enquanto assim não suceder e guardarmos o cepticismo inglês ou a negação francesa e holandesa, a Europa não se constituirá, jazendo incompleta, como sonho bonito – e arruinada. ■ o corvo