Showing posts with label política. Show all posts
Showing posts with label política. Show all posts

23 September 2009

Consenso, Projecto & Utopia

A poucos dias das eleições, continuo sem saber em quem votar. Sigo com uma atenção desmesurada a campanha: vi praticamente todos os debates, acompanho o Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios, não perco os tempos de antena e encontro-me agora a ler os programas, mesmo o dos pequenos. Em cada um, encontro propostas que me parecem viáveis e, possivelmente, de bons resultados. Os partidos, porém, parecem recusar-se por princípio a admitir que outro possa ter um contributo válido para o debate. Manuela Ferreira Leite tem, neste particular, uma virtude: sabe admitir a razão alheia, talvez por ingenuidade política. Alguns comentadores não deixaram de a criticar pelas concessões, por exemplo, que fez durante o debate com Louçã, tantas vezes admitindo estar de acordo com o líder do Bloco; isso, porém, a meu ver, revela apenas uma honestidade invulgar, tanto mais perigosa – mas também por isso mais positivamente desconcertante – nestas eleições, em que cada partido se procura demarcar dos seus vizinhos violentamente.
A lógica de qualquer sufrágico democrático força, claro, a esse jogo, em que se agigantam as diferenças e se calam pontos em comum: não se quer o eleitor indeciso. Isto, porém, é absolutamente pernicioso, ao ignorar que o que quer se construa de duradouro, há-de sê-lo com base num consenso alargado, caso contrário, inevitavelmente, finda a legislatura, reemergerá, pronto, o calão do rasganço e Portugal, assim, como Penélope, tece a sua teia e desfaz tudo, a intervalos ritmados de cinco anos, enquanto espera Ulisses-Sebastião que venha salvar Ítaca e expulsar do palácio os pretendes que dissipam a fortuna da casa. O apoio às PMEs, por exemplo, reúne o consenso dos principais partidos, mas cada um se quer afirmar o seu campeão por excelência e, ocupados nessa tarefa, evitam aprofundar essa matéria, acabando, por isso, por serem insuficientes nas suas propostas, como o bem demonstrava Nuno Canilho no editorial há umas semanas atrás.
O discurso sobre a governabilidade do país num cenário de maioria relativa é mais uma prova de que o consenso é um impropério no jargão político nacional. É curioso contrastar estas eleições quer com as americanas, quer com as alemãs; estas últimas terão inclusive lugar no mesmo dia que as nossas. Os politólogos consideram que serão talvez as últimas em que será possível uma coligação a dois, sendo provável que, no futuro, sejam necessários pelo menos três partidos para constituir uma maioria parlamentar. Obama, esse, fez do bipartidarismo uma das apostas fortes da sua campanha, prometendo amainar o conflito entre republicanos e democratas. Por uma série de razões, esta tem sido uma missão assaz difícil. Os nosso partidos, pelo contrário, apenas cripticamente falam em coligações. Todos terão o seu contributo para dar, mas, ao invés de promoverem um debate partilhado, cada um, num gesto de alguma arrogância, apresenta, como tantas vezes se vê na Assembleia, um projecto-de-lei diferente sobre um mesmo tema, apenas para o ver chumbado por todos os outros.
Subjacente a esta incapacidade de diálogo, jaz um mal maior. Cada partido a concurso propõe muitas medidas nas mais diversas áreas, mas falta a todos um projecto para o país que enquadre e dê sentido a essas medidas, que assim não são senão uma forma de confrontar o real imediato, desprovidas de qualquer perspectiva de futuro. Com o déscredito das grandes utopias, abandonou-se de todo a utopia como forma de fazer política, melhor, como pré-requisito justificativo de toda a acção política. Assim, dão-se muitos passos, mas ninguém sabe já para onde se caminha.

09 September 2009

Para Uma Análise Literária Dos Cartazes Políticos

A propaganda política é coisa velha: já em Roma os latinos grafitavam as paredes da Urbe com apelos ao voto neste ou naquele candidato (ou então com insultos ao adversário, técnica não menos eficaz). Com a emergência do Império, o hábito esmoreceu e como que hibernou até ao início do século XX, altura em que o cartaz irrompeu na cena política e artística, tornando-se na arma ideal de endoutrinação dos regimes totalitaristas, ao mesmo tempo que se afirmava como nova forma de arte, o equivalente gráfico do manifesto berrado, género tão querido aos futuristas. Não sem razão o Museu de Design e Moda, em Lisboa, tem patente uma exposição de cerca de duas centenas e meia de cartazes políticos, pois estes existem também enquanto objectos estéticos – pense-se, por exemplo, no icónico poster de Obama, de Shepard Fairey, que acabou mesmo leiloado.
Agora que se aproximam as legislativas e as autárquicas, as estradas, mas sobretudo as rotundas, pululam com cartazes promovendo os respectivos partidos e candidatos. A maioria dos outdoors dos políticos portugueses, porém, a entrarem num museu, só à laia de provocação (Duchamp também exibiu um urinol): não há neles uma única ideia estética e, o mais das vezes, limitam-se a repetir o mesmo modelo com slogans diferentes e, claro, uma cara outra. Gastei a semana passada a cirandar pelo Minho: vi uma boa meia centena de cartazes e registei com o afinco de um estenógrafo as várias palavras de ordem inscritas neles. Os candidatos às câmaras e às juntas conhecem quatro/cinco palavras e duas/três formas de as articularem: com isso fabricam toda uma gama de motes em que um apenas com dificuldade se distingue do outro.
A oposição, como um mantra, repete nos cartazes mudança, mudar ou qualquer palavra da mesma família (e isto é uma constante). Os actuais presidentes contra-atacam insistindo na justeza do rumo, palavra apaparicada pelo marketing do poder, que invoca a obra feita. Depois aparecem meia dúzia de cartazes a apelar ao colectivo, normalmente num de dois modelos, o Juntos por... ou o parónimo Todos por.... Há quem peça ou prometa mais ou melhor para terra, mas acima de tudo remete-se para o futuro, indubitavelmente o lema mais popular da campanha. Resta ao eleitor guardar a fé: acreditar, confiar, confiança (e outras variantes) são palavras que abundam. E pronto: a isto se resumem cinco sextos dos cartazes que engalanam o Norte.
Os cartazes na nossa cidade também não se destacam de sobremaneira. O de César Carvalheira faz o erro básico de cortar em dois a frase do candidato, intrigando quem veja só uma das partes: «depois as ideias, os projectos e as obras». Depois do quê?, perguntar-se-ia o eleitor incauto, do meu voto? De novo, pois, discurso da fé. Só vendo o outro cartaz, que antecede este, mas está sem grande inteligência virado precisamente para o outro lado da estrada, se entende: «As pessoas e o concelho primeiro». Não se pode pedir aos eleitores tão grande esforço mental, mas sobretudo do pescoço. Quanto a Carlos Cabral, repete ipsis verbis o lema do candidato de Conde, por sua vez o mesmo do de Lordelo, ambos socialistas também. Estranho que num partido cujo líder permanentemente fantasia com outro Portugal, querendo fazê-lo passar pelo real, falte tanta imaginação, afinal.
Ninguém arrisca uma proposta concreta, uma ideia que seja, que possa alimentar o debate: os cartazes têm um nível de informação zero e pouco mais servem que para feiosamente marcar presença. Fala-se em mudança e futuro, mas sem que se especifique a direcção dessa mudança ou a forma desse futuro. As eleições autárquicas, que seriam, por excelência, uma ocasião para promessas assaz concretas e palpáveis, ao encontro de necessidades muito específicas dos eleitores, acabam afinal por resvalar para um discurso vazio. «Palavras, palavras, palavras», lamentava-se Hamlet – e lamentamo-nos nós.

A Gente Vai Continuar

É raro hoje, entre os jovens, discutir política. O assunto, se é trazido ao barulho, causa um mal-estar pronto, quer-se despachá-lo rápido, como um miúdo que come primeiro os brócolos que a mãe lhe impõe (os vegetais são importantes) para então gozar o resto do seu prato favorito. É simplesmente um tema impróprio, revelador de uma profunda falta de ciência social. Lembra essa cena brilhante d’ O Idiota, de Dostoiévski, em que o protagonista tem de ir a um serão burguês onde será apresentado e a amada, sabendo da tendência dele para as filosofias, o proíbe vivamente disso. Myshkin, porém, descumpre a promessa, começa uma discussão sobre religião, exalta-se, parte por acidente o vaso favorito da dona da casa e tem um ataque de epilepsia, estragando todo o serão. Uma conversa política séria corre o risco de acabar em igual pateticismo. É que a vida social é como patinar no gelo: necessariamente superficial.
Contudo, se acaso sucede essa coisa improvável que é ter-se um debate sério, não raro os meus amigos me têm ouvido dizer, à laia de provocação (como o Ega, n’ Os Maias, que aconselhava a conquista espanhola de todo o Norte), que Portugal será o primeiro país da História a extinguir-se, como os dodos ou os dinossauros. Mais: a coisa acontecerá, se tudo correr bem, lá por volta de 2033, para coincidir com o centenário do Estado Novo. Fiava-me eu na convicção de que o estado actual das coisas era simplesmente insustentável e, portanto, inevitavelmente, como isso fora uma qualquer regra física, teria de acabar (os moldes em que isso aconteceria, se por uma evaporação súbita do país ou uma debandada colectiva, não sabia).
Alguns rotulariam isto de pessimismo e chamar-me-iam Corvo da Tempestade, como se fazia, conta Tolkien n’ O Senhor dos Anéis, em Rohan a Gandalf, por ele apenas trazer notícias más. Descri entretanto, porém, da minha profecia. Diz-se, a um determinado momento da Declaração da Independência dos EUA, que “a humanidade está mais disposta a sofrer, enquanto os males forem suportáveis, do que a desagravar-se abolindo as formas a que se acostumara”. Para meu terror e insónias, percebi enfim que todos os males são suportáveis. O país não se extinguirá só porque chegou a um aparente ponto de colapso, em que a corrupção & as pressões, como Deus, se fizeram omnipresentes e estão no meio de nós. Olhe-se Itália, país do qual nos temos vindo estranhamente a aproximar, e onde todas estas práticas são quotidianas, instituídas e, aliás, necessárias ao funcionamento das instituições.
Não é por as coisas estarem mal que elas vão necessariamente mudar, não importa o quão mau seja esse mal – e temos de beber as consequências desta verdade até ao fim do seu horror. O Estado, de resto, como já notavam Marx e Nietzsche e outros, visa essencialmente conservar-se como é: o poder perpetua-se, garante o status quo, salva a pele. Vejam-se as escandalosas alterações feitas entre nós à lei de financiamento dos partidos, ou pense-se no mais recente caso que agita Inglaterra, onde os deputados usaram dinheiros públicos para ridículas e luxuosas despesas privadas. É normal que confusões destas se instalem, e isso vê-se no próprio discurso político: Elisa Ferreira, em campanha para a câmara do Porto (e para o Parlamento Europeu, mas só para assinar a folha de presenças em Bruxelas) explicou, preto no branco, que o dinheiro do Estado era dinheiro do PS.
Inflicto pois aquele que foi até hoje, aqui e tantas vezes, o meu crocito: o país não está, de forma alguma, à beira do fim ou sequer de uma revolução. Ainda que Sócrates, e muitos dos seus crentes, não o acredite, Portugal sobreviverá sem uma maioria absoluta – tal como uma maioria absoluta do PS, por sua vez, não destruirá o país. E este tudo ser suportável, este nada ter de mudar, este assentimento ao curso das coisas, independentemente dele, é precisamente o nosso drama: vamos andando (resposta tão nossa), continuamos, arrastamo-nos, espojamo-nos.

Sobre Fobias (Da Tecnologia & Da Democracia)

A Assembleia da República fez-se nova. Não mudaram, (par)lamentavelmente, os inquilinos, mas tão somente a sala das sessões, que foi submetida a uma extensa remodelação com vista à sua modernização: cada deputado, por exemplo, dispõe agora de um computador individual (um Magalhães?) e pode, doravante, fazer uso de materiais audiovisuais nas suas intervenções, graças ao novíssimo sistema de projecção digital. Trata-se de um Parlamento para o século XXI, como o definiu a secretária-geral da Assembleia.
O choque tecnológico chegava enfim à política. Os Verdes já se haviam anunciado prontos a dar pleno uso ao novo equipamento a partir do próximo 25 de Abril. Os deputados, porém, assustaram-se e correram para a mamã, a tratarem de se precaver do choque com airbags vários. Sossegou a mãe toda a gente: devido a “problemas deontológicos”, porque a AR “não é um estúdio de televisão”, as geringonças informáticas serão introduzidas com “pequenos passos”, explicou Jaime Gama, presidente da Assembleia. A projecção de sons, vídeos, imagens e fotografias foi adiada sine die, e a medida, na falta de bom senso, recolheu consenso.
Gastou-se, portanto, cerca de quatro milhões e meio de euros do dinheiro dos contribuintes na remodelação da AR para os deputados terem um moderníssimo sistema de projecção digital que não utilizam, como uma daquelas bugigangas africanas que se compram nos mercados de artesanato, que servem para não servir para nada, com efeito estético apenas. Se essa era a intenção do Parlamento, teria ganho mais em adquirir, pelo mesmo preço, um qualquer quadro menor de Picasso e um bom Gauguin.
Justificam os deputados a sua precaução no usarem as inovações digitais com o facto de não serem conhecidas experiências análogas no estrangeiro. Entendamo-nos, pois: Portugal tem uma vez num século a oportunidade de estar à frente dos demais países – e recusa-se! Se algo não foi primeiro feito lá fora, nós, portanto, não o sabemos fazer, devemos concluir. Se calhar tinham razão aqueles que entendiam haver raças inferiores: a portuguesa!, ou assim pensam os nossos deputados (talvez baseados no juízo que fazem de si próprios).
A mesa da AR está já a trabalhar num esboço de regras para a utilização do sistema de projecção – e neste assunto urgentíssimo se entretêm os nossos representantes. Eis um dilema: ou os deputados são naturalmente sensatos no uso de materiais audiovisuais, e, assim sendo, o conjunto de regras para a sua utilização em que agora se trabalha é desnecessário de todo (mas faz-se, todavia!); ou, pelo contrário, os deputados precisam efectivamente dele, revelando-se como um bando de miúdos entusiasmados por um brinquedo de novo: a quantidade de legislação é inversamente proporcional ao bom senso daqueles que ela governa.
E interrogava-me eu sobre o porquê de tudo isto, do absurdo, quando, relendo a notícia no jornal, vejo que, juntamente com vídeos, sons e afins, foram também expressamente proibidas as “campanhas negativas”. Eis, enfim, o estranho caso explicado, a causa verdadeira de toda a cautela: certamente esta será apenas mais uma das medidas para que o PS se possa proteger das infames campanhas negras que estão a ser movidas contra o seu líder. Segue a AR o mesmo caminho que a câmara da Guarda, que apelou agora para o Tribunal Constitucional para evitar o acesso dos jornalistas à documentação nos seus arquivos referente a Sócrates. Também a Entidade Reguladora para a Comunicação Social afia os dentes contra a TVI, permanecendo calada face à RTP, concubina da agenda política do poder.
Modernizar o Parlamento, quando metade dos deputados são robôs das suas bancadas (tecnologia de pontíssima)? Modernize-se antes a nossa democracia: reganhemos-lhe liberdade.

Lições Darwinistas Sobre A Política Portuguesa

Habita na alma humana uma vontade profunda de ordem: é a nossa forma de estar no mundo. Postos na passadeira-rolante do agora que foge, pensamos o que está para vir sob a forma de planos – em poesia chamados de sonhos – e arrumamos as coisas passadas numa narrativa mais ou menos coerente que responde pelo nome de: memória. Por meio desta, o passado actualiza-se, faz-se uma vez mais, presente; é uma eurídice, amada de orfeu, que os deuses dos infernos, compadecidos, deixam, já depois de morta, regressar à terra. A memória, fluida (estado líquido do Tempo), guarda de tudo apenas as coisas importantes que nos explicam onde estamos. É como uma cábula da nossa personalidade, à qual recorremos para nos lembrarmos de quem somos.
Isto da memória, válido no plano individual, é-o também ao nível do género humano como um todo. Ensinou-nos Darwin, n’ A Origem das Espécies – e celebramos este ano os 150 anos da sua publicação –, que descendemos todos dos macacos. Só à luz desse passado consigo, de facto, explicar as macacadas que vou sabendo. Aparentemente, no país basco, o candidato do partido nacionalista, num comício durante o período do Carnaval, vestiu os seus apoiantes de personagens do Star Trek e fez-se ele mesmo passar (o sujeito, dizem, é parecido) por Mr. Spock, um dos protagonistas da mítica série de TV. Qual o carnaval mais verdadeiro – se o da política, se aquele que serviu de pretexto para a mascarada – é difícil de assegurar.
O estranho comício tinha como objectivo contrariar a perda de pontos do candidato nas últimas sondagens; foi, de algum modo, uma chamada desesperada de atenção, sem resultado, porém: o candidato nacionalista perdeu as eleições. O interessante no fait diver é como expõe a actual prática política: o importante – como uma criança a quem nasceu recentemente um irmão e fica com inveja dos mimos que não recebe – é chamar a atenção, fazer barulho, estridor e estrondo. A política é espectáculo – som e fúria, para usar o título de Faulkner – encravada entre os soundbites e os bitaites. É a “festa da democracia”, de que falou uma vez Sócrates. Pão e circo, ensinavam os romanos: pão, com a crise, começa a faltar – mas o circo continua.
O circo é hoje um elemento tão fundamental dentro da dinâmica política que quem não se lhe submete não tem qualquer oportunidade real de conquistar o poder (chamava Darwin a isto selecção natural). Objectores de consciência perdem: é isso o que vai acontecer a Manuela Ferreira Leite. Sócrates, esse, sabe servir um bom espectáculo, como se viu agora em Espinho. Sócrates é uma espécie de Scolari da política: não tem qualquer estratégia, mas domina na perfeição a psicologia de grupos (o que tende a funcionar). Um exemplo:
Orwell, no 1984 (aparentemente o livro que mais gente diz ter lido sem ter, de acordo com um novíssimo inquérito britânico), fala nos «dois minutos diários de ódio» – instrumento essencial do poder do Grande Irmão – em que eram mostrados aos filiados no Partido os inimigos contra os quais eles deveriam dirigir a sua raiva. Sócrates e os seus, sábios destas coisas, tiveram o cuidado queixinhas de expor os adversário do PS: o BE, o Público e a TVI, promotores da campanha negra contra o líder rosa (isto é sobretudo uma questão cromática).
O congresso em Espinho foi essencialmente um espectáculo para ser televisionado, uma coisa estridente, sem ideias, com Sócrates como o apresentador do circo, que se prolonga agora pelas três eleições próximas. Darwin já o previra, quando explicou que as espécies evoluem de acordo com o seu habitat: numa república das bananas, não era de esperar, a acompanhar, toda a macacada política respectiva? (Fala um corvo, que não entende nada de símios).

27 July 2008

A Palavra & O Poder / O Poder das Palavras

Logo na primeiríssima crónica deste ano escrevi que as eleições americanas seriam o acontecimento mais importante de dois mil e oito. As políticas dos EUA atingem-nos a todos (o Iraque tem alguma responsabilidade no preço do petróleo que nos inflaciona a gasolina). Contudo, mantive-me calado sobre o assunto. Eis, porém, que agora Obama veio à Europa. Esteve na semana passada em Berlim, onde foi recebido por mais de duzentas mil pessoas. Muitos lhe louvaram o discurso; outros, contudo, repetem que são apenas palavras bonitas.
Quando se fala de Obama, o seu exímio manejo da palavra é apresentado como fraqueza. O discurso político actual, de facto, fundamenta-se não tanto na palavra, mas muito mais no número. A estatística foi a ciência que triunfou e essa matemática corrompida despejou as palavras do seu significado, só pelo pecado delas não serem números também. No império da imagem, a própria palavra foi reduzida a esse estatuto superficial. A política, em última análise, destruiu a língua, de tanto ter escavado às palavras o seu significado real, para, vazias, as usar a seu capricho e sem que implicassem um compromisso. Por isso, ninguém acredita no que dizem os políticos, porque não há nada ali para acreditar: as palavras estão ocas.
O milagre de Obama foi ter reinventado a língua, como se cada palavra nascesse quando ele a pronuncia. Em Obama, as palavras são o que são, com todo o seu peso. O homem moderno esqueceu-se que o poder da palavra é infindo: Deus criou o mundo falando. Obama voltou a ancorar a palavra na realidade, devolvendo-lhe a sua essência, o seu significado. Daí o sucesso da sua campanha: já não nos recordávamos do que era a verdade a palpitar debaixo da pele das palavras. “Palavras, palavras, palavras”, assim resmungam os detractores de Obama. Este é um mundo mais pobre, este a que chegámos, este, dos ateus da palavra. Percebe-se. Vai-se a uma livraria e os romances, na sua maioria, não dizem nada, são fracos, mas volumosos, todavia. A palavra enquanto processo de enunciação e revelação da verdade oculta das coisas e da vida tornou-se uma arte pouco praticada. Políticos prometem o que nunca quiseram cumprir.
E eis que chega alguém que nos recorda a função primordial do verbo e nos convence do poder verdadeiro das palavras verdadeiras de mudarem o mundo. Change: mudança – é essa a palavra em que Obama permanentemente insiste. Quando se repete muitas vezes uma mesma palavra, duas coisas podem acontecer: ela fica descalça de todo e qualquer significado que possa ter, como sucedeu na política moderna, ou concretiza-se, porque a palavra é mágica (é nisso que acreditam as crianças, como dizia possivelmente Proust). Só quem odeia a poesia pode não gostar dos discursos de Obama e, rancoroso, criticá-los pela sua força. Obama recolocou a palavra, inteira e concreta, no centro da política, onde ela antes era só uma muleta.
“We are a people of improbable hope”, “Somos o povo de uma esperança improvável”, confessou o candidato democrata, em Berlim, na semana passada, naquele que nem foi um dos seus discursos mais brilhantes, mas onde, porém, pululavam pequenas pérolas como esta. Tudo é improvável na campanha deste homem: até a sua vitória está longe de ser certa. É improvável também que Obama consiga levar a bom porto todas as suas propostas ou que cumpra com sucesso tudo quando promete: quando, porém, fala, o que diz, di-lo convicto e sem disfarces. Quando Obama diz emprego diz emprego e não diz votos. E isto é uma revolução. Qualquer que seja o resultado das eleições em Novembro, Obama conseguiu já o que eu teria considerado impossível para os homens de hoje: restaurar a fé perdida nas palavras. Obrigado.

Persona

Quando visitei Paris, no Verão passado, recordo-me de, ao passar em frente ao Hôtel de Ville (o cenário em que se beijavam os dois amantes da famosíssima foto de Robert Doisneau), se encontrar aí um poster gigantesco com a imagem de Ingrid Betancourt (a França sempre fez do seu resgate uma causa nacional). Nada me fazia adivinhar que, quase um ano mais tarde, Ingrid conheceria, de facto, a liberdade. No meio do regozijo geral, só uma voz se calou: a do PCP. No seu primeiro comunicado à imprensa, não se encontrava uma única palavra de contentamento pelo fim do cativeiro dos quinze reféns. Na Assembleia, recusou-se a subscrever o voto de congratulação aprovado pelos demais partidos, propondo um outro, da sua lavra, insistindo em não condenar as FARC, em virtude da duvidosa amizade que os comunistas mantêm com a guerrilha colombiana, por ambos partilharem a mesma ideologia marxista.

Não me interessa aqui zurzir no PCP, que assim se descredibiliza e desonra a esquerda, mas antes reflectir sobre a forma como a pessoa saiu do centro da discussão política, para ser suplantada pelo fundamentalismo ideológico ou pelo seu oposto, o relativismo da conveniência (também chamado Realpolitik). O PC cometeu, dos dois, o primeiro pecado. Acima de toda a ideologia está o homem (neste caso concreto que discutimos, a mulher). Nenhum valor é absoluto, porque sujeito à régua da pessoa: “O homem é a medida de todas as coisas”, dizia bem Protágoras. Honra, verdade, justiça: nobres que sejam – e são – estes valores, devem cair aos pés da pessoa, a quem devem servir. Até Deus, neste particular, se inclina ante o homem: a incapacidade de o perceber foi o que esteve na base desse erro colossal que foi a Inquisição, em que se julgou justo matar por crime de lesa-divindade (o mesmo mau juízo o fazem hoje os radicais islâmicos). De igual doença e cegueira morre o capitalismo, que, com a sua tónica no lucro, perdeu a pessoa para ter a máquina (estava tudo na 25ª Hora, de Gheorghiu – urge reler!).

O segundo pecado que apontámos não é, contudo, menos grave que o primeiro. Apagar a pessoa do discurso político em função de conveniências & convivências é igualmente trágico. É a isso que o mundo, por exemplo, tem vindo a assistir no caso do Zimbabwe (e também aqui o PCP foi o único partido do Hemiciclo que se absteve aquando da aprovação de um voto de condenação da situação política daquele país). Dias depois das mais que fraudulentas «eleições» no país, os líderes africanos receberam Mugabe, o «novo» presidente (esse mesmo que Sócrates convidou para a Cimeira EU-África), no Egipto, tendo o presidente do Gabão afirmado que “acolhemos Mugabe como um herói”. Percebe-se a condescendência: o autor da afirmação já se encontra ele mesmo no poder há quarenta e um anos. Entretanto, soube-se que os EUA usaram em Guantánamo técnicas de tortura chinesa e que os guardas tiveram formação específica sobre as mesmas. A UE, há coisa de quinze dias, aprovou a Directiva do Retorno, para controlar a imigração, de uma severidade impensável, para escorraçar aqueles que, mais e mais, contribuem para a sua construção (muito literalmente).

Neste vomitado de notícias, dá vontade de perguntar: e as pessoas? Que silêncio sobre os métodos ilegais de Mugabe pode calar a fome e o sangue dos zimbabwianos (ou o das vítimas do Darfur, cujo governo assassino é apoiado por essa China a que vamos agora todos lamber as botas nos Jogos Olímpicos)? Como é possível que os guardas de Guantánamo vissem à sua frente terroristas, mas não pessoas, impossíveis de serem torturadas? Como não vê o Parlamento Europeu o desespero daqueles que arriscam tudo por uma esperança chamada Europa e os recambia de volta para os seus países, como se tratassem de produtos com defeito que se devolve à fábrica? Perderam-se, na política, as pessoas. Só há já números, palavras, abstracções. Não entendo não entendo não entendo. Como é que chegámos a isto, meu Deus? Como é que saímos disto, meus homens?

18 March 2008

Marchas Populares

No primeiro dia do mês, a cidade acolheu o campeonato nacional de marcha, levando ao corte dalgumas das principais artérias da cidade e à abertura de outras improvisadas. Tenho de agradecer a Susana Feitor e João Vieira o terem forçado à inauguração de uma ligação entre a minha escondida rua e a da estação de comboio, pequeno atalho útil que, contudo, um só dia me serviu: a passagem foi já entretanto encerrada. A experiência, porém, por curta que tenha sido, bastou para ouvir – até de desconhecidos, que arriscaram conversa comigo – elogios ao prático e rectilíneo caminho que se abriu, paralelo à linha de comboio.

Isto das marchas parece, de facto, estar hoje na moda. Sábado passado, os professores promoveram a intitulada «Marcha da Indignação», reunindo cem mil manifestantes (avassalador número). Por repetidas vezes crocitei neste espaço o meu desagrado pela actual Ministra e o seu gabinete: não pude, por isso, deixar de rejubilar perante tal manifestação de força dos docentes, a quem, não me podendo unir em corpo, me juntei em espírito e, agora que escrevo, em letras. O PS, amedrontado, em vão quis responder com uma marcha de rua também, mas o beija-mão já foi transferido entretanto para um discreto pavilhão no Porto, entre quatro paredes.

Podia (e isso tenta-me como uma maçã) falar – seria óbvio, é o tema quente – sobre a situação insustentável que se atingiu na educação. Outro, porém, é o fenómeno que me atrai: esta nova vaga de marchas populares (e ainda não estamos no tempo dos santos). Há quem a tema e quem a saúde. Já ouvi rumores de PREC, já li comparações com esse tempo que eu não vivi: os ânimos andam exaltados. A questão, porém, permanece (Pacheco Pereira dedicou-lhe a sua última crónica no Público): porque estão as pessoas a sair à rua? Augusto Santos Silva acusa forças “de natureza anti-democrática” e faz lembrar a irritação de Sócrates quando este, confrontado com as manifestações populares em Montemor-o-Velho em Outubro passado, acusou o PCP e os sindicalistas de as orquestrarem. O governo falha em perceber que nenhuma força de carácter político ou afim poderia, por exemplo, mobilizar o assombroso número de professores que se manifestaram em Lisboa. Na realidade, muitos confessaram às televisões e jornais ser a primeira vez que participavam em acções de rua, e outros tantos sublinharam o seu carácter apolítico: é porque não acreditam nos partidos que as pessoas estão, enfim, a sair à rua.

Falo em nome de uma geração desencantada, a minha. Robert Redford, conhecido actor e cineasta, numa entrevista a um canal britânico a propósito do seu mais recente filme Peões em Jogo, explicava que os jovens se tornaram tão indiferentes à política por nunca terem conhecido uma liderança moral. Porque deixámos de acreditar que os partidos possam resolver os problemas que afectam a sociedade, carregámo-nos nós com essa responsabilidade, independentes. A internet oferece a plataforma ideal para essa contracorrente: veja-se a reportagem que o Público dedicou, aquando da marcha dos professores, aos blogues da autoria destes e ao seu papel na discussão pública dos decisões ministeriais, como o A Educação do Meu Umbigo, um dos mais frequentados (por mim também) de toda a blogosfera portuguesa.

Há, porém, uma fresta de esperança. Veja-se o fenómeno Obama, nos EUA, em que os jovens estão a desempenhar um papel importantíssimo. Estamos famintos de mudança, de ventos novos, que arejem o ar bafiento do establishment político. Não podemos por isso deixar de nos alegrar com o anúncio de um novo partido, por enquanto um movimento apenas. Não cremos nos velhos partidos, mas aos novos estamos talvez dispostos a dar uma chance (veja-se o caso sintomático do BE, que, quando surgiu, procurando vender-se como corpo estranho ao sistema, ganhou uma boa base de apoio juvenil, que fomentou o seu crescimento). Dêem-nos razões para acreditarmos no futuro, esse tempo desempregado, como nós, os jovens.

14 December 2007

Desmocracia

Se excluir um ou outro inquérito académico para o qual algum colega tenha pedido a minha colaboração nos corredores da universidade, penso nunca ter sido interrogado para um estudo a sério. Confesso também que, na realidade, procuro evitá-los e sempre que noto, à distância de cinco passos, um desses inquisidores de rua, armados de bloco, mudo a minha marcha. Aparentemente, a minha pouca colaboração não parece afectar grandemente a produção dessas estatísticas: diariamente, toda uma nação se psiacanalisa sem Freud nas manchetes dos jornais, sempre prontos a revelar mais um qualquer diagnóstico da nossa triste condição.

Estas últimas duas semanas foram pródigas – será a proximidade do final do ano, propício sempre aos balanços? – em estudos de toda a ordem. Ficámos a saber que, de todos os países da Europa, o nosso é o solitário que regista uma descida no Índice de Desenvolvimento Humano, mesmo se é também o único da Zona Euro para o qual a OCDE prevê uma aceleração no ritmo de crescimento. O relatório PISA 2006, sobre o estado da educação nos vários países da OCDE, e cujas conclusões foram agora reveladas, confessa que apenas a Grécia, a Turquia e o México conseguem piores resultados que Portugal. De todos os países, somos aquele com menos alunos a atingirem a nota máxima nos exames do PISA. Apenas um em cada quatro portugueses – diz a GFK, empresa especialista em estudos desta natureza – crêem que a sua situação pode vir a melhorar para o ano; no pessimismo, só os japoneses nos ultrapassam.

O nosso auto-retrato não é feliz, não pode ser feliz: para o concluir, bastaria ter assistido à bem concebida série de António Barreto e Joana Pontes, Portugal: Um Retrato Social, exibida no início do ano no canal público. Um estudo, porém, chamou-me, entre os demais, a atenção. Nele se dizia que um em cada dez portugueses “considera bom um governo militar”. Tal resultado, mais que qualquer outro aspecto, coloca a nu o falhanço da democracia portuguesa, na sua forma e prática actuais. Os próprios deputados, quase um em cada três, considera que se perde muito tempo em democracia com questões sem importância.

Tome-se, por exemplo, a discussão, no Parlamento, há uma semana, sobre os sucessivos ataques do Governo às várias liberdades dos cidadãos. O Governo e o PS responderam criticando o PC, por exemplo, pela recente expulsão de Luísa Mesquita, numa variante do ataque ad hominem – falácia argumentativa simples e frequente. Quando o PSD, por sua vez, investiu, o PS lembrou que a Madeira era “um jardim de exemplos da falta de democracia”. Tudo quanto os socialistas apontaram, somos forçados a reconhecê-lo, tem a sua razão – sucede, porém, que ignoraram totalmente, nas suas respostas, as críticas que lhes foram dirigidas. Quando um assunto desta importância resvala para uma mera troca de galhardetes entre as diferentes bancadas, é caso para, parafraseando Hamlet, exclamar: “Algo está podre na República de Portugal!”.

Perante esta des-mocracia, esta negação da verdadeira democracia, é natural, mas alarmante, que as pessoas comecem a considerar a possibilidade de um regime forte. A única maneira de combater esta tendência errada é credibilizando este moribundo regime, doente às mãos quer de uma elite política oportunista, quer de um povo comodista. A democracia está mal – mas o mal não está na democracia. Não nos esqueçamos, como dizia Churchill, que “a democracia é a pior forma de governo – se excluirmos todas aquelas outras formas que, de tempos a tempos, vão sendo experimentadas”.

Mulheres Seminuas e Verdades Cruas


A Juventude Socialista (JS) tem um novo outdoor. O objecto, espreguiçado por alguns amargurados metros quadrados, proclama pomposo sobre um fundo azul: “Desde 2005 mais de 54.300 estágios profissionais”. No canto inferior direito, ao lado de uns bonequinhos coloridos e dançantes, lê-se: “O futuro já começou”. A ocupar o lado esquerdo do cartaz, há um rapaz contente, abraçando pela cintura uma loira e uma morena. Dalguma forma, este outdoor é o símbolo final da política moderna. Passo a explicar.

Os partidos, sob recomendação do omnívoro capitalismo, converteram-se em empresas. As declarações de Menezes na semana passada, defendendo que o PSD deve “profissionalizar-se, passando a funcionar como uma empresa”, constituem uma imaculada expressão do tempo presente. Tendo um produto a vender – o programa político –, a empresa-partido recorre ao marketing para o divulgar junto dos clientes e consolidar a sua posição no mercado: assim se explica o outdoor da JS, a meio do mandato do mandão Sócrates, louvando as “vitórias” do executivo rosa. Mesmo aqueles sem qualquer formação na área da publicidade não ignoram que, numa sociedade infantilmente sexual como a nossa, a presença de uma figura feminina atractiva num anúncio é um artifício popular para promover o produto – exemplo disso é a última e parva campanha da TV Cabo, em que os serviços oferecidos pela empresa surgem encarnados em três raparigas que se querem de boas formas curvas. No outro dia, de resto, indo às compras com um amigo meu, até nas embalagens de queijo encontrámos uma imagem de uma mulher em biquini. Seguindo pois os mais eficazes métodos da publicidade, a JS, como boa empresa, resolveu colorir o cartaz com a já mencionada imagem do rapaz feliz em dupla companhia feminina. O partido que foi responsável pela criação, no tempo de Guterres, de um Ministério para a Igualdade, cola pelo país outdoors de um explícito machismo, denegrindo a mulher à condição de produto físico. Graças a Deus que os partidos não têm vergonha.

Empresas que são, necessitadas de vender, os partidos recorrem, para alargar a sua quota de mercado, a par e par com as mulheres seminuas, às semi-verdades, quando não mesmo à mentira. Isso, de resto, é uma prática comum nesse habitat: Durão Barroso veio ainda recentemente declarar sobre a famigerada Guerra do Iraque que “houve informações que me foram dadas, a mim e aos outros, que não corresponderam à verdade” – antes que Durão o tivesse reconhecido, já a realidade o confirmara há muito, infelizmente. O cartaz da JS obedece a estas técnicas de ocultação da verdade, amigas da publicidade. Eufóricos, os pupilos socialistas rejubilam com as medidas em prol dos jovens (dizem no seu site), com os 54.300 estágios (!) profissionais do cartaz. Esquecem deliberadamente os dados recentemente revelados pelo Instituto Nacional de Estatística. Segundo este, a taxa de desemprego – que se situa já nos 7,9% - subiu entre aqueles com menos de 35 anos. De acordo com a mesma fonte, a grande maioria dos 106 mil empregos que o governo reclama ter criado, por exemplo, só foram possíveis graças ao acentuado crescimento dos contratos a prazo: os contratos sem termo, pelo contrário, reduziram-se. Seria contudo estranho pedir aos jovens outro comportamento, quando o governo do seu próprio partido envereda pelas mesmas tácticas. Ainda na sexta, o Tribunal de Contas veio denunciar como, através de uma metodologia manhosa, o Ministério da Saúde apresentou resultados assaz positivos, quando, na realidade, a situação do Serviço Nacional de Saúde se deteriorou. E estas são verdades cruas que nenhum cartaz consegue disfarçar.

P.S.: Na impossibilidade de se encontrar o cartaz da JS para ilustrar este post, servimo-nos, em homenagem ao título, do anúncio da Channel com a nossa amada Keira Knightley -perdoem-nos.

16 September 2007

Realportugal


Ofegante, pedi autorização para passar à frente na fila, comprei o bilhete, corri para a plataforma e saltei para a última carruagem. Sentei-me e descansei da minha maratona. Subitamente, ainda nem tínhamos chegado à Estação Velha, o comboio parou na linha. Cinco minutos depois, persistia na sua birra de não andar. Cansado de mais para ligar o mp3, resolvi ouvir a conversa que, duas filas à frente, se desenrolava entre algumas passageiros de idade.

«Trabalhamos para ganhar uma miséria», desabafava uma senhora junto à janela (chamemos-lhe G.). A frase deu o mote: começou a rabujar-se contra as regalias dos políticos. Do seu lugar solitário, um viajante (digamos, B.) contribuiu: «Todos querem ir para o poleiro. Ao fim de quatro anos têm reformas». A outra resmungou que por isso é que já não punha os pés nas eleições. A mais nova do grupo (tratemo-la por H.), algures nos seus cinquenta, afirmou que insistia em ir às urnas, mas votava em branco. B. avisou-a contra isso: tinha já estado em mesas de voto e sabia como os votos em branco eram por vezes adulterados, aconselhando-a por isso a votar sempre nulo, com uma cruz de alto a baixo. H. agradeceu o alerta.

G. retomou a conversa para lançar nova invectiva contra os privilégios da classe política. Tinha sido revelado no talkshow da Fátima Lopes que mesmo o ex-presidente ainda tinha guarda-costas. H. mostrou-se particularmente indignada: asseverava que n’ As Tardes da Júlia tinha estado uma mãe a quem, por causa de negócios da droga, haviam morto o filho e cuja cabeça estava a prémio. «Mas essa, que precisava, não tinha protecção policial: teve de ser a Júlia a garantir que a protegiam à saída do estúdio». O filantropismo televisivo, de facto, continua sempre capaz de me surpreender. «Estes são grandes programas para se descobrir certas coisas», rematou a mulher, convicta da sua palestra.

Inevitavelmente, chegou-se ao caso Maddie. «Agora já ninguém os apanha», declarou H. firmemente. «Quem vai mantendo este caso são os governantes, porque assim ninguém fala do governo», explicou B., entre gestos fortes. Alguém acrescentou que os McCann mantinham amizades com altas chefias do Estado. G. passou então à acusação: «Aquela mãe... Ela tem má cara: não engana ninguém». H., que parecia sempre actualizada, completou: «Diz-se que na Inglaterra fizeram um perfil dela e que tem os traços todos de quem matou a menina». G. prosseguiu a leitura da sentença: «Nem uma lagrimazinha deitada! Ao menos a mãe da Joana ainda foi lá chorar para as televisões». Foi então que B. lançou a sua bomba: «Nós em Portugal ainda estamos muito atrasados sobre esta caso. O meu genro, que é da Alemanha, diz que lá já veio nos jornais a dizer que eles pertencem a uma seita de orgias em que matam crianças para as luxúrias deles». A conversa prosseguiu, e por fim regressaram a outros temas nacionais. Em jeito de sumário, H. suspirou: «É o país que temos: temos de nos contentar».

Dentro de mim, recalcava-se uma vontade de rir. Assistira a um exercício totalmente gratuito de especulação barata, cujas teses não resistiriam à mais superficial leitura de um jornal dito sério. Ao mesmo tempo, porém, abatia-se sobre mim uma tristeza: era isto o país. Há a chamada realpolitik: bem-vindos ao realportugal. Ali estava a falta de esperança no futuro, a descrença total na classe política, a manipulação fácil pela televisão, a especulação tonta e, finalmente, dramática, a resignação. Isto, mais que tudo, preocupou-me. É que, como dizia José Manuel Fernandes no editorial do Público há uma semana: “Nenhum país, nem nenhum povo, nem nenhum indivíduo, conformados com os seus destinos, podem mudá-los”.

10 July 2007

Anedota Triste

Há, entre a democracia e a ditadura, um amplo espectro político que aceita desvios a alguns traços-base de cada um desses dois regimes sem que, por isso, um se transforme no outro. Assim, a efémera primavera marcelista, não obstante certas liberdades arriscadas, era, ainda, um autoritarismo. Do mesmo modo, o regime de Putin, na Rússia, permanecendo uma democracia, contempla, porém, com vertigens (que induzem a queda), o precipício da ditadura. Ora, se Moscovo está já no final desse nebuloso espectro que separa os dois regimes, Portugal, longe ainda, inicia-se nessa travessia obscura, timidamente – ou não.

Muitos indícios têm vindo a acumular-se que confirmam esta suspeita, porém, nenhum tão vergonhosamente explícito como a recente suspensão de um funcionário da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte): Fernando Charrua, professor de inglês (sinto-me tentado a um “comentário jocoso” envolvendo o termo “inglês” e uma alusão sub-reptícia à licenciatura do primeiro-ministro: o exemplo alheio cala-me as palavras), ex-deputado do PSD. Este, em conversa privada com um colega, terá feito um piada sobre o curso de Sócrates. Um outro funcionário, contudo, tendo ouvido a observação satírica, relatou a anedota à directora do serviço, Margarida Moreira. Esta tomou as medidas “adequadas”. No dia seguinte, chegado ao emprego, o professor tinha o computador bloqueado, o e-mail fora lido e ele estava suspenso.

Há um pormenor, em todo este caso, que me choca quase tanto quanto a suspensão em si de que foi vítima o professor, a saber, o facto de o e-mail de Charrua ter sido devassado. Isto é próprio de regimes totalitários. Quando se atinge estes extremos, é porque eles já não existem – tudo é válido. Declaro aqui, solenemente, que já não confio no Estado. O seu longo nariz (de pinóquio, de tanto mentir) intromete-se em todo o lado. Bem-vindos à “claustrofobia democrática” que Paulo Rangel denunciava no 25 de Abril.

Margarida Moreira justificou a suspensão por “poder haver perturbação do funcionamento do serviço”. Gostava, sinceramente, de perceber esta última afirmação, pois não consigo (e já puxei muito pela cabeça, ao ponto de a ter arrancado) entender como pode uma piada rápida perturbar a DREN. Ai, que maquilhagens da verdade inventam! E, clarifique-se, é aqui irrelevante para o caso se se tratou mesmo de um “comentário jocoso” ou de um insulto: se alguém, de resto, tinha de apresentar queixa, era o visado, o próprio primeiro-ministro.

Este, para “serenizar” os portugueses, veio dizer – cinco dias depois! – que ninguém será sancionado pelo exercício da liberdade de expressão. Comentava Constança Cunha e Sá no Público que um primeiro-ministro ter de vir dizer isto transparece muito do actual clima. A ministra da educação, que recusa ir ao Parlamento, e o seu ministério têm procurado fugir à polémica. Maria Lurdes Rodrigues confessa não ter “nenhum sinal ou motivo para duvidar do [...] correcto funcionamento [...] da DREN e dos seus serviços”. Porém, o ministério está também envolto no escândalo. A 26 de Abril, o secretário-geral da educação assinou o despacho de suspensão de Fernando Charrua. Ao contrário da ministra, eu tenho razões para duvidar não só do funcionamento da DREN, mas da 5 de Outubro.

O outro Sócrates, o verdadeiro, morreu por falta de liberdade de expressão; o regime do novo, asfixia-a: a sua popularidade continua, porém, em alta. Ficaremos calados a assistir? É nosso dever reflectir no que, democraticamente, está ao nosso alcance fazer. A Declaração da Independência dos EUA diz que as pessoas estão dispostas a aceitar os erros de um governo enquanto estes forem suportáveis, mas que, atingido um certo ponto, revoltam-se. Questiono-me se faltará muito, por este caminho, para aí chegarmos... ■ o corvo

22 December 2006

Elogio da Silly Season


É Setembro, com a pena que isso sempre acarreta. Universalmente, o fim das férias. Durante um mês, houve o sabor e a sabedoria de ser livre: arranjou-se um romance light, foi-se ao cinema e passeou-se amplamente à noite. Os mais jovens arranjaram um flirt. Os jornais, sinceramente, eram vagamente despachados num quarto de hora, vazios de notícias. Estupidificantemente, era-se capaz de ficar a ver, seguidos, os três filmes de sábado à tarde. E, no final do dia, estávamos, verdadeiramente, cansados. Era a silly season, a estação estúpida.

Principiou-se, então, a rentrée em seriedade da sociedade. Na política, a Festa do Avante! , ainda, confessadamente, um misto dos dois tempos, do ligeiro e do grave, intermitente entre concertos e jerónimos. A Festa do Pontal, coisa esquisita, montada em praia, sem líder. O BE, caminhando peregrinamente. O PP, longe, na Madeira. E o PS, num one-man-show, no Porto. A rentrée é, no mínimo, uma coisa esquisita.

Por fim, a única coisa pela qual a maioria dos portugueses se interessava minimamente, também correu mal, pondo sérias dúvidas à sustentabilidade deste país. Nas comemorações do 11 de Setembro, tão pródigo em teorias da conspiração, eis que uma nova e mais imensa e mais terrível cabala se ergue. O seu herói e o seu vilão: o Gil Vicente! Antes sequer que interesse identificar o culpado, o que causa, de imediato, espanto e choque no clamor de espadas que atravessa o futebol é a própria situação em si: é surrealista. Esta, conjugada paralelamente com o «Apito Dourado», veio, sobretudo, desvelar, pública e ostensivamente, a decrepitude que enche o futebol, cujo nome é: mesquinhez.

Esta vem mascarada de soberba, mas é apenas, verdadeiramente, o seu oposto. Ainda recordo de Luís Filipe Vieira afirmar, aquando da sua candidatura, que, dentro de três anos, o Benfica seria o maior clube do mundo. E foi eleito. Na realidade, política e futebol são bem mais parecidos do que aparentam: promete-se e ganha-se. Porém, o que incomoda é o orgulho destemperado e evidente convencimento com que os dirigentes dos clubes se apresentam. Como se pretendessem deuses, vêem-se acima das acusações que lhes tecem – e conseguem-no.

Não sendo o futebol o meu desporto favorito, não deixa, nem que não seja pela sua predominância televisiva, de ter um significado para mim. Ora, precisamente como apreciador, desgostam-me todas estas perturbações no decurso normal da Liga por uma mesquinhez tamanha como a dos gilistas que, pugilistas, a todos se opõem. Uma vez mais, mais do que a coisa em si, interessa-me o modo dela. Impressiona-me mais fortemente não tanto a decisão que os sócios do Gil tomaram na quinta passada (de resto, previsível), mas a forma como, de facto, tão facilmente se galvanizam multidões com demagogia. Ao que sucedeu naquele pavilhão aplicaria eu, verdadeiramente, o rótulo da alucinação colectiva. Não é de estranhar que, do mesmo modo, associações xenófobas e extremistas poluam as claques juvenis dos maiores clubes. Fenómenos distintos, a natureza da sua origem é semelhante. Numa altura em que as pessoas não conseguem ter orgulho no seu país (e, brevemente, nem no país sob forma da selecção nacional, se a FIFA chegar à punição) inevitavelmente deslizam-no, sob forma exagerada, para outro lado. O cómico é que isto é trágico.

Silly season, o Verão? Silly season Setembro!

22 February 2006

Belém (e não é Natal!)

“Como não vamos ter novo contacto antes da realização desse evento, é inevitável que falemos disso.”, escrevia o Helderix, na última semana. Inevitavelmente, pois, aqui crocito, sobre o mesmo, mais: grito de corvo entre as macacadas de velhos lobos nestas presidenciais.

Há um candidato, cujo nome não me relembro, que insiste em ser discriminado pelos media – não, não é Garcia Pereira, cujo protesto seria até inteligível. É outro, cujo nome – maldição! – não me ocorre, esquecido, por decerto, devido à sua parca cobertura mediática. Candidato mp3, chamam-lhe os jovens da sua candidatura, mas o mp3 parece-me mais vinil: muda o disco e toca o mesmo. “Soares é fixe!”, gritam esses seus pequenos apoiantes, mas a verdade é que aquele-cujo-nome-não­-me-lembro é fixíssimo: palavra do próprio! Para além de que, profissionalmente falando, é versado em jurisprudência, filosofia e história: em suma, político profissional, coisa que a Esfinge afirma não ser. Mas porque recorro a um impropério do fixíssimo? Ele mesmo confessara na pré-campanha que não mais atacaria os outros adversários: porque infrinjo no meu crocito o que o concorrente tão bem praticou? Se acaso deslize houve no cumprimento do juramento, foi erro, tal como é erro, se Cavaco ganhar, a candidatura do mp3-vinil: assim ele nos garantiu há uma semana. Erro é pois, de facto.

É assustador verificar que o grande objectivo das candidaturas de esquerda é travarem a direita, num regime em que o Parlamento é, por maioria absoluta, dessa mesma esquerda. Fosse de direita, e entenderia a necessidade de equilibrar os poderes – não é o que sucede. Mais, todo este discurso maniqueísta esquerda/direita pretende somente radicalizar o adversário de uma forma estúpida e o facto de Cavaco continuar a subir nas sondagens só demonstra como este técnica falhou rotundamente. Em contrapartida, o falso sebastianismo cavaquista tem singrado, com um messianismo envolvendo a sua figura, usurpada a Soares, o “Pai da Pátria”, que passou a “grande perturbador nacional”. Este coitadismo, este fazer-se de vítima, era típico de um outro político: Santana Lopes. Não me espantaria ver Soares a clamar pelo contraditório...

A Cavaco parece pouco import(un)ar Soares, que tratou de se encontrar com Valentim Loureiro, quando o Sr. Silva foi recebido na Madeira (por aquele que Louçã expulsaria do poder). Alegre, para não ser incomodado pelas companhias, escolheu um morto, mas até assim o partido comunista criticou a invocação em vão do santo nome de Cunhal, o que é só mais um testemunho da infeliz campanha de Jerónimo. Este, no insulto, seguiu as passadas de Soares, apelidando Cavaco, por exemplo, de “sábio macaco”. Igualmente lamentável foi o discurso primitivo comunista sobre os apoios capitalistas da campanha de Cavaco. Quando foi feita pressão para que Cavaco revelasse os financiadores da campanha, só Alegre revelou simpatia para com o criticado – talvez por a sua própria campanha não ter dinheiros partidários. Pois nestas presidenciais temos candidaturas suprapartidárias, semi-partidárias e ex-partidárias!

Não vai haver segunda volta porque as pessoas estão cansadas de “muito barulho para nada”, como dizia a comédia de Shakespeare, como diz a comédia do país. Cavaco ganhará como César: ueni, uidi, uici. Vencerá porque as pessoas estão cansadas – há uma saturação de política: os eleitores desejam que o farrobodó cesse, cesse depressa. A tal esquerda perderá – e a culpa é toda e inteiramente sua. ■ o corvo

Publicada a 18 de Janeiro de 2006

11 December 2005

Das Teorias da Conspiração

Lançado no mercado português recentemente, não posso deixar de referir o novo livro de Dan Brown, A Conspiração. Não tendo editor que ma publique, venho eu, neste exíguo espaço para tão revolucionária ideia, apresentar também a minha teoria da conspiração. Declaro:

Há uma conspiração para que haja conspirações!

Tudo começou com o escândalo da Casa Pia que, anuncio!, não passa duma grande cabala! Seguiu-se a cilada armada a Fátima Felgueiras que, inocente!, contra essas movimentações maquiavélicas de bastidores, teve de se exilar no Brasil! Ela própria prova-nos a trama infame: «Falam de um saco de uma cor qualquer, o saco da vergonha para todos os que criaram e alimentaram isso»! Como não havemos de crer em tão sinceras palavras? É conluio! E o Ministério Público? Esse órgão, tão desejoso de poder, essa renovada Inquisição!, não lhe bastando estas vítimas, logo se lançou na caça de novas e não tardou a acusar Valentim Loureiro e Pinto da Costa – dois honráveis senhores do futebol português – para invocar os seus nomes a propósito do processo Apito Dourado! E o venerando e veterano Vale e Azevedo? Esse explicitou tudo no seu livro A Armadilha, onde se pode encontrar um historial de todas as cabalas portuguesas, comparando-se o visado aos reis traídos. É maquinação! Ainda não contentes, à cruzada impiedosa que aqui vimos enunciando juntaram-se os jornais, que recentemente acusaram de controlo de meios informativos o mentor Alberto João Jardim, cabeça da Madeira, que à ilha trouxe o progresso! Claro que também, em toda a sua profundidade de saber, Jardim compôs a sua própria resposta, contra-argumentando com outra conjura: o país está a ser dominado por grupos maçónicos que nos conduzem para o iberismo e anexação à Espanha. «É uma pouca-vergonha.», conclui.

E não é tudo! É tal a influência de todas estas tropas difamatórias, que conseguiram que o Presidente demitisse o competente e bem intencionado Santana! Não espanta pois a sua magoada imagem: «Tem sido difícil para quem está na incubadora, ver passar a família e, em vez de acarinhar, haver membros da família que dão uns estalos no bebé»! Conjuração! E que comentários tecer do ultraje promovido por Paulo Morais, numa mesquinha campanha contra as imobiliárias e as autarquias, numa das mais pérfidas cabalas a que o nosso país assistiu? Como reagir então ante a ignóbil trama que se concebeu contra Mário Soares, tentando abafar a energia de tão jovem candidatura, para o destruir politicamente? E não se esqueça aqui a conspiração horrenda que o Governo está a mover contra a classe média, com as suas reformas tão desnecessárias e supérfluas, ou não fosse o nosso erário abundante!

Exposta aqui esta revolucionária ideia que lança novas luzes sobre toda a história portuguesa, anseio, doravante, o convite para a publicação deste meu bestseller. E tal como Dan Brown, já preparo a minha sequela: revelar ao mundo a enorme conspiração que une o suicídio de Antero de Quental frente a uma igreja com o 11 de Setembro, ocorrido uns exactos 110 anos depois! Ainda que não pareça, um é consequência do outro. Para fechar a receita, só me falta meter a Igreja Católica algures... Ah, o Convento da Esperança! ■ o corvo

Crónica saída a 9 de Novembro de 2005

Lendo os Astros cá em Baixo

Ouvindo o noticiário da Antena 1, há duas semanas, fiquei a saber que uma tenda de campanha – oportunamente enviada para o Sudeste Asiático aquando do tsunami – pertencente ao Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, jazia há seis meses na Alfândega de Lisboa, custando já à citada entidade cinco mil euros. Refira-se também que só há mais um equipamento do género em Portugal e que, para cúmulo, teve de ser a Alfândega a avisar o interessado, que desinteressado me parece.

Se quando escutei a reportagem não contive o riso, chegado a casa, não sustive o medo. Episódio pontual, situação caricata, este acontecimento não é senão um símbolo, uma metáfora, como o autocarro de Lisboa engolido pelo asfalto – era Santana ainda presidente dessa câmara – era o código secreto em que se profetizava o declínio luso. É Portugal quem espera naquele porto; porém, todos passam e ninguém se interessa por essa estranha realidade ancorada ainda no domínio da utopia. Mas a indiferença paga-se cara e o preço sobe dia a dia – como o petróleo.

Os sinais do Apocalipse multiplicam-se, com as trombetas dos anjos ressoando mais e mais. Do céu – porque Deus é brasileiro, como dizia o filme homónimo – desce já a senhora de Fátima, para o seu último e maior milagre: o de Outubro. Independente? Indecente! Felgueiras é o triunfo da verborreia. Chamava-lhe o Diário de Notícias “nova Evita”, mas ninguém a evitou, antes lhe deram maioria absoluta, absolvendo-a de toda a sua prática dissoluta! «Nem sei se era assim tanta a esperança e a alegria no 25 de Abril» afirmou ela. Nem eu sei se então era tanta a parvoíce que hoje se revela! «O povo em democracia é soberano», disse da sua vitoriosa janela. Mas este mesmo povo, na sua ingenuidade e erro, cava a sua cova. Sócrates, o filósofo, já defendia que a ignorância era fonte de todos os males – quer-se maior prova?

Mas quando até os cultos vultos fazem tão estultos comentários, de Alegre fico triste. «Ele é um ídolo da juventude. A minha filha gosta muito de o escutar». falou assim Manuel, o poeta, de Pacman, o vocalista dos Da Weasel, mandatário para a juventude da sua candidatura presidencial. Referindo-se à versão hip-hop da Trova do Vento que Passa: «Fiquei comovido ao ouvi-lo. E fiquei ainda mais depois de saber que ele nem sequer havia escutado as versões anteriores, interpretadas pelo Adriano e pela Amália.» Não condeno a escolha, condeno o elogio. Condeno a apologia da degenerescência da juventude que tem de encontrar tais ídolos. Condeno que se exulte a ignorância da arte passada. E se Pacman não ouviu as versões cantadas do poema de Alegre, creio eu que Alegre não leu os versos escritos de Pacman. Como reagiria o candidato ante a “arte poética” do hit da banda: «Vou levar-te para casa - tomar conta de ti/ Dar-te um bom banho, vestir-te um pijama e…/Fazer-te uma papinha, meter-te na caminha/ Ler-te uma historinha e deixar-te bem calminha»? Que história cantaram a Alegre, desconheço, mas decerto vai-lhe ser dado um bom banho e ele irá para casa, lamentando o seu despenho.

«...e todo o país não é mais do que: uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam. É uma nação talhada para a conquista, para a tirania, para a ditadura...» assim se anuncia na primeira das Farpas de Eça. Lendo os astros cá em baixo, a minha astrologia remete-me para a mesma triste conclusão e assim se murmura na confusão e as vozes clamam por uma mudança de regime: novo D. Sebastião que aguardamos. Por ora, nevoeiro apenas... ■ o corvo

Crónica saída a 26 de Outubro de 2005

31 August 2005

Pedi, e ser-vos-á dado (I Parte do Ciclo Nipónico)

Na penúltima Pública – revista dominical do Público – pude ler um dos mais interessantes artigos deste ano, dedicado a um fenómeno social japonês que foi apelidado de “hikikomori”, palavra que se refere a jovens que, devido a uma depressão, se resolvem trancar durante vários anos nos seus quartos. Anexada à reportagem, seguia-se uma outra sobre as adolescentes do Japão. Nela, via-se como as raparigas nipónicas, extremamente mimadas, esbanjam todo o dinheiro que recebem, quer como mesada, quer dos seus trabalhos em part-time, em roupas caras, com as quais vivem obcecadas, sem aspirarem a nada mais alto do que serem donas-de-casa, com um marido rico que as sustente. É a geração do “Pedi, e ser-vos-á dado.”, em que os pais acedem a todos os desejos das filhas.

Seja-me permitido aqui reproduzir as palavras, citadas na reportagem, de Takahiro Hadaki, director duma revista juvenil feminina, procurando explicações para tal exacerbado consumismo: «A política não está bem, nem a economia. A população está a envelhecer, e eles
[os jovens] sabem que lhes cabe sustentar os mais velhos. Mas acham que não vão conseguir ter dinheiro, mesmo que trabalhem. Estão a desistir de ter esperança no futuro».


Fora de contexto, dir-se-ia que esta frase se refere ao panorama português. Entre os jovens – falo por aqueles que me são próximos e mesmo por mim – esse desalento quanto ao futuro assombra-os: o desemprego é a nova espada de Dâmocles. Em Humanidades, então, o desespero é generalizado. Cada vez mais colegas se inclinam para a hipótese de seguir Direito, o último curso com saída dentro do nosso cada vez mais decadente agrupamento. Os poucos que permanecem fiéis aos seus projectos originais (como Psicologia, História ou Filosofia), ano a ano, tomam maior consciência do suicídio profissional que professam. A título de exemplo, soube recentemente que um archeiro da Universidade de Coimbra é licenciado em Psicologia.

Assim, não é de estranhar que, entre os que obtêm melhores resultados, seja comum o desejo de emigrar. Também não é de admirar que o sistema de cunhas, parecendo ser o único meio de assegurar um emprego, ainda que mal pago, prevaleça: lugares bem remunerados, não os há suficientes para a juventude. Porque administradores da Caixa Geral de Depósitos há só nove... E para que tenhamos as indemnizações, primeiro temos de lá estar! Não que seja complicado: as quotas do partido só têm de estar em dia. Não posso deixar de apontar, a propósito, que, entre os meus conhecidos, é significativo o número de jovens que se têm vindo a registar em juventudes partidárias. Sinal dos tempos? Não obstante esta nova vaga, os partidos insistem em usar os seus velhos vultos, alguns na casa dos oitenta. De facto, como acima dizia Hadaki, «A população está a envelhecer...».

Perante isto, não será normal o descrédito em que caiu a política nacional? Esta está num ponto degradante e promíscuo, em que se misturam interesses do futebol e dos partidos, com seus boys e demagogias autárquicas. Não se entende – e perdoe-se-me o lugar-comum – que haja dinheiro para estádios, mas não para hospitais; haja dinheiro para a Ota e TGV, mas os bombeiros – os últimos heróis da nossa era – não tenham equipamento adequado nem meios suficientes para combater os fogos, que tornaram o ar nas nossas cidades literalmente irrespirável. Com auto-estima, justificadamente, tão em baixo, qualquer dia, é o país que faz “hikikomori”... ■ o corvo

26 February 2005

Ilações das Eleições

1. O gozo do espectáculo há muito se perdera: a vitória rosa era já antes da noite claramente afirmada, firmada em sondagens (aquelas que Santana contava processar) e no comum senso (para muitos sonso). Insosso deve pois ter sido o êxtase socialista, desprovido do gosto do inopinado. A dúvida inquietante era ainda a maioria absoluta, mas até o sabor de tal surpresa roubou Sócrates aos seus, de tão certo estar nela. Talvez por tudo isto, o desfile que é costume no triunfo não se viu cantado por caravanas de carros correndo a cidade. Lamento o gordo sucesso: é o cessar dum debate que era tão preciso e que o absolutismo dispensa.

2. O descalabro laranja é ímpar e imparável se acentuou à medida que o sufrágio se terminava. Santana é o fenómeno axial que percorre, unindo e dando coesão, todo este naufrágio. A seta laranja surge-me aos olhos desfasada da realidade, quando a comparo com a linha dos resultados. Mas tal queda era uma aposta previsível, até pecou por não ter sido mais. Santana retratou-se, retractando-se do fracasso, a ele mesmo, num discurso de muitos gumes e facas. O bebé morreu estrangulado nos tubos da própria incubadora. Fez-se de mártir para o bem do partido, partindo dele. Terá setenta virgens à espera no céu.

3. Os comunistas e o seu partido satélite (ou direi mais parasita?) ecológico recuperaram o seu terceiro posto, acompanhando a suprema subida da esquerda. Também no nosso concelho conseguiu inverter os resultados tendencialmente descendentes, ganhando pouco menos que uma centena de votos. Eis mais um caso em que a mudança de líder recompôs a marcha: a rouquidão de Jerónimo ainda teve força para cantar vitória.

4. Os democrata-cristãos sofreram uma ligeira derrota quando olhando para o passado, mas uma forte desilusão se considerarmos o futuro a que se candidatavam. Portas abriu a porta para um substituto, no melhor discurso da noite: viu-se um político sem hipocrisia, ave rara nesta selva que é a política nacional. Era tal a translucidez do seus discurso sem rodeios e malabarismos demagógicos ou vitimizantes que o fez, se não um vencedor, por certo não um vencido. Como Santana, a saída de Portas abre um futuro mais promissor do seu partido. O seu sempre sorriso não abafava o quase-ódio que lhe era movido por uma camada da população a um nível irracional, mas que latejava forte. Um novo líder não terá tal estigma absurdo, mas real.

5. O Bloco fracassou, como os populares, os seus objectivos declarados, mas isso quase se torna irrelevante quando olhamos para a sua astronómica subida (bastante previsível e aqui pecou-se por defeito). Tal passo de gigante já amputou o Bloco, contudo, de duas daquelas que eram, a meu ver, das características mais apelativas dele: a inexistência da imagem dum líder e a rotatividade dos lugares no Parlamento, cujo fim Louçã já anunciou. O risco do Bloco é tornar-se um partido institucionalizado, como todos os outros. A adesão que recebe nas camadas mais jovens apresenta-se-me como consequência de ser um partido muito recente, cuja ascensão pode ser seguida por uma nova geração, a primeira posterior à Revolução dos Cravos, tendo em conta que já passaram 30 anos.

6. Um dos maiores ganhadores da noite não foi falado. Não convém muito, especialmente num país onde cientistas políticos o intitulam de ‘antidemocrático’. Falo do voto defendido por um nobelizado português no seu mais recente livro e pelo Movimento Um Rumo Para Portugal (www.umrumoparaportugal.com): o voto em branco sofreu um incremento fenomenal. Calculo que esse politólogo, em consonância com o dito na entrevista que concedeu à revista ‘Pública’, esteja agora a “olhar com atenção” essa “subida interessante”. O voto em branco quase duplicou quando comparado com 2002, atingindo os 1,81% e saldando-se em mais de 103 mil votos. Em Lisboa foi a sexta força política e valeria um deputado. Na nossa terra sofreu um aumento de aproximadamente 175% face às legislativas anteriores, atingindo os 250 votos, mais que todos os partidos menores somados, que se ficaram pelos 148 votos. O voto em branco provou ser uma opção digna de crédito e promete grandes surpresas para o futuro. ■ o corvo

Crónica Inédita


Partidário

Na rotunda da Nacional 1, que atravessa a Mealhada como um rio e que deixa que se vire para Casal Comba, confrontam-se dois grandes cartazes, um socrático, outro santanista. Sendo pendulares minhas migrações, todos os dias os confronto e sucessivamente, estranho!, eis que encontro o socialista rasgado, mal colado ou desaparecido. Não percebo o bizarro caso, se vem de humano ou natural erro. O que é certo é que o laranja, desta feita, não fez publicidade enganosa: resiste realmente colado às chapas metálicas onde o puseram «contra ventos e marés».

Esses cartazes, que agora aí se erguem, continuam estrada fora até Coimbra, onde não menos inocente é a campanha. É de espantar ao forasteiro os ternurentos anúncios que pululam na cidade, anunciando a «brevemente uma realidade» do hospital pediátrico que enfim chega para substituir o já rendido à idade. O que é curioso é que esse novo edifício de Coimbra só agora vê começados os alicerces. É um brevemente demorado, aquele que nos prometem, se considerarmos que em Portugal não há obra sem atraso, como a Biblioteca da Mealhada...

Esta campanha, neste período do campeonato, surge suspeita a meus olhos e a de tantos outros, nomeadamente a CDU, que já contra ela protestou. Mas as diversões desta pré-campanha não se fecham aqui. Ainda na mesma cidade, foi com surpresa (já devia há muito ter aprendido a não me espantar com estas estultices que grassam pelo país!) que reparei num cartaz do CDS desgastado pelo tempo e uso que ostentava uma velha lista de candidatos por Viseu. Erro da agência que devia colocar os cartazes, que acabou por cobrir o erro com um anúncio do PSD. No mínimo caricato, mas não o é toda a política portuguesa agora?

Temos pena que o espectáculo das listas tenha durado tão pouco, pois quão divertido se afigurou! Auto-retrato da política portuguesa. Os dois únicos partidos com possibilidade de ganhar mostraram gostos e práticas masoquistas, com facadas auto-infligidas, se quisermos utilizar a mais recente terminologia política. Meio PS atacou PS, protestando pelos lugares atribuídos nas listas, e o mesmo, em escala mais grave, sucedeu com o PSD. A ânsia de poder causa sempre conflitos. É uma virtude desse pomo da discórdia que tantos almejam.

A situação política que temos em Portugal neste momento é, nalguns fortes aspectos, análoga àquela da América em Novembro passado. A escolha no país para lá do Atlântico era complicada: quer um, quer outro dos candidatos não se revelava minimamente competente para o lugar; se Bush já tinha esbanjado provas da sua inabilidade política, Kerry também não oferecia muito mais segurança nem uma visão para o futuro animadora. O panorama luso é uma réplica menor deste: dum lado, temos Santana; do outro, Sócrates; sem que nenhum se apresente como um sério estratega que possa solucionar as questões do país.

A alternância irritante e partilha do poder entre estes dois partidos maiores, apenas quebrada pela entrada do PP nestes dois últimos governos, é desanimadora. Basta observar o sector da educação, aquele que me atinge mais directamente, que tem sido alvo de sucessivas reformas de inúmeros governos, que não conseguem acordar num modelo pedagógico. Em Portugal, não se consegue ter um fio unitário de poder coerente: cada governo resume-se a moldar as coisas à sua forma, não reciclando o que herdou, mas destruindo-o por completo.

De facto, este é um mal intrínseco à democracia do nosso país. Para que um partido da oposição possa alcançar o poder, tem necessariamente de contrariar e combater as medidas tomadas pelo executivo em posse. Se prometer o mesmo, ninguém votará nele, pois que compensam as rédeas do poder em mãos diferentes para o mesmo galope? Só certificando que vai alterar as políticas do governo a que se opõe nas mais diferentes áreas é que a oposição pode ansiar sair vencedora nas urnas. Em conquistando S. Bento, logo renega e deita fora as velhas medidas anteriores e tudo renova e faz a seu jeito. Mas quatro anos depois, o mesmo lhe sucederá. E, assim, nos achamos presos neste ciclo vicioso...

Há que dar um sinal aos partidos de que este esquema caducou e é inaceitável: só com uma maior cooperação entre todos podemos aguardar algo de melhor para Portugal. Mas ninguém pode cooperar chamando-se de oposição...■ o corvo

Publicado a 19 de Janeiro de 2005

Requiem a Santana (Tocado por violinos de Chopin)

A autópsia foi conclusiva: o infante estava clinicamente morto (mentalmente, há muito assim se achava). As causas exactas não se revelaram claras e os doutores em brancas batas hesitam e ponderam. Os maus tratos familiares terão levado a tal defunto Estado? O espectro da cabala, que hoje tudo domina, floresceu logo numa tese da conspiração. Um corte da ficha de alimentação podia, se podada fora a energia à incubadora do perecido, ter precedido a extinção deste e à sua jovem morte conduzido. E, pena do menino!, foi estranho também seu caso, mas o acaso não se lhe deu para que também este em bamba corda estivesse no morre-acorda do velho Arafat! Ia ser circo divertido de acompanhar...

De circo, já cercados fomos porém durante estes últimos quatro meses que, enfim, se acabam! Caibam aqui todos os números do espectáculo e logo vo-los mostro! Deles, porém, só amostra curta esta crónica acarta, que nestas linhas pouco espaço se arranja sobre o desarranjo do governo e do país. Eis, pois, que enfim o presidente fora manda Santana e o seu populista mando! O mundo santanista que governou esta nação rui por fim! Santana com as suas trapalhadas súbitas foi na semana volvida rejeitado, depois de ajeitado seu governo na quarta anterior. As chaves do poder lhe foram tiradas, depois de se retirarem pelo próprio pé no domingo de há uma semana atrás. E com essa saída do henriquino Chaves de alma traída, a terra se começou a fender para Santana...

Duvido que mais gozo tão divertido tenhamos tido do que nesta curta ocupação do trono por Santana. Honremo-lo: ele foi o nosso Bush, até este presidencial Putsch. Na sua prática do contraditório, entreteve o lusitano auditório, como se de revista do seu parque Mayer restaurado se tratasse. O preço do bilhete foi, contudo, exacerbado: a conta (e a Compta) foi ruinosa. E no deserto político e social a que chegámos não se vê oásis, nem sequer aquele que ele ergueu na larga Praia da Claridade.

O extracto detalhado do talão do concerto mostra o que por consertar ficou. Pior, revela o gosto macabro dos seus actores nas desgraças que eles fizeram subir ao palco. Nem o pó de talco das assessoras de imagem de Santana lhe valeu. O espectáculo foi, no mínimo, mórbido. Primeiro acto: a espera das listas– uma reflexão metafísco-prática sobre a influência das máquinas na sociedade moderna e o controle exercido pelos computadores sobre o indivíduo. Segundo acto: o silenciar os incómodos- um ensaio sobre o lixo televisivo acompanhado de algumas considerações sobre a influência manipuladora dos mass media e passos para a instauração no país do regime italiano de controlo da televisão pelo primeiro-ministro. Terceiro e derradeiro acto: quinta lição de xadrez sobre o movimento conhecido por roque, em que se rodam duas peças nucleares de modo a que uma mais crítica fique mais “resguardada”, num gesto cujas designações linguísticas variam entre reajuste e remodelação, dependendo do ponto de vista. Fim.

Sim, de mau gosto no mínimo, este teatro. E o seu actor principal pôs agora em xeque o seu partido, que agora partido o queria ver para outros lados. Mas como, quando no congresso apoio mais expresso lhe investiram nas urnas? E para as furnas atrás do líder a laranja se vai enchendo de bolor... Parece que nem o astral salvará Santana no final: sua astróloga nos confessa que o tempo derradeiro dele se apressa, pois que o ano dele, a crer no chinês calendário, se encerra agora– aproxima-se a última hora do Macaco!

Com certeza, ela com firmeza avança, ainda com data não estabelecida. Provavelmente, conta-se por aí, virá mascarada e disfarçada. Estou deveras convencido de tal, pois a sabedoria popular não se engana e já ela mo revelava num velho conto da minha meninice, que alguém nomeou de ‘O Pedro e o Lobo’. Pedro acorre ao vale em falso alarme e as gentes o socorrem aflitas, para constatar a mentira. Mas atira Pedro de novo essa calúnia à cara do povo, e eles o acodem e o mesmo que antes verificam. Uma terceira vez, quando de facto o terror sucede, e o lobo vai fero devorando as ovelhas, e Pedro busca auxílio, das gentes só acha exílio. Quem mente, há-de vir a altura em que, precisando mesmo, nem mesmo a verdade convencerá. Está na hora de Santana compreender essa lição. ■ o corvo

Publicado a 8 de Dezembro de 2004