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27 January 2008

Nobel Inventou A Dinamite

Aqueles de boa memória lembrar-se-iam, quiçá, ainda do nome de Bali, na Indonésia, dos atentados de há seis anos atrás, encravados entre os dois onzes, o americano e o espanhol. A cidade esgueirou-se de novo para as bocas do mundo graças à cimeira climática que aí decorreu durante a primeira metade de Dezembro. Porque, pela primeira vez, todos os países – mesmo aqueles em vias de desenvolvimento ou até manifestamente pobres – se uniram para redigir um acordo comum, esta conferência revestia-se de especial importância.
Eram grandes as expectativas – ao nível da importância da coisa. Os jornais, para medo nosso, iam anunciando as dificuldades nas negociações, e, pouco a pouco, a esperança redundou na desilusão. Uma ligeira nota de rodapé, dizem, resgatou o acordo, permitindo o chamado Roteiro de Bali. A pressão dos EUA, secundados por alguns países de considerável poder, nomeadamente o Japão e o Canadá, impediu o estabelecimento de metas concretas: tudo isso foi empurrado, como um camelo pelo buraco de uma agulha, para a tal nota de rodapé em que se alude às páginas do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) onde se avançam – aí sim – os números que alguns quiseram esconder.
Não são algarismos agradáveis: pede-se aos países desenvolvidos que reduzam até 2020 os seus gases entre 25 a 40 porcento e a todas as nações que, em 2050, as emissões de CO2 sejam metade das actuais. Porém, a não enunciação explícita destes números no documento final limita-o bastante, tornando-o essencialmente num manifesto de boas intenções, e não permite, de modo nenhum, proclamações de vitória. O ambiente é um assunto por demais sério, cuja gravidade ainda não foi totalmente apreendida por todos. Tem-se trabalhado e não negarei os avanços feitos (veja-se, por exemplo, entre nós, o sincero triunfo das campanhas de reciclagem), mas, se ainda há alguma esperança, mesmo se mínima, de ganhar esta luta, ela exige ainda mais de nós, insatisfeita com os progressos registados.
Alguns estar-me-ão já a rotular de pessimista. George Steiner, no seu ensaio A Ideia de Europa, afirmava mesmo que um dos traços definidores do nosso continente é precisamente esta consciência aflitiva de um fim iminente. Talvez, portanto, o meu pessimismo não seja mais do que uma consequência do meu ser europeu. Não deixa de ser curioso que seja precisamente a União Europeia quem mais pugna pelas causas ambientais. Pelo contrário, os EUA, nos últimos anos, têm-se revelado, neste campo, uma força de bloqueio. Isto, porém, sob a batuta de Bush: também por essa razão, entre outras, as eleições americanas em Novembro são, possivelmente, o acontecimento político mais importante deste novo ano.
Nem todos, porém, se encontram necessariamente solidários com esta luta pelo ambiente. Há quem, receoso da mudança, procure proclamar, mesmo se a medo, que o combate contra o aquecimento global pode ameaçar a paz, como o director do Público, defendendo que o crescimento económico, que as metas do IPCC põem em causa, é o que sustenta a actual paz. Esta é uma argumentação sem dúvida original – mas débil, que menospreza o que está verdadeiramente em questão: a nossa sobrevivência enquanto espécie.
O Prémio Nobel da Paz deste ano (perdão, do ano passado) foi para o IPCC (tomo a liberdade de não mencionar Al Gore). A tarefa do IPCC tem sido repetidamente relembrar-nos a bomba-relógio cuja desactivação teimamos em adiar, armados em James Bond, confiantes de que, como sempre nos filmes do espião, no último segundo, silenciaremos o mortal tique-taque. No fundo, o que este Nobel nos lembra é a dinamite sobre a qual caminhamos: que tenhamos isso sempre presente ao longo deste novo ano.

11 July 2006

A Lição de Moby Dick

Retirei-me, velho cansado, estes dias, para casa de um bom amigo meu, na banda de Leiria, entre o campo e bosque, numa pequena localidade chamada Quintas do Sirol. Em aí regressando, como que sinto sempre um prazer inédito de descobrir de novo a terra livre: conhecer a surpresa de abrir uma porta de casa e ouvir, sem sentimentalismo falso, as aves, exorcizadas pela cruz dos prédios das nossas cidades. Uma certa nostalgia de Caeiro como me invade nesses momentos súbitos. Consciencializo-me a uma escala planetária da criação dos seis dias e da penetrante beleza periclitante que lhe é intrínseca. E, relembro, triste, a citação do filme Matrix: «Os seres humanos são uma doença, o cancro deste planeta».

Neste espaço de que escrevo, quão mais bárbaras parecem as declarações de Fernando Ruas, incitando os seus concidadãos a “correr à pedrada” os inspectores do ambiente, bobamente acrescentando “medir bem as palavras” – pena não as ter pe(n)sado! Poderia concentrar-me no insulto cuspido do presidente de Viseu à inteligência comum, ao afirmar depois que não se o deveria levar à letra – num apalermado paradoxo. Podia analisar o significado do apoio imediatamente expresso de Alberto João Jardim – se valesse, da facto, ainda comentar que quer que se oiça vociferando desses lados insulares. Porém, o meu coração ofende-se mais profundamente que tudo com o pensamento excêntrico que, latente, pulsa nesta afirmação de Fernando Ruas. O poder político (numa muito provável intrusão de outros poderes poderosos) afronta o habitat do homo sapiens – criamos reservas para linces ibéricos, correctamente previstas por decreto, mas insistimos em não cuidar de nós próprios.

Penetramos aqui no instável equilíbrio entre o cidadão e o poder: obviamente, reside em nós a certeza constatada de que um esforço individual – aos mais diferentes níveis, da reciclagem à poupança de água – contribui, ipso facto, para o melhoramento do mundo; porém, simultaneamente, sabemos da importância dos poderes superiores e das suas decisões. Ajuizadamente, a tudo isto, o Ministro do Ambiente veio retorquir que aqueles “que entendem que o desenvolvimento económico é incompatível com o ambiente [...] têm uma mentalidade de desenvolvimento própria dos anos 50” – até nisto parece Portugal, anacrónico, estar a meio século de distância da Europa civilizada. A indignação do Ministro respondia também às declarações de Basílio Horta, presidente da API, pedindo para aumentar a quantidade de emissões de CO2 previstas para Portugal por Quioto: creio bem que, daqui a uns anos, aconselhará a nossa retirada deste tratado, apontando como exemplo saudável os EUA de Bush.

Internacionalmente, uma outra notícia, passada por certo despercebida – apesar do tamanho gigantesco do seu objecto, inquietou-me: a Comissão Baleeira Internacional na declaração final da sua reunião anual escreveu que a moratória que proíbe a caça à baleia desde 1986 “não é mais necessária” e, pela primeira vez em duas décadas, exprimiu o seu apoio à caça deste mamífero para fins comerciais. Tomemos consciência de que a família dos cetáceos esteve à beira da extinção – o que, atempadamente (?), levou à moratória referida. Não obstante, era do conhecimento comum a persistência do mercado negro. O levantamento da interdição pode ser fatal e encerrar a milenar história de uma das mais belas e simbólicas espécies marítimas. Os tempos passaram desde que Melville, no seu Moby Dick, louvava a perseguição dos cachalotes, mas a alegoria da obra permanece válida: indomável, Moby Dick destrói o convencido navio Pequod e o seu capitão Ahab, incapaz de entender a vitória sempre final, sempre perpétua da Natureza sobre o Homem, cego na sua ânsia de a dominar: aprendamos!

21 July 2005

A Terra, os americanos, nós e eu

O encontro dos G8, que vai ter lugar em Gleneagles, Escócia, aproxima-se. O Reino Unido já estabeleceu quais as prioridades desta cimeira a que preside. Por um lado, o combate à pobreza, que continua a matar 30.000 crianças diariamente, números que justificam acções como o Live8 – oito concertos simultâneos em cidades como Berlim, Londres ou Filadélfia no dia 2 de Julho; palcos onde actuarão artistas de renome pretendendo convocar o maior número de espectadores para assim pressionar os G8 a tomarem medidas drásticas de apoio a África. O segundo grande tema que Tony Blair pretende tratar nesta cimeira é o clima, cujas dramáticas alterações já foram classificadas por ele de “provavelmente, o desafio mais importante que enfrentamos enquanto comunidade global a longo prazo.” Cerca de metade da poluição mundial é produzida por estes países, nomeadamente a América que mantém uma atitude céptica irracional. Esta descrença americana obrigou a que no projecto de declaração final da reunião dos G8, datado de 14 de Junho – como o Público indicava na semana anterior – frases como “o nosso mundo está a aquecer” e “sabemos que o aumento é devido em grande parte à actividade humana” se encontrem entre parêntesis, traduzindo uma discordância dentre os G8.

Mais revoltante ainda é a recente notícia do New York Times de que os relatórios científicos sobre esta temática foram consecutivamente manipulados por um funcionário da Casa Branca que antigamente liderava a luta das empresas petrolíferas contra os limites de emissão de gases. Outros funcionários da Casa Branca prontificaram-se a justificar tal actuação, chegando a afirmar que as alterações feitas aos relatórios científicos eram uma parte natural da revisão efectuada a todos os documentos de igual assunto. Não é descabido lembrar ainda a proibição da administração Bush, aquando da estreia do filme O Dia Depois de Amanhã, de que os cientistas da NASA se pronunciassem sobre a película, que era uma crítica à política anti-ambientalista da sua presidência e que versava sobre os cataclismos que o aquecimento global pode provocar.

Entretanto, enquanto a política de silêncio e inoperância prossegue pomposa, o mundo definha a passos largos. No início deste ano foi divulgado, por parte do Grupo de Trabalho Internacional sobre Mudança do Clima, um relatório onde se afirma que a humanidade tem aproximadamente dez anos para poder reduzir muito substancialmente as emissões de gases poluentes, caso contrário, o risco para ecossistemas e sociedades aumentará significativamente, envolvendo as consequências perdas agrícolas severas e forte escassez de água. O mundo dispõe duma década até atingir o chamado ponto de não retorno. Os estudos científicos mais apocalípticos indicam 2050 como a data em que a vida terrena se terá tornado insustentável.

Também Portugal não está isento. A seca actualmente vivida que tem levado a racionamentos de água como aquele que agora parece também vir a ser aplicado no nosso concelho são consequências directas da instabilidade climática. Um relatório da Agência Europeia para o Ambiente veio revelar, este mês, que fomos o quarto país europeu com concentrações de ozono mais elevadas no Verão de 2004.

Existe um site que propõe que todos saltemos ao mesmo tempo para desviar o planeta do seu eixo, o que supostamente pararia o aquecimento, através do aumento dos dias e da homogeneização do clima. Se nada for feito pelos G8, mais me vale inscrever nessa patética, mas desesperada acção: saltar para salvar o planeta... ■ o corvo