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09 September 2009

A Integridade Como Problema

No final de Agosto, foi revelado na íntegra um relatório da CIA, datado de 2004, em que, com um pormenor ausente dos memorandos que a Administração Obama havia tornado públicos há já alguns meses atrás, se ilustram alguns dos métodos de tortura – ou «técnicas avançadas de interrogatório», na novilíngua da era Bush – usados contra presumíveis terroristas. Os jornais e as televisões encarregaram-se de revelar os pormenores mais sórdidos, desde um suspeito cuja mãe os soldados ameaçaram violar à sua frente até outro a quem foi apontado um berbequim ligado. As opiniões dividem-se quanto à questão de saber se os agentes da CIA devem ou não ser julgados, havendo quem considere, inclusive Obama (em parte, por estratégia política), que estes devem permanecer impunes, tanto mais que, argumentam outros, eles se limitaram a acatar ordens. Dick Cheney, o infame ex-vice-presidente, monstro-mor da velha administração, espécie louca de Átila, veio já, com os seus acólitos, defender a justeza de tudo isto, pois considera que sem os métodos usados não se teria conseguido obter a informação que, em última análise, diz, preveniu novos ataques em solo americano.
Se não houvesse sinais (porque todas as coisas se anunciam e o inesperado é uma espécie de desatenção), esta polémica, naquela que é a mais antiga democracia do mundo, teria de necessariamente nos surpreender, havendo de ser entendida como um atavismo. A ficção, porém, prenunciava-o (cumprindo a profecia de Wilde de que vida, ela sim imita a arte), no facto de a série 24 ser um das mais vistas e Jack Bauer, o protagonista, se ter tornado num ícone republicano, evocado como exemplo de quem, perante uma América em perigo, não hesita em recorrer a meios mais «heterodoxos» para proteger o país (declarações de um dos candidatos nas primárias republicanas). Nem todos os americanos, claro, pensam assim, mas o simples facto de haver quem, em cargos políticos significativos, mesmo se sob o espectro ainda do 11 de Setembro, o faça, tem necessariamente de ser preocupante (Palin, lembre-se, gozou com Obama por este defender que os suspeitos de terrorismo deviam ser informados dos seus direitos).
A um dado momento no Munique de Spielberg, Golda Meir avisa: “Todas as civilizações sentem a necessidade de negociar compromissos com os seus próprios valores”: será isto um truísmo, sob a égide do medo e da socbrevivência? Somos capazes do acto paradoxal de hipotecar os nossos valores para os salvaguardarmos? A pergunta ganha particular pertinência agora que recordámos o início da II Guerra Mundial, no passado dia um, pois que foi com o seu fim que a Europa, esventrada, optou pela paz, antes improvável, hoje necessária, nem que seja como hipérbole da segurança, o valor, não declarado, mais importante para a maioria das pessoas. Tornámo-nos demasiado morais ou, simplesmente, demasiado cínicos, para que possamos crer na guerra como solução. Veja-se: sabemos, por exemplo, que parte fundamental do nosso futuro se joga no Afeganistão. A consciência dessa verdade geopolítica, porém, em nada altera o nosso sentimento: os ingleses continuam a exigir, de forma peremptória, o rápido regresso das suas tropas. Obama, pelo contrário, envia mais soldados.
A questão tremenda a que temos de responder é: não assenta a possibilidade do nosso pacifismo europeu no belicismo americano? Não haverá uma profunda hipocrisia subjacente a todo o orgulho com que nos arvoramos em guarda avançada da civilização & democracia? A II Guerra Mundial, que evocamos e cuja importância e justeza, penso, ninguém questiona, consistiu, no fim de contas, também numa espécie de pornografia moral, em que os Aliados, para esmagarem um totalitarismo juntaram-se a outro, em que, para triunfar, tiveram de – por relutantemente que o tenham feito – servir-se das mesmas técnicas de intimidação e terror que aqueles que combatiam usavam: pense-se nas duas bombas atómicas ou na destruição de Dresden, talvez só semelhante à de Cartago. Falta uma interrogação sincera pela força das nossas convicções – e até mesmo pela sua possibilidade.

Concurso «Componha Uma Campanha»

Durante a campanha de Obama, certo cronista do Público, cujo nome não lembro (Laurence Peter definiu originalidade precisamente como esta habilidade de nos recordarmos das coisas, mas não dos seus autores), escreveu a propósito de como os políticos na Europa estavam a tentar aproveitar o fenómeno Obama para renovar a sua imagem, explicando que, mais do que ser Obama, havia que parecer Obama. A campanha do presidente americano apresentou de facto um novo modo de estar e sobretudo fazer política, inevitavelmente clonado sem gosto, como um pechisbeque, agora que entramos em ano eleitoral.
O PSD foi, de todos os partidos, o que mais abertamente explicitou o seu desejo de abandonar o modo velho de política, afirmando – e até com razão – o carácter eminentemente passadista dos comícios. Seguindo Obama, os sociais-democratas lançaram uma forte ofensiva na internet. Mas porque quanto Portugal importa, traduz em calão (Eça dixit), os candidatos laranja às Europeias chegam alguns deles, na sua ânsia de mostrar modernidade, a ter links para o seu Hi5, a rede social de putos e adolescentes. Faz lembrar aquele conferencista da anedota que, convidado para uma sessão solene, procurando infundir um tom elevado ao discurso, em vez de dizer, com simplicidade, «as folhas da couve», acabou a louvar «as pétalas» do vegetal.
Também o PS procura tirar dividendos do fenómeno Obama: num dos seus tempos de antena, são exibidas várias fotos de Sócrates com o presidente americano, não se percebe bem porquê. Se bem me recordo, o candidato do PS é Vital Moreira, não o primeiro-ministro (antes fora: sinal que nos deixava!). Quiçá as imagens sejam uma referência à contratação para as Legislativas, por parte de Sócrates, da empresa que preparou o lado multimédia da campanha de Obama. Na impossibilidade de imitar o conteúdo, imita-se o estilo. Falta ao PS – e à nossa política em geral – o discurso de verdade sobre o qual Obama ergueu a sua vitória.
Estude-se o que aconteceu entre nós com a sugestão de criação de um imposto europeu, avançada por Vital Moreira. Pouco me importa aqui a ideia em si, antes a tomo como exemplum da construção da mensagem política. Vital Moreira, servente fiel de Sócrates, é, apesar de tudo, inteligente demais para não ter opiniões próprias: ei-lo pois a sugerir a criação de um imposto europeu. As hostes rosa perceberam rápidas o erro da coisa e, no dia seguinte, depois de todas as críticas de que fora alvo, Vital Moreira, em obediência aos estrategos de campanha, calou o que pensava e remeteu explicações para quando fosse eleito (belo pensamento: colhe o voto, explica depois). Mais tarde, porém, pôde retomar o assunto, fazendo notar que o PSD já antes havia aprovado a ideia. A máquina socialista não dormiu enquanto não conseguiu tornar o deslize do seu candidato em arma de arremesso, dando-lhe, depois disso, autorização para falar de novo.
Vê-se bem nisto que o discurso do poder é todo ele imagem, uma coisa fabricada que, quando interrompida pela honestidade, se acanha e panica. Vital, o candidato «independente», enquanto títere do governo, é, sem dúvida, o mais constrangido de todos os cabeças-de-lista (está claramente proibido de dizer o que pensa de Durão Barroso, por exemplo). Entende-se, face a esta sensação de farsa, porque razão a abstenção prevista é tão grande. Confrontados com a proposta de tornar o voto obrigatório, os partidos manifestaram-se unanimemente contra. É fácil desmanchar a aparente contradição entre este seu repúdio e o cerrado combate que têm travado contra a prevista abstenção. Com o voto obrigatório, a abstenção de hoje redundaria num gigantesco número de votos nulos/em branco, vexame ingrato de toda a classe. Os políticos estão apenas a proteger-se a si próprios – é a sobrevivência da espécie: pois não é este o ano Darwin?

27 July 2008

A Palavra & O Poder / O Poder das Palavras

Logo na primeiríssima crónica deste ano escrevi que as eleições americanas seriam o acontecimento mais importante de dois mil e oito. As políticas dos EUA atingem-nos a todos (o Iraque tem alguma responsabilidade no preço do petróleo que nos inflaciona a gasolina). Contudo, mantive-me calado sobre o assunto. Eis, porém, que agora Obama veio à Europa. Esteve na semana passada em Berlim, onde foi recebido por mais de duzentas mil pessoas. Muitos lhe louvaram o discurso; outros, contudo, repetem que são apenas palavras bonitas.
Quando se fala de Obama, o seu exímio manejo da palavra é apresentado como fraqueza. O discurso político actual, de facto, fundamenta-se não tanto na palavra, mas muito mais no número. A estatística foi a ciência que triunfou e essa matemática corrompida despejou as palavras do seu significado, só pelo pecado delas não serem números também. No império da imagem, a própria palavra foi reduzida a esse estatuto superficial. A política, em última análise, destruiu a língua, de tanto ter escavado às palavras o seu significado real, para, vazias, as usar a seu capricho e sem que implicassem um compromisso. Por isso, ninguém acredita no que dizem os políticos, porque não há nada ali para acreditar: as palavras estão ocas.
O milagre de Obama foi ter reinventado a língua, como se cada palavra nascesse quando ele a pronuncia. Em Obama, as palavras são o que são, com todo o seu peso. O homem moderno esqueceu-se que o poder da palavra é infindo: Deus criou o mundo falando. Obama voltou a ancorar a palavra na realidade, devolvendo-lhe a sua essência, o seu significado. Daí o sucesso da sua campanha: já não nos recordávamos do que era a verdade a palpitar debaixo da pele das palavras. “Palavras, palavras, palavras”, assim resmungam os detractores de Obama. Este é um mundo mais pobre, este a que chegámos, este, dos ateus da palavra. Percebe-se. Vai-se a uma livraria e os romances, na sua maioria, não dizem nada, são fracos, mas volumosos, todavia. A palavra enquanto processo de enunciação e revelação da verdade oculta das coisas e da vida tornou-se uma arte pouco praticada. Políticos prometem o que nunca quiseram cumprir.
E eis que chega alguém que nos recorda a função primordial do verbo e nos convence do poder verdadeiro das palavras verdadeiras de mudarem o mundo. Change: mudança – é essa a palavra em que Obama permanentemente insiste. Quando se repete muitas vezes uma mesma palavra, duas coisas podem acontecer: ela fica descalça de todo e qualquer significado que possa ter, como sucedeu na política moderna, ou concretiza-se, porque a palavra é mágica (é nisso que acreditam as crianças, como dizia possivelmente Proust). Só quem odeia a poesia pode não gostar dos discursos de Obama e, rancoroso, criticá-los pela sua força. Obama recolocou a palavra, inteira e concreta, no centro da política, onde ela antes era só uma muleta.
“We are a people of improbable hope”, “Somos o povo de uma esperança improvável”, confessou o candidato democrata, em Berlim, na semana passada, naquele que nem foi um dos seus discursos mais brilhantes, mas onde, porém, pululavam pequenas pérolas como esta. Tudo é improvável na campanha deste homem: até a sua vitória está longe de ser certa. É improvável também que Obama consiga levar a bom porto todas as suas propostas ou que cumpra com sucesso tudo quando promete: quando, porém, fala, o que diz, di-lo convicto e sem disfarces. Quando Obama diz emprego diz emprego e não diz votos. E isto é uma revolução. Qualquer que seja o resultado das eleições em Novembro, Obama conseguiu já o que eu teria considerado impossível para os homens de hoje: restaurar a fé perdida nas palavras. Obrigado.