A propaganda política é coisa velha: já em Roma os latinos grafitavam as paredes da Urbe com apelos ao voto neste ou naquele candidato (ou então com insultos ao adversário, técnica não menos eficaz). Com a emergência do Império, o hábito esmoreceu e como que hibernou até ao início do século XX, altura em que o cartaz irrompeu na cena política e artística, tornando-se na arma ideal de endoutrinação dos regimes totalitaristas, ao mesmo tempo que se afirmava como nova forma de arte, o equivalente gráfico do manifesto berrado, género tão querido aos futuristas. Não sem razão o Museu de Design e Moda, em Lisboa, tem patente uma exposição de cerca de duas centenas e meia de cartazes políticos, pois estes existem também enquanto objectos estéticos – pense-se, por exemplo, no icónico poster de Obama, de Shepard Fairey, que acabou mesmo leiloado.A oposição, como um mantra, repete nos cartazes mudança, mudar ou qualquer palavra da mesma família (e isto é uma constante). Os actuais presidentes contra-atacam insistindo na justeza do rumo, palavra apaparicada pelo marketing do poder, que invoca a obra feita. Depois aparecem meia dúzia de cartazes a apelar ao colectivo, normalmente num de dois modelos, o Juntos por... ou o parónimo Todos por.... Há quem peça ou prometa mais ou melhor para terra, mas acima de tudo remete-se para o futuro, indubitavelmente o lema mais popular da campanha. Resta ao eleitor guardar a fé: acreditar, confiar, confiança (e outras variantes) são palavras que abundam. E pronto: a isto se resumem cinco sextos dos cartazes que engalanam o Norte.
Os cartazes na nossa cidade também não se destacam de sobremaneira. O de César Carvalheira faz o erro básico de cortar em dois a frase do candidato, intrigando quem veja só uma das partes: «depois as ideias, os projectos e as obras». Depois do quê?, perguntar-se-ia o eleitor incauto, do meu voto? De novo, pois, discurso da fé. Só vendo o outro cartaz, que antecede este, mas está sem grande inteligência virado precisamente para o outro lado da estrada, se entende: «As pessoas e o concelho primeiro». Não se pode pedir aos eleitores tão grande esforço mental, mas sobretudo do pescoço. Quanto a Carlos Cabral, repete ipsis verbis o lema do candidato de Conde, por sua vez o mesmo do de Lordelo, ambos socialistas também. Estranho que num partido cujo líder permanentemente fantasia com outro Portugal, querendo fazê-lo passar pelo real, falte tanta imaginação, afinal.
Ninguém arrisca uma proposta concreta, uma ideia que seja, que possa alimentar o debate: os cartazes têm um nível de informação zero e pouco mais servem que para feiosamente marcar presença. Fala-se em mudança e futuro, mas sem que se especifique a direcção dessa mudança ou a forma desse futuro. As eleições autárquicas, que seriam, por excelência, uma ocasião para promessas assaz concretas e palpáveis, ao encontro de necessidades muito específicas dos eleitores, acabam afinal por resvalar para um discurso vazio. «Palavras, palavras, palavras», lamentava-se Hamlet – e lamentamo-nos nós.
