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29 October 2008

A Doutrina Vencida dos Vencedores

Sei que fiz voto de silêncio, mas também se pode sair da cartuxa (especialmente quando se tem asas para voar). Pedi ao Einstein uma explicação para o longo tempo entre as crónicas e o linguarudo (foi ele que desenhou o logotipo dos Rolling Stones) explicou-me que o espaço e o tempo eram um contínuo siamês: eu longe, as crónicas tinham que levar um mês.

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No outro dia o capitalismo esteve aí a estrebuchar. Não fiquei com pena nenhuma do capitalismo (para que quereria eu uma pena feia, a estragar a minha plumagem?). Subitamente, começou-se a falar na necessidade de “moralidade” (assim mesmo: foi esta a palavra usada) no mercado. Depois do “socialismo de rosto humano”, o “capitalismo de rosto humano”, ironizava com humor e verdade um blogger (não recordo quem: li tantos – que me perdoe!). Quanta inocência cabe entre uma gravata e um colarinho!
O capitalismo é, em si mesmo, um sistema absolutamente imoral. Que, regra geral, os partidos de raízes mais ou menos cristãs sejam advogados da liberdade dos mercados – a Juventude Popular, não esqueçamos, propôs, no ano passado, a abolição do salário mínimo, com o argumento de que este era um entrave a essa mesma liberdade do mercado – é um daqueles mistérios políticos absolutos e patetas, tão inexplicáveis como, para a ciência, o facto de o pato ser o único animal que não produz eco. O sistema capitalista, na forma em que o conhecemos desde a II Guerra Mundial, baseia-se essencialmente numa lógica de consumo assente na associação falaciosa entre ter e ser. A primeira geração pós-guerra, cobaias da nova experiência capitalista, acertadamente entenderam a sua mentira: chamou-se a isso anos 60 e hippies. Mas quando crescemos perdemos os sonhos como os velhos perdem os cabelos – e os revolucionários viraram os mercenários do sistema.
O capitalismo nasce do conceito da posse que é, por natureza, individualista (o verbo possuir só tem as três primeiras pessoas do singular: no plural substitui-se por partilhar). O capitalismo é esse sistema em que a palavra bem só existe no plural, material. Empilhamo-nos de coisas com que nos prometeram a felicidade. O objecto das nossas acções, imperceptivelmente, passou da pessoa para a coisa, para a pessoa acabar em coisa (essa é, ainda, a mais válida definição de capitalismo). Uma doutrina centrada no ter tem de arruinar o ser. Falamos de um sistema que assenta na ganância de multiplicar permanentemente (tal como se procriam mil pipocas de uma mão cheia de grãos de milho) o capital, por imenso que seja. Porque é uma sociedade do ter, é também uma sociedade do entre-ter: desse modo apenas se pode esconder o tédio, o absolutíssimo tédio que brota de uma vida mentirosa. Sendo uma doutrina de vencedores, o capitalismo pressupõe automaticamente vencidos: os marginais, os pobres (um quinto da população portuguesa, creio).
A intuição do erro fundamental que é este sistema primata tem naturalmente suscitado reacções. Ridículo seria agitar de novo bandeiras vermelhas (do sangue) e foices (das vidas ceifadas). Algumas alternativas foram sendo desenvolvidas. O “comércio justo” (popularíssimo aqui na Inglaterra, onde a omnipresença divina compete com a ubiquidade do café fairtrade) será talvez um dos casos mais bem sucedidos, mas também digno de nota é o projecto da economia de comunhão, lançado por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, que defende uma repartição dos lucros tripartida, em que uma parte substancial destes é directamente aplicada em favor dos mais pobres (a ideia surgiu numa visita às favelas paulistas). Uma revolução mais profunda, mais íntima, é ainda necessária, contudo: a ganância dos especuladores tem a sua contraparte no consumismo do homem normal. Diz-se que Sócrates, um dia, percorrendo o mercado de Atenas, vendo as bancas, comentava com os discípulos: “Tanta coisa que eu não preciso!”. Os nossos centros comerciais multiplicam-se como cogumelos (e são todos venenosos, estes). Quando conseguiremos de-ter esta obsessão de ter?
imagens:
Into the Wild (2007), de Sean Penn

09 October 2005

Altr-eu-ísmo (II Parte do Ciclo Nipónico)

O exacerbado consumismo, referido na passada crónica, das adolescentes japonesas – essa geração que apelidámos de “pedi, e ser-vos-á dado” – reflecte, na sua forma mais pura, o vazio que as enche, se tal antítese é possível. E mais uma vez, a sociedade nipónica funciona como reflexo da nossa. O consumismo obsessivo das raparigas é uma alienação de si próprias, porque lhes falta uma individualidade, que elas a todo o custo transferem para as roupas, que passam a ter o encargo de demonstrar um dado estilo de vida. Muitos jovens adoptam modas sem compreenderem plenamente a mentalidade por detrás delas. O caso mais paradigmático é o vestuário gótico, que, agora, como que se banalizou, sem que haja uma verdadeira identificação com tal movimento, como se a roupa conferisse ao seu utilizador a cultura alternativa que lhe é implícita. Os jovens transferem para as coisas a sua personalidade, aquilo que são, sem entenderem que, como no filme Clube de Combate se diz: “Tu não és o teu emprego... tu não és quanto dinheiro tens no banco... nem o carro que conduzes... nem o conteúdo da tua carteira.”

Porque não se é nada senão um vazio, é necessária uma constante alienação de si, presente na nossa sociedade, em fenómenos como o consumismo e a premente socialização. Esta última merece uma maior atenção. Há uma constante vontade de estar acompanhado – o ser humano esqueceu-se do que é estar sozinho e os que o não olvidaram são chamados de misantropos. A personagem Mildred, em Fahrenheit 451 – obra de Ray Bradbury que tive o ensejo de ler estas férias, sobre um mundo onde os livros são proibidos – é a imagem perfeita deste comportamento, sempre agarrada à “família”, nome das três paredes falantes.

Parece que atingimos o cume do altruísmo, quando deixámos de procurar a solidão, para a substituirmos por uma companhia incessante, de que são instrumentos os telemóveis e televisões, que nos invadem a privacidade. O sofisma está em não perceber que este aparente altruísmo não o é; trata-se antes duma dependência. Convivemos com os outros, não vivemos para os outros – isso sim, o real desprendimento apregoado por tantas filosofias e teologias. Fazemos dos outros, nós. É esta diluição da separação clássica com o outro que alimenta os reality shows ou as revistas cor-de-rosa (outra encarnação do voyeurismo) ou ainda as novelas, onde as pessoas pretensamente se vêem reflectidas nos personagens. Por ser a cultura do outro, é a cultura do ver – de olhos fechados só nos podemos conhecer a nós, se algum dia nos conseguimos conhecer o suficiente. Deste culto da visão, vem a fé de Tomé dos dias de hoje, a incapacidade de abstracção (e consequente decadência da Filosofia) ou ainda a perda dos hábitos de leitura, substituídos pela televisão, que remete para o futuro imaginado por Bradbury.

Simultaneamente, atravessamos uma fase aguda de egotismo, em que a preocupação máxima de cada são os seus próprios problemas. Os dois fenómenos não estão de modo algum desconectados, sendo apenas um o produto racional do outro. Obsessivamente centradas no seu umbigo, as pessoas necessitam mais intensamente do que nunca dum divertimento, duma alienação – que acham nos outros – para esquecerem as suas preocupações. Como que retornámos aos velhos tempos romanos, em que a felicidade do povo era feita do seu pão e circo. Mas, como também então afirmava – já com Roma em decadência – Salviano, «Roma moritur et ridet.» - Roma morre, e ri. ■ o corvo

17 June 2005

Presépio Futurista

Tive um sonho de Natal, uma alucinação. E se de são e de louco todos temos um pouco, então a vossa parte louca deverá achar curioso este desvairo de minha mente.

Vi nessa demência minha um presépio de proporções gigantescas. Curvado perante ele, mais por dever da inconsciência que por escolha livre do arbítrio, foi com maior admiração que observei as estranhas figuras que o faziam, todas elas de tamanho desproporcionado. Tudo parecia uma realidade elevada ao quadrado. O gosto pelo espectacular e monumental é velho no homem, para o bem ou para o mal.

Uma senhora explicava à criança que levava pela mão a origem daquele bizarro presépio. Tinha mergulhado no futuro: estava a conhecer o último quartel do século em que redijo agora esta crónica. A mãe do pequeno dizia-lhe que o presépio que ele agora tomava com os olhos fora, no tempo dos seus avós, fortemente diferente. Ao que consegui captar, fora mudado pelos países europeus. Tudo começara neste ano que agora se fecha sobre nós e se contorce já em dores que não se percebem se são de morte e agonia, ou do parto iminente dum ano novo que se abeira.

Em Inglaterra, nesse ano que é o nosso, haviam montado um presépio cuja Sagrada Família era um jogador de futebol e sua mulher, ambos então famosos, que toda a fama é efémera. Segundo a progenitora, tal presépio adulterado acabou por ser barbaramente vandalizado. Que se violasse a imagem de Jesus e Maria, isso, era secundário, uma mesquinhice e implicação dum grupo de malucos e que em nada escandalizava ninguém. Agora que o Mr. Beckham fosse maltratado, ainda que só em estátua, isso era sacrilégio!– gritava o povo.

Na América, também nesse ano, num liceu, tinham-se proibido as canções natalícias que referissem alguma personagem cristã, pois isso era violar a laicidade das escolas públicas. E assim os meninos haviam-se contentado a cantar músicas sobre bonecos de neve, trenós e Pai Natal. Sim, que se Deus tem de ser banido, o capitalismo americano, esse, tem de ser exaltado sempre, na imagem perpétua do Pai Natal, vermelho apenas por causa da Cocacola. Adorá-la e cantá-la é legal; Jesus, esse é um fora-da-lei, já diziam os poderosos no Seu tempo.

Parece que, a uma certa altura, tais países resolveram que era preciso refazer o presépio à imagem dos tempos modernos e sem referências religiosas. No papel de S. José, o Pai Natal. O que mais nele estranhei era o não-ser das suas barbas: haviam desaparecido! Também isso o zunzum ininterrupto da turba clarificou: queria-se era a juventude, o culto desse físico ideal!

Nossa Senhora havia sido substituída por essa personagem, caricatura criatura da Sonae, a Leopoldina. Se Maria quer dizer ‘Senhora dos Mares’, a Leopoldina é a Senhora do Oceano! Quanto ao Menino Jesus, em nada se assemelhava ao Nosso: era uma criança gorda, anafada, com um pacote de batatas fritas gordurosas na mão inchada de gordura. A sua excessiva obesidade devia-se à exacerbada quantidade de horas que passava em frente às televisões, uma de cada lado, aquecendo o menino em vez do tradicional burro e boi.

Também a figura do pastor se vira radicalmente adulterada: aos ombros trazia cordeiros manipulados geneticamente de pele cor-de-rosa fluorescente, e pela mão conduzia uma horda de ovelhas bem maduras engordadas com os incógnitos venenos para a produção em massa dos ovinos. Tudo é produção em massa: pessoas, cidadãos em massa, de cérebros já moldados, prontos a sucumbir sem resistência às tentações do materialismo consumista.

Pouca coisa de facto sobrara do presépio nosso conhecido. Só mesmo os três reis magos haviam sido poupados. O primeiro transportando o ouro precioso –incentivo ao desenfreado luxo; o segundo, carregado com o incenso, que, assim ouvi, adquirira numa coffee shop: era sempre bom mostrar publicamente apoio às drogas leves.

Como alguém tão pomposamente gritou para cerrar a cena de minha tonta alucinação dentre o magote informe que corria as ruas: ‘Eis, irmãos, o Natal – 5€ levam um e outro igual!’. ■ o corvo

Publicado a 22 de Dezembro de 2004 - Considerada por muitos a melhor crónica