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22 December 2006

Cons-pirados


Fui comprar o jornal. Ao chegar à tabacaria, um homem discutia avidamente com o vendedor, mas a matéria não era o regatear de um preço. Dizia o comprador que o 9/11 não era mais que uma conspiração bem organizada pelo governo americano, já que um edifício daquela altura, comprovavam-no as afirmações de engenheiros, não podia ruir com o simples embate de um avião, como o demonstravam documentários agora finalmente revelados. Outro senhor ao lado ratificava a postura de desconfiança, expondo as semelhanças óbvias entre uma implosão propositada e a queda das torres. E o vendedor, coitado, não assentia nem negava, porque o cliente tem sempre razão, até quando a não tem.

Este episódio é sintomático de tantas conversas que tenho escutado entre amigos desde que a RTP transmitiu o documentário Loose Change (cuja tradução portuguesa do título, lamentavelmente, desconheço), que emitiu mais três vezes, mostra da sua popularidade. Quando o vi na 2:, alertado por um amigo, acabei por abandonar o filme, cansado de tanta teoria tola. Não o levei a sério, mas mais como um exercício de humor negro pelo canal público. Quando, contudo, membros da comunidade muçulmana – que de modo algum considero representativos da opinião da mesma, no Prós & Contras que opôs Soares e Pacheco Pereira, baseados em Loose Change apresentaram as suas dúvidas tímidas quanto à veracidade do 9/11, entendi, enfim, o alcance daquele pequeno filme. Amigos meus começaram também a pôr em questão a versão oficial, alguns rendendo-se mesmo em absoluto ao documentário e suas «provas».

Se Pacheco Pereira condena a RTP por ter posto no ar tal peça, eu não a censuro, pois, inserida numa série de documentários sobre o mesmo assunto, representou, para aqueles com distanciamento crítico, um lado, ridículo, mas existente, do 11 de Setembro. Porém, vendo a confusão que originou, tenho de confessar que entendo Pacheco Pereira. Esta teoria é semelhante às que negam que o homem alguma vez esteve na lua: ambas inconsistentes. Satirizando, eu e o amigo que me avisara do documentário juntámo-nos para filmar uma tese que já anteriormente apresentei neste espaço, a de que Antero de Quental é o verdadeiro responsável pelos atentados – julgo, sinceramente, que a nossa produção é tão credível como aquela que a 2: revelou e enviaremos esperançosamente o nosso filme para a emissora pública.

Brincadeiras de parte, é preocupante a facilidade com que as pessoas caíram na armadilha, pelo que urge desmontá-la. Se nenhum avião embateu contra o Pentágono e se o voo 93 nunca caiu na Pensilvânia, então, quem choram os familiares das vítimas? E onde estão aqueles que, assim sendo, não morreram? O documentário afirma que os terroristas não estão mortos, mas não explica o paradeiro dos tripulantes, supostamente, por necessidade lógica, também vivos. Mais, como pode a queda das torres ser devida a uma implosão premeditada vinda da cave dos edifícios (como pretende o documentário) se a queda destas sucede não a partir da base, mas a partir do topo, como é facilmente observável? Para além disso, se o 9/11 não é mais que uma conspiração americana, foram então também os americanos os responsáveis pelo 11 de Março espanhol e pelo 7 de Julho inglês? Isto para partilhar apenas as indagações mais pertinentes.

Uma coisa é afirmar que o 9/11 serviu como pretexto à invasão do Iraque – como o faz o Fahrenheit 9/11 de Moore – outra, que os atentados foram provocados para servirem de desculpa a essa mesma invasão. Eu, que discordo na generalidade da política levada a cabo por Bush e que continuo a declarar que a guerra do Iraque foi um erro, não deixo que as minhas opiniões me conduzam a uma deturpação do real desse nível. Só se estivesse (cons)pirado...

21 July 2005

Realidade e Ficção

O terror repetiu-se há quase uma semana atrás, com os (in)esperados atentados em Londres, mais uma vez com o cunho do islamismo radical. Apesar da contagem dos cadáveres continuar é, por certo, a acção menos mortífera da Al-Quaeda em capitais ocidentais. Tal facto não reduz a sua barbaridade. Foi cuidadosamente escolhida para desviar as atenções da imprensa da cimeira dos G8 – a primeira desde há alguns anos em que o terrorismo não ia dominar a agenda, ocupando-se com questões mais humanitárias e prementes.

Importante para a compreensão do fenómeno foi o rapto e morte, na semana passada, do embaixador egípcio no Iraque. Mais do que questões religiosas, são divergências culturais que animam este combate entre fanáticos e Ocidente. Este assassinato é uma tentativa de deter os outros países árabes que estão a reconhecer o governo democrático iraquiano. Pode ver-se falhas nesse regime, mas, como dizia Churchill «A democracia é a pior forma de governo com excepção de todas as outras que já foram experimentadas.»

No dia seguinte, já os londrinos regressavam às suas rotinas normais, como uma sondagem de Domingo dum canal televisivo britânico confirmava. Contudo, por muito imune que se declare, uma cidade atingida sofre. Os recentes atentados ressentem-se. Tal fenómeno é particularmente visível na América, depois do 11 de Setembro, por exemplo, no cinema. Este sábado foi anunciada a primeira longa-metragem, pela mão de Oliver Stone, sobre o atentado a Nova Iorque.

Veja-se “A Guerra dos Mundos”, que se estreou esta semana em Portugal. Spielberg já o admitiu: este é um filme pós-11 de Setembro, onde mais do que no cataclismo, a câmara se centra na devastação e no sentimento de desorientação dos personagens. Não se podem deixar de estabelecer outros paralelos: os terroristas estão sediados há muito nos países em que perpetuam os atentados, tal como os extraterrestres do filme, cujo lema de campanha é «Eles já estão aqui».

O primeiro filme de Shyamalan após o 9/11, o magnífico “A Vila”, aborda igualmente a ameaça invisível – as criaturas imaginárias que viviam no bosque em torno à aldeia – numa genial parábola sobre a cultura do medo que se vive actualmente em terras americanas. Regressando aos filmes em cartaz, é de notar o clímax de “Batman Begins”: o Homem-morcego tem de deter um comboio suspenso que colidirá com a torre Wayne. Estranhamente familiar, se tomarmos o comboio aéreo como a metáfora dum avião e alterarmos o nome da torre em questão.

É interessante constatar que as adaptações de bandas-desenhadas para o grande ecrã aumentaram exponencialmente após o 9/11. Apesar de outros motivos ligados mais à indústria cinematográfica, a meu ver, tal deve-se igualmente à necessidade de a América procurar um herói e de as pessoas se sentirem seguras porque alguém as protege.

Mas a ficção e a realidade vão mais longe a 4 de Novembro, com a estreia mundial de “V for Vendetta” (também adaptado da BD), que retrata as explosões levadas a cabo por um rebelde que por meio delas pretende opor-se ao governo fascista que domina a Inglaterra totalitarista num futuro imaginário em que os alemães venceram a Segunda Guerra Mundial. Há quem sussurre que o filme deveria ser adiado devido aos recentes acontecimentos, mas nada poderá adiar as questões inquietantes que ele promete levantar sobre a fronteira e a relação entre conceitos como liberdade, segurança, governo, revolução e terrorismo. ■ o corvo