10 July 2007

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos - Parte II

Continuamos a listagem não exaustiva já iniciada na crónica anterior das figuras mais proeminentes que, de alguma forma, ameaçam a sociedade aberta e livre como a conhecemos.

3) António Fernando Correia de Campos, Ministro da Saúde. O afastamento da ex-directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, Maria Cardoso, é mais uma manifestação da acentuada sensibilidade do actual executivo. De acordo com o despacho da exoneração, Maria Cardoso foi demitida “por não ter tomado medidas relativas à afixação [...] de um cartaz que utilizava declarações do Ministro da Saúde em termos jocosos, procurando atingi-lo”. Não se acrescenta, contudo, que, por sua vez, essas “declarações do Ministro da Saúde” ofendiam os profissionais daquele serviço. O cartaz em questão reproduzia uma entrevista concedida por Correia de Campos ao Jornal de Notícias, a 6 de Agosto de 2006, onde este declarava: “Nunca vou ao SAP, nem nunca irei! [...] Porque não têm condições de qualidade. Têm um médico e um enfermeiro e conferem uma falsa sensação de segurança.”. As bases devem respeitar as chefias; estas, porém, podem livremente desdenhar do trabalho dos seus dependentes.

A lealdade – conceito importante em que os adversários da sociedade aberta baseiam as suas invectivas – funciona num só sentido. Não se espante, considerando os traços que vimos serem próprios dos inimigos da liberdade, que Maria Cardoso tenha sido acusada pelo ministro precisamente de “deslealdade”, por não ter prontamente mandado retirar a entrevista. Por outro lado, num exercício de obstinada lealdade, um membro da Juventude Socialista denunciou o caso aos seus superiores, que, depois, fizeram chegar a notícia às cúpulas. É caso para relembrar as palavras avisadas de Jorge Coelho: “Quem se mete com o PS, leva!”.

Outro pormenor que merece destaque é o facto de Maria Celeste ter sido pressionada para abrir um processo disciplinar contra o médico que afixara a entrevista e a rematara com um curto comentário irónico. Porém, ao contrário de Margarida Moreira, da DREN, criticada na crónica anterior, Maria Cardoso, numa atitude louvável, recusou-se a fazê-lo, sendo consequentemente demitida. Se seria ainda possível, por parte dalguns, defender que, efectivamente, não era muito correcto uma entrevista assim estar exposta num centro de saúde, é já, contudo, difícil – a partir do momento em que se percebe que a razão da demissão foi a recusa de Maria Cardoso em instaurar um processo contra o médico – não suspeitar que estamos perante um exercício de violência política.



Em defesa do ministro, a Secretária de Estado da Saúde, Carmen Pignatelli – que aqui inscrevemos no rol dos inimigos da sociedade aberta – considerou que a liberdade de expressão deve ser exercida nos “locais apropriados”, a saber, “nas nossas casas, na esquina do café (?), e com os nossos amigos”. Note-se a incorrecção das palavras, porquanto o professor Charrua foi precisamente denunciado por um “amigo”. Muito segura das suas afirmações, sem pudor, exclama: “não tenhamos vergonha de dizer isto”. Não tenhamos nós, de facto, vergonha de dizer isto: a liberdade está a ser, já nem muito veladamente, ameaçada, por comportamentos dos seus opositores como os acima descritos. Ao caso Vieira do Minho, como este já foi apelidado, vem-se juntar o de Fernando Portal, alegadamente afastado, ao fim de dezassete anos, da presidência do hospital de S. João da Madeira por críticas à política de encerramento das urgências do ministério, caso que remonta já a Maio. Pouco a pouco, vai-se revelando a verdadeira natureza deste ministério que de saudável, sinceramente, tem pouco.
■ o corvo

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos - Parte I

O título da nossa crónica remete para o conhecido livro homónimo de Karl Popper, escrito durante a II Guerra Mundial, onde o filósofo procede a uma crítica implacável daqueles que considera serem os ideólogos do totalitarismo e opositores das democracias liberais. Inspirados pelo exemplo, e porque a nossa sociedade livre, filha do 25 de Abril, está hoje sob ataque cerrado, procedemos no seguinte texto a uma identificação dos seus principais inimigos.

1) Margarida Moreira, Directora Regional de Educação do Norte. Nela, traço recorrente dos adversários da sociedade aberta, o ódio à liberdade surge associado à megalomania: José Manuel Fernandes, director do Público, com doce ironia, afirma que a de Margarida Moreira é «proporcional ao seu volume». Assim, a Directora da DREN, como protectora dos oprimidos, na sua importante entrevista ao DN de dia 14, reconhece que quebra o silêncio apenas porque sente ser sua “obrigação” defender a instituição que coordena e os que nela trabalham. O discurso de Margarida Moreira é ainda, como seria expectável, pautado por súbitas, mas coerentes, manifestações de apoio a práticas autoritárias. «Defendo uma liderança forte», confessa. A entrevista tem este duplo mérito de, por um lado, permitir a análise do perfil psicológico do inimigo típico da sociedade aberta, por outro, de fornecer dados relevantes para uma análise mais profunda do “caso Charrua”. Margarida Moreira afirma ter sido avisada do insulto de Charrua, primeiro, por SMS, depois, por meio de uma participação escrita. Quanto mais dados emergem sobre este acto bufão, tanto mais detestável ele se torna a qualquer espírito livre – apenas aos inimigos da sociedade aberta ele não repugna; não transparece, de facto, uma única nota de condenação nas palavras de Margarida Moreira. Pelo contrário, a própria parece sugerir que quem, por exemplo, num contexto desportivo, insulta os árbitros, deve também ele ser punido. Os resultados do processo disciplinar movido contra Fernando Charrua foram entretanto revelados. Este é acusado de «grave desinteresse pelo cumprimento dos deveres gerais de lealdade e correcção». No tempo de Salazar, era também preciso ser-se leal: declarava-se mesmo, por segurança, «activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas». Sobre este caso, ainda, acrescente-se que é particularmente sintomático que o mesmo insulto (“filho da p...”), quando dirigido ao primeiro-ministro, num ambiente privado, resulte num processo disciplinar; quando dirigido aos jornalistas, frente às televisões, por Alberto João Jardim, seja saudado com a permissividade do costume.

2) Maria de Lurdes Reis Rodrigues, Ministra da Educação. Esta mostrou a sua clara conivência com a actuação de Margarida Moreira ao reconduzi-la no cargo, em despacho também assinado pelo primeiro-ministro, a 5 de Junho. Ao fazê-lo, incorre em todos os crimes de que a outra é acusada no tribunal da liberdade. A Ministra, enquanto superiora política, terá ainda de se justificar pelo estranho afastamento da Associação de Professores de Matemática (APM) da comissão de acompanhamento do Plano da Matemática. Aparentemente, sob pressão repetida de um seu subordinado, Luís Capucha, a APM viu-se forçada a abandonar a já referida comissão em consequência das críticas que teceu publicamente ao funcionamento desta. Note-se que tropeçamos, de novo, no dever de “lealdade” – já invocado no processo de Charrua – que parece proibir críticas aos órgãos para os quais se trabalha ou com os quais se colabora, sob pena de afastamento dos mesmos. É próprio dos inimigos da sociedade aberta, por um lado, refugiarem-se no silêncio, fugindo às críticas, por outro, incentivarem-no, porquanto assim nem críticas há. Assiste-se à apologia do silêncio quando o exercício da liberdade se faz pelo uso da palavra. A prepotência, que isolámos já enquanto traço distintivo do adversário da liberdade, reencontramo-la na Ministra que, muito recentemente, ao ser confrontada com o acórdão do Tribunal Constitucional que declarou inconstitucional a repetição dos exames no ano passado, afirmou que voltaria a tomar a mesma medida. Em suma, inimiga da liberdade – e da razão.
■ o corvo

Os "G " Feitos Num 8

A cimeira dos G8, em Heiligendamm, na Alemanha, concluiu-se, enfim. Se alguma atenção os media lhe concederam, isso fica-se a dever não tanto ao trabalho dos políticos ali congregados, mas às manifestações violentas de alguns protestantes anti-globalização. Curioso é que, pesadas as verdades, no fim destes encontros, que, pouco a pouco, se foram infiltrando no quotidiano anual do mundo ocidental, ambas as partes ganharam o mesmo, que foi terem perdido. De facto, os líderes que, ritualmente, se reúnem, já provaram ter tanto sucesso nas suas aspirações quanto os manifestantes estão perto de travar a globalização e destruir o capitalismo.

O conclave dos ricos anunciou sexta-feira ao mundo que contribuiria com sessenta mil milhões de dólares para a luta contra a sida, a tuberculose e a malária em África. A declaração, porém, omitiu, convenientemente, o pormenor de que metade desse dinheiro virá dos EUA, que já antes tinham prometido essa ajuda. O texto não remete também para nenhuma data em concreto. Um prazo, contudo, tinha sido estabelecido na cimeira dos G8, há dois anos (por altura do celebrado Live Eight). Então, os governos haviam prometido duplicar a ajuda ao desenvolvimento africano até ao final da década. A verdade cruel, todavia, é que, ao invés, essa ajuda tem vindo a decrescer depois de 2005. Que necessidade há pois que se juntem agora para renovar a mentira das edições anteriores? De boas intenções, arde o Inferno.

Os oito companheiros manifestaram ainda – dizem os jornais – a sua preocupação com a situação ignóbil do Darfur, apelando a que os autores das “atrocidades” sejam julgados. O frenesim eufemístico da política moderna! No Darfur está em curso um genocídio: e por esse nome a Morte deve ser convocada. Os líderes das grandes potências, mais uma vez jogando com a ambiguidade da indefinição, prometeram ainda novas medidas contra o Irão, caso este não suspenda o seu programa nuclear. A avaliar pelo cumprimento de outras promessas do grupo, Ahmadinejad, o polémico presidente do Irão, poderá continuar calmamente a brincar à destruição de Israel, à qual já este mês se referiu novamente. O tom irónico destas palavras não deverá ocultar a gravidade da situação. Os G8 abordaram, de facto, questões essenciais: simplesmente, recuperando a sentença dos velhos Gatos, “falam, falam mas não fazem nada!”.

Claro que, naturalmente, não é fácil atingir um consenso quando um dos elementos de peso dos G8, a Rússia, por um lado, de acordo com a Amnistia Internacional, tem fornecido armas ao Darfur, por outro, sistematicamente, veta sanções que o Conselho de Segurança da ONU tem tentado impor ao Irão. A Rússia é, cada vez mais, uma peça central no xadrez do mundo: ainda há uma semana, ameaçou apontar mísseis a alvos europeus. O Kremlin parece, no entanto, ser assaz querido ao nosso primeiro-ministro, o qual foi recentemente à Rússia. O aspecto mais mediático desta deslocação toda foi, certamente, o jogging de Sócrates. O fait-divers não nos deve distrair, contudo, das suas afirmações, que não auguram nada de bom. “Ninguém queira começar a dar lições seja a quem for”, disse. Se há algo a que sou sensível, e me repugna com especial fervor, é a hipocrisia. Dói-me que Sócrates faça tábua rasa dos atropelos constantes do regime de Putin aos direitos humanos. Justificadamente, a delegação russa da Human Rights Watch exprimiu já a sua indignação com as afirmações do Primeiro. São as opções éticas do nosso bem-amado governo. Porém, igual indignação me causou a posição do Partido Comunista relativamente à censura de que foi alvo a RCTV, canal venezuelano, oposto ao regime, a que o presidente Hugo Chávez não renovou a licença de emissão. O PCP, no seu site, defende nitidamente a medida – coisa triste, muito triste.

O mundo enferma e, entre os sorrisos das fotografias, ninguém tem a coragem da chapada necessária. ■ o corvo

Anedota Triste

Há, entre a democracia e a ditadura, um amplo espectro político que aceita desvios a alguns traços-base de cada um desses dois regimes sem que, por isso, um se transforme no outro. Assim, a efémera primavera marcelista, não obstante certas liberdades arriscadas, era, ainda, um autoritarismo. Do mesmo modo, o regime de Putin, na Rússia, permanecendo uma democracia, contempla, porém, com vertigens (que induzem a queda), o precipício da ditadura. Ora, se Moscovo está já no final desse nebuloso espectro que separa os dois regimes, Portugal, longe ainda, inicia-se nessa travessia obscura, timidamente – ou não.

Muitos indícios têm vindo a acumular-se que confirmam esta suspeita, porém, nenhum tão vergonhosamente explícito como a recente suspensão de um funcionário da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte): Fernando Charrua, professor de inglês (sinto-me tentado a um “comentário jocoso” envolvendo o termo “inglês” e uma alusão sub-reptícia à licenciatura do primeiro-ministro: o exemplo alheio cala-me as palavras), ex-deputado do PSD. Este, em conversa privada com um colega, terá feito um piada sobre o curso de Sócrates. Um outro funcionário, contudo, tendo ouvido a observação satírica, relatou a anedota à directora do serviço, Margarida Moreira. Esta tomou as medidas “adequadas”. No dia seguinte, chegado ao emprego, o professor tinha o computador bloqueado, o e-mail fora lido e ele estava suspenso.

Há um pormenor, em todo este caso, que me choca quase tanto quanto a suspensão em si de que foi vítima o professor, a saber, o facto de o e-mail de Charrua ter sido devassado. Isto é próprio de regimes totalitários. Quando se atinge estes extremos, é porque eles já não existem – tudo é válido. Declaro aqui, solenemente, que já não confio no Estado. O seu longo nariz (de pinóquio, de tanto mentir) intromete-se em todo o lado. Bem-vindos à “claustrofobia democrática” que Paulo Rangel denunciava no 25 de Abril.

Margarida Moreira justificou a suspensão por “poder haver perturbação do funcionamento do serviço”. Gostava, sinceramente, de perceber esta última afirmação, pois não consigo (e já puxei muito pela cabeça, ao ponto de a ter arrancado) entender como pode uma piada rápida perturbar a DREN. Ai, que maquilhagens da verdade inventam! E, clarifique-se, é aqui irrelevante para o caso se se tratou mesmo de um “comentário jocoso” ou de um insulto: se alguém, de resto, tinha de apresentar queixa, era o visado, o próprio primeiro-ministro.

Este, para “serenizar” os portugueses, veio dizer – cinco dias depois! – que ninguém será sancionado pelo exercício da liberdade de expressão. Comentava Constança Cunha e Sá no Público que um primeiro-ministro ter de vir dizer isto transparece muito do actual clima. A ministra da educação, que recusa ir ao Parlamento, e o seu ministério têm procurado fugir à polémica. Maria Lurdes Rodrigues confessa não ter “nenhum sinal ou motivo para duvidar do [...] correcto funcionamento [...] da DREN e dos seus serviços”. Porém, o ministério está também envolto no escândalo. A 26 de Abril, o secretário-geral da educação assinou o despacho de suspensão de Fernando Charrua. Ao contrário da ministra, eu tenho razões para duvidar não só do funcionamento da DREN, mas da 5 de Outubro.

O outro Sócrates, o verdadeiro, morreu por falta de liberdade de expressão; o regime do novo, asfixia-a: a sua popularidade continua, porém, em alta. Ficaremos calados a assistir? É nosso dever reflectir no que, democraticamente, está ao nosso alcance fazer. A Declaração da Independência dos EUA diz que as pessoas estão dispostas a aceitar os erros de um governo enquanto estes forem suportáveis, mas que, atingido um certo ponto, revoltam-se. Questiono-me se faltará muito, por este caminho, para aí chegarmos... ■ o corvo

13 May 2007

Rádio Macau



Confesso, sinceramente, que não tenho um tema para esta crónica. Sentei-me na cadeira, li os jornais da semana de lés a lés e só confirmei a velha sentença do Eclesiastes 1.9: “nada há, pois, novo debaixo do sol”. Algum leitor pode ficar espantado com a arrojada afirmação. Houve nada menos que três eleições (Madeira, França, Timor), outras foram prometidas (Lisboa) e uma criança desapareceu (Algarve). Porém, a vitória de Ramos-Horta era adivinhável, a de Sarkozy expectável e a de Jardim inevitável. Rói-me um medo por dentro sussurando-me maledicente as palavras d'O Leopardo de Lampedusa: “é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma”.

Carmona, filho mal-comportado, foi “expulso” do poder. Porém, no fundo, que novidade há numa câmara de Lisboa em crise e num autarca arguido – as duas coisas em risco de se tornarem um pleonasmo? Ainda recentemente, a PJ foi a Gondomar de Valentim Loureiro e Fátima Felgueiras foi acusada de eliminar elementos de acusação. E, claro, Jardim ganhou. Mas todos estes factos não significam nada, obviamente!

Por fim, o desaparecimento de Maddie tem ocupado gordamente os horários nobres dos telejornais: nem isto, contudo, é, infelizmente, novidade – Alice continua demasiado marcado no nosso espírito para que possamos esquecer isso. Porém, como o filme de Marco Martins desencantadamente revela, o interesse dos media é passageiro e superficial e, acima de tudo, desonesto, porquanto, mais do que com o drama pessoal, está procupado com as audiências baratas. A excessiva cobertura mediática do caso tem sido alvo de críticas, com muitos a sugerirem que tem sido empolado devido à origem estrangeira da vítima que tem levado a uma mobilização policial para, literalmente, inglês ver – e, mesmo assim, como o revelam os tablóides britânicos, o inglês não está contente.

A leste (e a oeste), nada de novo, portanto. Encontrei, na minha pesquisa, reconheço, meia dúzia de notícias engraçadas, insuficientes para fazer uma crónica. O primeiro prémio da bizarria é arrecadado definitivamente pelo Hamas que, durante um mês, terá mantido um programa infantil semanal de apologia à resistência armada, cujo apresentador se vestia como o Rato Mickey. Recomendo uma busca rápida no YouTube para ver excertos das aterradoras emissões. O problema dos fundamentalismos atingiu uma tal dimensão que, veja-se!, o Grande Oriente Lusitano organizou um encontro em Lisboa para debater a questão, isto numa altura em que o Serviço de Informações e Segurança confirmou que terroristas, inclusive da Al-Qaeda, têm usado Portugal como país de passagem, fraude e falsificação de documentos.

Por cá, o troféu da bizarria vai para a Segurança Social, que exigiu a uma mulher, dada como morta pelo sistema há sete anos, que provasse estar viva, por meio de certidão. O absurdo é, todavia, mitigado por um mea culpa já assumido. Ao mesmo gesto de retractação não se prestou o Tribunal da Relação de Coimbra, cujo acordão sobre o caso do sargento Luís Gomes é chocante, referindo-se ao militar como “actor-encenador privilegiado do teatro da vida da criança-vítima”, acusando-o de ter forjado um “mundo de encantamento”, uma “ficção de realidade familiar”, induzindo na menor “laços de amor”, “criando-lhe uma personalidade para o futuro, como se de animal de estimação se tratasse”: tudo pelo “interesse pessoal e egoísta de ter um filho”. Não se trata de emitir aqui qualquer juízo sobre o caso – o qual, de resto, nem tenho acompanhado muito de perto – mas sim de constatar o teor do texto.

Mas que a Justiça está mal também não é, enfim, novidade. O mundo está monótono. Abriu esta semana, em Lisboa, uma delegação de Dennis Hope, que clama ser dono da lua e vende terrenos no nosso satélite. Quiçá, por lá, a realidade será mais interessante. Por enquanto, preso à terra, vou ouvindo os velhos Rádio Macau , cantando, com eles, o célebre verso do refrão: “Já não há nada de novo, aqui, debaixo do sol”... ■ o corvo

29 April 2007

Novos Oportunismos


Há, em Fight Club, essa icónica antologia satírica do mal de vivre finissecular, uma cena em que o protagonista, Tyler Durden, com uma pistola apontada à cabeça de um pequeno lojista, depois de este ter confessado que abandonara, por falta de empenho nos estudos, o seu curso de Biologia (a sua ambição era ser veterinário), ameaça o homem de morte caso, nos próximo dias, ele não reentrasse na Universidade e prosseguisse aquele seu emprego menor, em detrimento do seu sonho, que deixara por preguiça. Idílico, Tlyer termina: “Raymond K. Hessel, amanhã será o dia mais belo da tua vida. O teu pequeno-almoço vai saber melhor do que qualquer refeição que alguma vez tomaste”.

Evoco a cena à laia de prelúdio de uma breve reflexão sobre a mais recente campanha do Governo, Novas Oportunidades. Nela – como alguns, por certo, terão já observado, ainda que, tanto quanto me foi dado ver (mas eu também sou distraído), nenhum cartaz tenha sido afixado na nossa cidade – personagens célebres aparecem em profissões vulgarmente consideradas menores, tentando-se apresentar isso como consequência da não prossecução dos seus estudos. Assim, naquele que é talvez o cartaz mais divulgado, Judite de Sousa aparece numa banca de jornais com a legenda “Esta é a Judite Sousa que não acabou os estudos”.

Os anúncios rapidamente causaram celeuma. Manuel Alegre, indignado, chamou a atenção para a forma como ostensivamente se desvalorizavam certas profissões, representando os que as desempenham como perdedores. Se o objectivo da campanha – a luta contra o abandono escolar – é, certamente, louvável, o mesmo não se passa com o método escolhido. Como comentou José Diogo «Gato» Quintela, na sua crónica dominical no P2, esta campanha é a modos que «abrutalhada». No fundo, Tyler Durden no Fight Club e o Governo parecem padecer dos mesmos vícios de comunicação, mau grado as suas boas intenções. Não é isso que, porém, mais me choca, embora também partilhe das reticências expressas pelo deputado-poeta.

Aquilo que me irrita no cartaz é a associação simples entre estudos e sucesso. Primeiro, porque, como todos nós sabemos pelos mais variados exemplos do quotidiano, muitos são os que, sem acabar o curso, triunfam nas suas áreas e tantos outros os que, tendo o «canudo», estão longe da excelência dos primeiros. Segundo, porque aqueles que hoje cursam sabem não ter – quantas vezes! – lugar no mercado à sua espera. Magoa-me particularmente o anúncio com Pedro Abrunhosa, em que este aparece como mero arrumador de uma sala de espectáculos – é que, há cerca de um ano, a revista económica Dia D dedicou uma reportagem aos jovens licenciados que, para susbsistirem, aceitavam empregos fora da sua área e uma das entrevistadas, precisamente, ganhava a vida a indicar os lugares num qualquer teatro.

É esta mentira suprema que me revolta. A ordem natural das coisas parece mesmo funcionar ao contrário: se os que completam os estudos trabalham atrás de balcões e em cinemas, os que não os completam, ascendem, se necessário, até às cúpulas. Estas mentiras e incoerência do Governo, porém, são mais amplas. Veja-se: o partido que, por meio do Ministério da Justiça, num guia lançado depois do 25 de Abril, incentiva os funcionários a denunciaram casos de corrupção, é o mesmo que, poucos dias antes, recusou, na Assembleia, pela terceira vez, a criação do crime de enriquecimento ilícito. Isto tem, na terra em que eu cresci, o nome de hipocrisia. Como hipócrita é o discurso de austeridade do Governo: não porque, per se, seja errado, mas porque é inconsistente, como bem demonstrou o Tribunal de Contas, que voltou a criticar as nomeações excessivas do Executivo. São os “jobs for the boys”!

Novas oportunidades? Novos oportunismos! ■ o corvo

24 April 2007

Nacionalismos

Madrugadores pontuais da cidade despertante notavam, frente à Câmara, o autocarro. Pormenor intrigante do invulgar cenário, algumas dezenas de jovens deambulavam em torno do transporte verde. Pouco depois das oito, embarcavam ordeiros e a camioneta arrancava. Assim começava para eles o Dia da Defesa Nacional. Para aqueles porventura mais estranhos ao assunto, diga-se que esta jornada veio substituir a antiga recruta e a sua obrigatoriedade estender-se-á para o ano às raparigas. Mancebo enfim maior de idade, acompanhei esta leva.

Não é minha pretensão proceder aqui a uma descrição exaustiva do dito cujo dia, sobre o qual, entre os jovens, correm as mais variadas anedotas reais. Infelizmente, a minha visita ao Aeródromo de Maceda (Ovar) não foi tão profícua em casos e ditos caricatos. Relembro, contudo, a explicação dada por uma militar para a proibição do consumo de bebidas alcoólicas na messe: «antecedentes negativos» – gosto de imaginar o que o eufemismo pode encobrir. A mesma precaução suponho que tenha presidido ao aviso do militar que, antes do hastear da bandeira, nos pediu que, solenemente, não nos ríssemos. O público, esse, só manifestou sincero interesse, no seu nacionalismo de mercenário, na sessão da tarde, dedicada às questões fundamente práticas, leia-se, aos agradáveis salários e confortáveis vantagens de uma carreira de armas. De resto, desinteressadamente suportámos o Dia nublado.

Pouco tempo volvido sobre esta experiência, na longe Lisboa, como que em resposta a esse nacionalismo tépido, o PNR col(oc)ou um cartaz no Marquês, destinado à polémica. Lembro-me de, no Secundário, agarrar um pequeno papel que afincadamente dois jovens distribuíam à saída. Só depois de atravessar a passadeira olhei para o impresso, com uma reprodução da estátua de D. Afonso Henriques e palavras de ordem semelhantes às do cartaz do PNR. Voltei-me veloz para trás, porém não vi já o que desejava descobrir. Atrás de mim, tinha vinha uma rapariga de cor: quanto não gostava de saber se também lhe distribuíram o flyer!

Se narro este pequeno episódio, é apenas para reforçar a ideia de que, longe de ser um fenómeno novo, este nacionalismo anacrónico e desproporcionado tem-se vindo a instalar entre nós lentamente e – aqui reside o busílis do problema – entre grupos jovens. Disso é sintomática a criação, em 2005, da Juventude Nacionalista (JN). O mal, porém, é geral. Há coisa de dois meses, por exemplo, recebi um mail alertando para supostos raptos de crianças por chineses nas suas lojas. Isto é tão xenófobo como o outdoor de José Pinto Coelho e dos seus. Porém, muitos persistem em repassar estas mensagens mentirosas.

Animado pela recente vitória de Salazar n' Os Grandes Portugueses e com a polémica em torno do Museu em Santa Comba Dão, o nacionalismo radical vai ganhando espaço público. Mesmo na Covilhã, onde fui passar a Páscoa, encontrei num mural alusivo ao 25 de Abril a seguinte inscrição, que vim mais tarde a saber, por meio de uma reportagem do Público, ser da autoria da JN: “hipocrisia censurar opiniões”. A frase podia estar gravada no segundo cartaz do PNR na rotunda do Marquês, que recorre a igual defesa. Sinceramente, concordo que mesmo partidos com opiniões desta natureza não devem ser proibidos de expressar os seus pontos de vista, pelo que o vandalismo de que foi alvo o primeiro cartaz me parece não só incorrecto mas também uma resposta medíocre quando comparada com a intervenção do Gato Fedorento. Contudo, o caso não é cómico, antes se reveste de andrajos trágicos, transversal a países cujo futuro inquieta: na Rússia, enquanto Kasparov era preso, uma manifestação de extrema-direita decorria sem entraves. No xadrez estranho do mundo, quem adivinhará a próxima jogada?

■ o corvo

04 April 2007

Quando Marilyn Encontrou Albert


Estava entre amigos, a almoçar, quando, à cabeça da mesa, alguém, espontaneamente, perguntou, entre duas garfadas descontraídas: “Já viram o novo programa da TVI?”. Num só coro, as cabeças ergueram-se, como suricates, e rapidamente se instalou uma vilipendiosa troca de comentários. Ingénuo, a medo, interrompi: “Mas que programa é esse?”. Animados pelo fogo e fôlego da discussão, explicaram-me em palavras simples e curtas a essência da coisa: oito mulheres, regurgitações do estereótipo louro herdado das actrizes americanas, fechadas numa casa com oito nerds desleixados, ambas as partes tentando aprender da outra, respectivamente, a inteligência e a beleza – era esta a premissa de A Bela e o Mestre.

A descrição lembrou-me o famoso mito urbano do encontro entre Marilyn Monroe e Albert Einstein. Diz a estória que, tendo-se ambos cruzado numa festa, a diva se terá voltado para o cientista e sugeriu: “Devíamos ter um filho! Imagine se ele tivesse a minha aperência e o seu cérebro!”, ao que o físico replicou: “Imagine se tinha a minha aparência e o seu cérebro”.

Abanei a cabeça, enquanto as minhas amigas continuavam a criticar o machismo inerente à estrutura do programa. Alguns rejeitam esta crítica, afirmando que o novo reality show é igualmente preconceituoso no que toca aos homens. Porém, isso não é mais que uma falácia politicamente correcta pois se a mulher é correntemente, na sociedade materialista, pensada enquanto objecto sexual – e assim aparece retratada em A Bela e o Mestre; o homem, pelo contrário, não é concebido, no imaginário colectivo, como propriamente culto, antes, numa cultura de valorização do exterior, aparece, moldado por Hollywood, fisicamente trabalhado. Assim, o programa acaba por acentuar um estereótipo machista em relação à mulher, mas o inverso não sucede no que diz respeito ao homem.

Porém, ainda mais do que o sexismo de base do programa, inquieta-me a vitalidade do incessante e, aparentemente, infindável filão dos reality shows. Numa altura em que vividamente se discutiu, por ocasião dos cinquenta anos do primeiro canal, o serviço público, chegando mesmo algumas vozes a sugerir a sua extinção, julgo que, se há, na sua grelha, programas de qualidade duvidosa certamente dispensáveis, parte do mérito da estação reside também nos programas que dispensa, precisamente os reality shows. Este fenómeno da “tv real” confirma uma tendência que outros indícios há muito verificaram: mais e mais, desvaloriza-se a privacidade da pessoa, elemento constituitivo da sua dignidade e liberdade. É sintomático – mais, é macabro – que o protótipo de todos estes programas, o Big Brother, tenha ido buscar o seu nome ao universo totalitário orwelliano. Não é difícil, portanto, estabelecer uma ligação, por muito distantes que inicialmente pareçam um do outro, entre este fenómeno e a ressureição popular da figura de Salazar, tornada visível pelo concurso d' Os Grandes Portugueses.

Um exercício interessante, que revela bem a decadência deste género de programas, consiste em seguir o destino de cada um dos participantes depois de abandonar a mansão omnividente. Na semana passada, uma pequena notícia nos jornais sérios e um título de capa nos sensacionalistas davam conta de que “Big Mário”, participante do primeiro Big Brother, fora condenado a sete anos de prisão por roubo qualificado e agravado. Foi a pessoas como estas que metade de Portugal assistiu durante três meses! Mas, também, se é o mesmo Portugal que elege Fátima Felgueiras... ou Valentim Loureiro, o do julgamento televisivo, mais uma expressão deste conceito da “tv real”, da qual os reality shows são apenas a materialização mais bárbara. A mim, confesso, basta-me o reality show da lenta decadência nacional, transmitida em directo de qualquer telejornal, de todas as estações.

11 March 2007

Para O Futuro, Siga Em Frente


Numa cena do aguardado filme Southland Tales, de Richard Kelly, uma personagem, em posição de professora, comenta: “Os cientistas estão a dizer que o futuro vai ser bem mais futurista do que inicialmente previram.”. A observação rebolou-me na cabeça quando, na semana passada, encontrei no Público uma pequena notícia de uma grande curiosidade. A Coreia do Sul – onde se calcula que, entre 2015 e 2020, todos os lares terão um robô - reuniu um conjunto de peritos para conceberem um “código de ética” para estas máquinas. A iniciativa não é inédita: a Rede Europeia de Investigação Sobre Robótica divulgara no ano passado um relatório onde reflectia, por exemplo, sobre a justeza ética da criação de robôs destinados ao prazer sexual dos humanos, lembrando as máquinas do A.I., de Steven Spielberg.
A iniciativa da Coreia do Sul afectará, em primeira análise, as relações entre robôs e seres humanos: poderá, por exemplo, um homem casar com um andróide? Contudo, parece-me interessante reflectir também sobre a consequência de uma tal legislação para os robôs. A máquina é uma criação teleológica, destinada à execução de uma dada função. Não deverá suceder, porém, que, com os avanços da ciência, a máquina se mostre capaz de entender – e não somente obedecer – a sua finalidade e natureza compulsiva desta. O robô dotado dessa consciência estaria, nitidamente, numa condição de servidão inumana, privado da sua liberdade. Deste modo, qualquer corpus ético que se desenvolva não poderá ser do conhecimento do robô. Naturalmente, daqui resulta um intrincado conflito entre uma visão pragmática da robótica e o lado prometeico e genesíaco desta: a primeira concebendo as máquinas como servos felizes, cujo trabalho nos permitiria a nós, seus senhores, reganhar o otium horaciano; a segunda correndo atrás de um novo ser, par do homem, inteligente e crítico. Para que este último existisse, não poderia estar limitado pelo “código de ética”, mas, não preso por este, a sua vontade de servir os humanos seria decerto reduzida, almejando antes uma vida independente.
Procurando explorar estes imbróglios éticos do progresso científico, mas no campo da biogenética, um estudante canadiano concebeu um pequeno animal doméstico, sem pêlo, diferente das demais espécies conhecidas, cuja expectativa de vida é entre um a dois anos, e que pode ser adquirido em lojas seleccionadas, onde se encontra em caixas de plástico, em hibernação, à espera de ser despertado pelo dono. Pormenor importante: é tudo uma farsa. Adam Brandejs procurou com este seu projecto escolar interrogar as pessoas sobre as fronteiras morais da ciência e estudar o consumismo moderno. A sua conclusão, face aos relatos de crianças que pediam aos pais que comprassem o “bicho”, é, acertadamente, que “para toda uma geração, a vida e a ideia de vida estão a tornar-se bens descartáveis”: infelizmente, também nós aqui em Portugal compreendemos isso recentemente. É este o Maio de 68 da ciência, em que se grita pelos laboratórios: “é proibido proibir!” ?
Por vezes, perante tudo, dava vontade de construir o mundo de novo. Mas até essa última utopia parece ter ruído como uma senhora idosa que cai das escadas abaixo. Notícias recentes do Second Life [à letra, Segunda Vida], jogo cibernético onde o utilizador leva uma vida paralela à sua escolha, mostram que, onde existiam todas as condições e a reunião de vontades necessárias para, a priori, gerar uma outra sociedade melhor, esse ideal ficou pelo caminho: entre os utilizadores já circulam drogas, a corrupção já alastrou, as grandes companhias já asfixiam o mercado. Um grupo de utilizadores mais antigos criou mesmo uma Frente de Libertação que, triste ironia!, leva a cabo acções violentas de protesto, em nome do sonho perdido da terra nova e boa. O futuro pode ser, de facto, bem mais futurista do que previsto inicialmente; todavia, em última análise, assemelhar-se-á sempre, e demasiado, ao triste presente. ■ o corvo

28 February 2007

O Estudo da Nação

Um povo mal-acordado tem duas maneiras de se olhar ao espelho de manhã: pelas mãos dos artistas e filósofos, nas metáforas múltiplas da criatividade e do pensamento; ou pelos lábios dos sociólogos e matemáticos, nas estatísticas estatalmente encomendadas. O pequeno mês de Fevereiro enlatou em si, como num metropolitano japonês, ampla quantidade de estudos, revelados na última quinzena: os portugueses, como uma mulher, mediram-se no reflexo de uma montra – e descobriram a sua tristeza.

O mote foi lançado pelo último relatório da UNICEF, que registava que uma em cada cinco crianças em Portugal estava descontente com a sua vida. Só a Noruega, por meio ponto percentual – mania dos países nórdicos de liderarem todas as tabelas e todas as estatísticas!, superava a nossa taciturnidade (derivará esta tristeza comum do bacalhau?). Porém, em compensação, regista-se em Portugal o mais baixo nível, dentro do espaço da OCDE, de «bem-estar educativo», parâmetro que afere, de um modo geral, a qualidade do ensino: possuímos uma das mais elevadas taxas de abandono escolar e os resultados dos alunos portugueses nos vários testes de literacia – a nível de conhecimento científico, somos mesmos os mais fracos – justificam plenamente a nossa humilhante posição. É significativo que Portugal seja o país onde mais jovens (13%) confessam não existirem sequer dez livros em sua casa. Não obstante tudo, ou talvez por isso mesmo, os alunos portugueses são dos que dizem gostar mais da escola (31%) – possivelmente, porque nada (ou muito pouco) se faz lá. É um exercício de humor negro ler os cartas de leitor, assinadas por professores, que chegam aos jornais, relatando peripécias de aulas de substituição ou problemas com o prolongamento dos horários no primeiro ciclo. O problema só secundariamente reside em alunos ou professores, antes se centra nos poderes que lhes são superiores: respectivamente, os pais e o Ministério da Educação, prodígios de incompetência.

Tal como as crianças, também os pais deste país rasgam as vestes e batem no peito, em espectáculo tragicómico de tristeza. Um relatório de meados do mês, por exemplo, dava conta da estagnação das vendas de antidepressivos. Porém, os médicos entrevistados manifestavam o espanto, pois os casos de depressão, a seu ver, haviam aumentado – andamos todos deprimidos.

O jornalista, coitado!, avançava então com a tese da redução do poder de compra para justificar o paradoxo. E, efectivamente, Portugal, revelou dia vinte a UE, está entre os mais pobres dos seus vinte e sete estados-membros. Mais grave é o facto de o emprego não constituir necessariamente uma salvaguarda contra a pobreza: assim, 14% dos portugueses empregados vivem, mau grado o seu salário (esses salários baixos, lembram-se?, que devem atrair os chineses), abaixo do limiar da pobreza – a taxa é o dobro da média europeia; Portugal regista o pior resultado. O elevado risco de pobreza, afirma a Comissão Europeia, justifica-se pelo aumento do desemprego e o baixo nível de escolaridade dos jovens: assim fica comprovado como os dois lados da balança se interrelacionam e, por isso, o Ministério da Educação é quase tão vital para a recuperação económica do país como o da Economia.

Esta precária conjuntura contribui decerto para que Portugal apareça como o país onde se registe menor bem-estar psicológico, num estudo anglo-americano que investigou os níveis de felicidade de quinze nações europeias para os relacionar, surpreendentemente, com os problemas de hipertensão. Consequentemente, Portugal é não só, dos quinze, o mais infeliz: é também o mais hipertenso. E, desengano!, nem no campo se achará a paz que na cidade se perdeu: outra investigação da UE publicada este mês revelou que, em média, a qualidade de vida no campo é inferior à da cidade, sendo tanto pior quanto mais pobre o país. Coerentemente, Portugal aparece nos últimos da lista: eis o estado e o estudo da nação. ■ o corvo

14 February 2007

Brincar à Paz + Memória

No primeiro dia do mês mais longo desta cidade, o mundo soube a data do último volume da saga mágica de Rowling: o sétimo livro de Harry Potter estará nas livrarias a 21 de Julho. Outro anúncio e lançamento, contudo, passaram mais despercebidos. Uma empresa americana, Impact Games, disponibilizou o seu primeiro título: Peacemaker, à letra, aquele que faz a paz. Nunca fui assíduo consumidor de jogos de computador, mas apressei-me a adquirir este. Descarreguei o programa do site oficial – www.peacemakergame.com, custando-me a compra menos de vinte euros: nitidamente um preço simbólico, se atentarmos no atentado que são os preços dos grandes jogos do mercado. Instalado o ficheiro, corri a corrê-lo.

O meu invulgar interesse remontava já ao Verão, altura em que pela primeira vez contactara, numa notícia de jornal, com o projecto. Como o próprio nome indica, neste novo jogo de estratégia, contrariamente ao que sucede nos clássicos do género, o objectivo não é tanto a eliminação física do adversário mas sim a coexistência pacífica. Se o didactismo e inovação inerentes a este conceito seriam suficientes para que o projecto fosse louvado, este reclama maiores aplausos por servir-se de um conflito real para o seu propósito. Assim, o jogo reproduz, com fidelidade e ilustrando com vídeos e imagens, o problema israelo-palestiniano.

O jogador pode optar por desempenhar o cargo de presidente da Palestina ou primeiro-ministro de Israel, em três níveis de dificuldade diferentes: calmo, tenso ou violento. Dispondo de um vasto leque de acções ao seu dispor, o utilizador tem essencialmente de tomar decisões, com cujo resultado é confrontado no fim do round, e que não só condicionam as suas escolhas como influenciam todos os outros poderes em jogo, como o Hamas, os EUA ou a ONU. O jogador estará tanto mais perto da vitória quanto melhor conseguir reunir o apoio dos vários intervenientes na cena política, preparando-os e preparando-se para o difícil caminho da paz.

Os jogos didácticos tendem a não agradar aos jogadores normais, por raras vezes conseguirem ter a mesma qualidade de outros títulos do mercado, saídos dos grandes estúdios. Tendo já mostrado Peacemaker a alguns amigos meus, não é essa a impressão que tenho: o jogo, que creio ser peça de um mundo melhor para um mundo melhor, representa um verdadeiro desafio – talvez porque o problema em que se inspira é ele mesmo um dos maiores desafios da sociedade actual. Ainda no final da semana passada, reuniram-se em Meca o presidente e primeiro-ministro da Palestina, sob os auspícios do rei saudita, para procurarem pôr termo, pela formação de um governo de unidade nacional, à guerra civil. Islão significa paz, etimologicamente. Que as raízes da palavra mergulhem na terra.

*

Faz hoje uma semana que o P.e. Abílio faleceu. Não posso deixar, dolorosamente, de o evocar aqui. O P.e. Abílio, sob o seu frontispício de rigor e precisa exactidão de latinista nas palavras e nas coisas, era também um espírito cómico, de subentendidos humorísticos de uma elevação rara, sempre perspicazes e bem-dispostos. Professor nato, nunca se escusou a pôr ao serviço dos outros – e que é a vida de um padre senão o serviço? – os seus conhecimentos, quer fosse na tarefa de revisor deste jornal (quantas vezes a sua paciência e lápis me limaram – como num trabalho de ourives – as crónicas!), quer fosse no exercício do professorado: na escola, no seminário ou entre os imigrantes, quando começou para eles aulas de português. Como pároco, o seu trabalho é indesmentível e duradoiro – fui relembrado disso quando, no sair triste e lento da igreja, revi as duas placas que ladeiam aquele hall. O P.e. Abílio, estou certo, permanecerá muito mais tempo connosco que aquele que nós permanecemos com ele.


Publicada a 14.2.2007

29 January 2007

Em Busca da Identidade Perdida

Na semana passada, integrado no Ciclo de Filmes de Culto do Teatro Gil Vicente, vi O Elemento do Crime, primeira longa-metragem de Lars von Trier, verdadeiro génio da sétima arte. O filme inaugura a sua trilogia Europa – reflexão sobre o futuro do nosso continente e civilização – apresentando-nos uma Europa decrépita, pobre e podre, abandonada, impotente. A visão e a fita levaram-me a reflectir sobre o nosso destino enquanto membros desse espaço, que ainda com o início deste ano se alargou à Bulgária e Roménia, cuja entrada na União foi tão mornamente celebrada. O Espaço Euro enriqueceu-se também com a entrada da Eslovénia: quantos o terão notado, fora os numismatas? Alguns poderão justificar a falta de entusiasmo com a distância geográfica ou com a diferença de culturas, mas é o não percebermos que aqueles povos partilham as nossas raízes – e, ao mesmo tempo, as acrescentam de valores e tradições novas – que mais nitidamente revela como há Europa, mas ainda não há uma identidade europeia.

Esta falta de consciência de um elo comum – que se chama passado – é preocupante para os que olham para o futuro. Em reganharmos a certeza de sermos um estará o sucesso da nossa sobrevivência – a linha que nos separa da visão apocalíptica de von Trier. A louvada paz que tem sido abençoada como um dos maiores dons da União é uma consequência directa da percepção de que “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”, para citar Carlos Tê. Entendamo-nos: a união política e económica é somente um reflexo dessoutra unidade mais profunda de um conjunto de países que, porque partiram do mesmo ponto, querem agora chegar à mesma meta. Se a Europa está estagnada enquanto projecto é por as suas populações não entenderem esta verdade: só assim se explica as águas de bacalhau da Constituição Europeia.

Veja-se o português: este continua a olhar a UE como nascente de dinheiro (ou exílio oportuno), escapando-lhe o seu desígnio maior, como bem se percebe da recepção de Bolonha. Independentemente da atribulada aplicação do documento nas universidades (essa criticável), Bolonha, em si, pode vir a tornar-se, aliada ao programa Erasmus, no «Euro» dos universitários.

(E eu que começo a pensar que só uma Bolonha no Básico poderá salvar a educação nacional!)

Bolonha é mais um instrumento na construção da consciência europeia, que, dizíamos, é importante cimentar nos espíritos, especialmente agora, com a futura entrada, eternamente retardada, da Turquia, estranha ponte entre Ocidente e Islão, no espaço europeu. O desafio já nos é posto com o problema da integração das comunidades árabes – vivamente discutido aquando do atentado em Londres. Parte do falhanço na sua integração prende-se directamente com a grosseira ausência de um sentido de identidade europeia que os anos já deviam ter sedimentado. Quem desconhece a sua própria cultura não pode levar outros a adoptá-la. E a cultura europeia é mais do que uma mera repetição dos valores ocidentais. Se a identidade americana resulta duma mistura de culturas, a nossa resulta de uma profusão de culturas a partir de um mesmo tronco. Esta mesma derivação é, espante-se!, paradoxalmente, a nossa unidade. Angela Merkel, ao assumir este mês a presidência rotativa da UE, chamou a isto tolerância.

É que a Europa não é um monólito, mas uma árvore. Porém, tolerância, repito, não significa ignorância: pelo contrário, ela incentiva a um maior conhecimento da cultura própria e alheia, pois só assim se gera respeito mútuo. A Europa é uma ideia, e isso é fraqueza e força: fraqueza, porque não subsiste per se, antes depende das mãos e dos lábios que a façam viva; força, porque, imaterial que é enquanto ideia, nada a pode destruir – e ela persistirá!

19 January 2007

A Manifestação

4 horas: é preciso amar muito Amadeo. Regozijei na leitura da capa do jornal; preenchi-me de alegria com as imagens na televisão. Amadeo não está na lista dos grandes portugueses – Amadeo teve porém consigo os portugueses. O pintor, nome maior do modernismo europeu, teve duas infelicidades: morreu cedo, nasceu português. “Um pouco mais de sol - e fora brasa, /Um pouco mais de azul - e fora além.”, escreveu o seu amigo Sá-Carneiro: tivesse Amadeo apenas nascido em França!, houvera subido, elegante e ligeiro, mais alto que tantos outros.

O que se passou na Gulbenkian foi uma manifestação. Quiçá, mais poderosa que aos protestos convencionais. Força de um fantasma do passado!, que invocado por uma evocação, convoca assim um povo. Não houve cartazes, houve quadros; não houve sindicatos, houve Amadeo – e uma revolta, marcha silenciosa, que brilhava. Uma rebeldia contra o PREC: Processo de Rápida Estupidificação em Curso. Este foi o sinal que os portugueses quiseram enviar, como estrela de Belém, de Belém a São Bento. Este fim-de-semana, os portugueses berraram, numa língua sem TLEBS, «Nós queremos ser cultos!».

(Entretanto, na telenovela TLEBS [nova terminologia linguística], o governo procedeu a uma interrupção voluntária da mesma: “deficiências” obrigam a proceder a um trabalho de revisão nos próximos anos. Registo, para a posteridade, a seguinte frase de Luís Capucha, director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, em entrevista ao Público de seis de Janeiro: “Vamos sujeitar a TLEBS a um teste prático: saber se os alunos que aprenderam com a terminologia têm melhores resultados a Português. Vai ser já este ano que vamos fazer essa comparação, através dos exames do 9º e do 12º ano”. Não me rio de imediato: esperarei, calmo; como, de resto, procedi no caso da repetição dos exames – aguardando que o tempo me engorde a razão. Se, por acaso, os resultados dos exames forem superiores – saiba-se, foi só por acaso.)

Os portugueses não só querem não ser estúpidos, como não querem ser vistos como tal. E por isso manifestaram-se, na semana em que se soube que o Museu do Azulejo – o quarto mais visitado de Lisboa – é forçado no fim-de-semana a fechar ao almoço por falta de pessoal e que para essa situação caminham o Museu dos Coches e o Museu Nacional de Arte Antiga, não obstante em 2006 os museus estatais terem superado o recorde de visitantes firmado em 98, ano de Expo. Isto, para não mencionar na lista de indignações o fim, anunciado ainda no ano passado, da Festa da Música. Ou a imensa confusão que continua a rodear a colecção Berardo.

Dir-me-ão que quem esteve ali, na Gulbenkian, não foi o público da Floribella – mas foi decerto o público que não quer que o país caia nas mãos do público da Floribella. Foi uma população escondida que se revelou – que se vai revelando, discreta, quando as coisas boas aparecem, para as saborear (ah!, como me ocorre à memória o recente e excelentíssimo Hamlets encenado pelo TEUC no Gil Vicente de Coimbra!). E esta massa muda vai relembrando urgentemente que este país, que pôs na lista dos seus cem maiores Maria do Carmo Seabra – que promulgou a TLEBS, foi o mesmo que nela inscreveu o Pe. António Vieira, Vieira da Silva ou Almada Negreiros e levou ao grupo dos dez maiores Pessoa e Camões.

A semana passada, Portugal ratificou uma convenção da UNESCO com vista a proteger da liberalização do mercado os bens culturais, assim salvaguardando as manifestações artísticas locais que, doutra forma, não poderiam subsistir: haveria cinema português sem Estado? Calculo que os manifestantes da Gulbenkian, no meio do seu descontentamento, tenham sorrido com a notícia, esperançosos – e eu com eles – de um futuro melhor.

01 January 2007

O Padrinho


O Estado está, como polvo, espalhado, tal bebida entornada, por todo o lado. Por isso, é forte – nesse adjectivo que, para classificar este governo, é promíscuo – de em tantas bocas já ter sido falado. Sócrates apresenta-se, sistematicamente, na pesrpectiva de uma certa camada pública, como um símbolo de unidade e direcção, homem bravo, capaz de afrontar os interesses instalados – e daí retira o seu aplauso e graça. Porém, esta força, que é omnipresença, tem os seus custos – como aqueles dos que, imprudentemente, hoje querem tanto vender a sua liberdade pela sua segurança.

Exemplo: “Teme-se o pior em 2007, pois, se tudo correr como o Governo deseja, a censura vai regressar”, comentava Francisco Penim, director de programação da SIC, no Correio da Manhã de sexta-feira passada. Ainda em Dezembro, no antologia semanal do Contra-Informação, abruptamente a emissão foi interrompida para publicidade (sem que fosse depois retomada) quando Vladimir Putin (isto é, o boneco parónimo) ameaçava de morte os atletas do Spartacus de Moscovo com uma caixa contendo material radiocativo. Falha técnica? Porém, difícil de conciliar com a hipótese do erro humano, em jeito de dúvida prudente, foi a cobertura da estação pública da estação dos incêndios. A situação de aparente e subtil relação entre o Estado e a televisão pública foi sintomaticamente caricaturada pelo Gato Fedorento num dos seus sketches, onde se mostrava o apego do canal à agenda do governo. É necessária uma séria investigação sobre o assunto e, mais ainda, uma constante postura crítica por parte do espectador (hoje tão urgentemente reduzido à estupidez pelo telelixo). Este ano, de resto, foi, efectivamente, pouco abonatório para a liberdade de expressão, especialmente se tomarmos em consideração a conjuntura global com o paradigmático caso das caricaturas do Profeta.

Lendo o jornal e correndo a net, tropecei em mais um caso de intrusão do Estado num matéria, verdadeiramente, absurda. Soube recentemente que o famigerado Ministério da Educação legislou em Outubro sobre a dimensão dos cacifos das escolas: assunto de público interesse e urgência para o aumento de qualidade do ensino português. Li esta semana a sugestão de se extinguir o Ministério da Educação – efectivamente, já foi maior o meu desacordo com a ideia.

Com dois mil e sete entrou também em vigor a lei que obriga a que os pescadores lúdicos adquiram, para o efeito, uma licença, a qual os submete a um conjunto de normas como a obrigatoriedade da distância de uma dezena de metros entre cada praticante do pacífico desporto. O governo planeia, de seguida, obrigar à aquisição de uma licença semelhante os praticantes de xadrez, malha e bisca. Será enfim tempo de estender ao Ministério das Pescas a crítica que tão recorrentemente – porque acertada – se faz ao da Educação: quem nele trabalha, decerto que não tem exercido a profissão sobre a qual legisla.

Porém, revelador desta omnipotente introdução do Estado em qualquer assunto, por muito remoto que lhe seja, é a situação, tragicómica, do novo cemitério na Póvoa do Varzim, onde, por imposição da câmara, todas as sepulturas passarão a ser tayloristicamente iguais, sem ornamentos de maior: nome do morto e jarra de flores. O lema que preside à medida, confessado pelo vereador responsável, é gaulesamente inspirado: “Iguais a nascer, iguais a morrer”.

Este é verdadeiramente o Estado Social (qual crise dele!): o Estado que acompanha o seu cidadão desde o berço (em Badajoz) até à cova (na Póvoa).

23 December 2006

Ensinamento Às Crianças de Saragoça


Às crianças da escola Hilarion Gimeno, de Saragoça, a quem impediram de celebrar o Natal, para não ofender outros credos.

Queridas Crianças de Saragoça, venho-vos explicar o mundo, como um filósofo velho que acolhe, como avô, os pequenos no regaço. Porque há coisas, crianças, que os outros velhos, que se chamam adultos, não querem que vocês saibam: mas é urgente que saibam! Percebo que não percebam muito do quanto percepcionam e cada dia é uma novidade e cada espaço, uma vontade de ser maior, sendo mais sabido. E, no entanto, Deus!, às vossas perguntas, só têm o eco como resposta. Por isso vos sento hoje aqui, Crianças de Saragoça, e vos falo do Natal.

Sei que na vossa escola não há Natal. E, coitados de vós – ó arautos de permanentes porquês! –, que não entendem a cidade, porque na cidade há Natal. Há luzes confusas nas árvores do jardim municipal – mas também isso, sabeis?, não é Natal. Os vidros das lojas têm azevinhos e tons encarnados, como fosse tudo um grande pecado – o pecado de celebrar o Natal. E, subitamente, tudo fica mais barato (ou assim se promove) – coisa bizarra, quando se pensa que, depois, logo seguem os saldos: que pensam os adultos? Mas nem isso, crianças, nem isso é verdadeiramente o Natal. Aliás, coisa mais esquisita ainda, é vocês receberem presentes, ainda por cima, sempre no mesmo dia do ano. Eu sei a vossa alegria e como voam aladas de brinquedos, mas, lá no fundo, comichão!, há essa grande confusão de perceberem a razão por detrás da atitude, porque tanto quanto os pais vos tenham dito, vocês fazem anos noutro dia.

É uma época, a bem dizer, aberrante – um pouco como os adultos. E na vossa cabeça pequena e no vosso coração grande, não faz sentido nenhum – só porque desconhecem, porque vos calaram, o que acontece. Não que as coisas para serem belas ou agradáveis tenham de fazer sentido, mas nenhuma de vocês, crianças, acredita, certamente, que os adultos são surrealistas, que são o único género de pessoas que fazem coisas muito divertidas, mas sem sentido nenhum.

O mais enervante, porventura, é que, maldição!, o vosso primo, que até é um ano mais novo do que vocês – o primo de Barcelona, que vem sempre passar esta altura convosco (o que é uma coisa, em si, também esquisita: por que inspiração todos acorrem, pastores peregrinos, à gruta de vossa casa?) – ele sabe o que se passa, certamente, porque não parece nada confuso – e vocês nunca o tomaram por palerma. Há um grande mistério, e nenhum Holmes para o resolver.

Ai Crianças de Saragoça!, fazem-vos cegas, mas como os dentes novos que vos nascem incessantemente, brota em vós nova vista continuamente. E que eu vos dê a luz, que não seja artificial ou um néon disparatado a piscar numa rotunda. Ficai pois sabendo, ó Crianças de Saragoça, que toda a barafunda instalada em torno a vós, todo o hábito estranho que constatais agora, nada mais são que manifestações superficiais de uma coisa profunda, mas que, talvez a medo que fiqueis corcundas com o peso da verdade, os adultos vos escondem. Mas, ai!, sabeis?: nem têm más intenções, os vossos pais – julgo apenas que eles mesmo já são ignorantes.

Por isso, vós que me escutais arrebitados, ide hoje dizer a vossos pais, que há algo de profundamente errado nisto tudo, enquanto o ser humano for um macaco que teimou em não se submeter a Darwin. E como macaco, copiar uma tradição que herdou e mais não sente – e mais não lhe conhece a causa. E erguei-vos, crianças, a homens: vós que estais mais perto, porque ainda o tendes fresco na memória, do que é nascer. E ide dizer ao vosso primo de Barcelona que afinal, ah!, também ele andava enganado pela coca-cola: porque o Natal, o Natal, niños, é só – e é tanto! – a festa de um outro Ninõ que nasceu.

O Príncipe


Havia pressa minha, mas havia a contrapor, do outro lado, urgência. Parei, escutei amenamente (mau grado o frio que se faz sentir nestes últimos dias que são também os dias últimos), e ganhei felicidade em assinar o papel: tinha-me inscrito na Amnistia Internacional, em mais uma das suas campanhas de rua. No próximo domingo celebram-se 58 anos sobre a adopção pela Assembleia Geral das Nações Unidas da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contudo, a Amnistia ainda existe – porque, infelicidade!, continua a ter trabalho.

O caso de Alexander Litvinenko persiste em no-lo relembrar. O antigo tenente-coronel dos serviços secretos russos morreu a 23 de Novembro, em Londres, onde residia, exilado, na sequência de um envenenamento, por polónio-210, no início do mês passado. Dissidente, da sua boca e da sua pena saíam fortes denúncias do maquiavelismo das cúpulas políticas russas. Alguns apelidavam as suas teses de ‘lunáticas’; mais recentemente, concentrava-se no caso da jornalista russa Ana Politkovskaia, fortíssima crítica de Putin, também ela assassinada, em princípios de Outubro, com quatro tiros no elevador de sua casa.

Não desejo repetir o que os media repetiram. Mas, vendo aquela fotografia de Litvinenko, já na fase terminal, no hospital, a minha mente teimava em descarrilar para as memórias que guardava de Yushchenko, o malogrado presidente da Ucrânia, de rosto desfigurado, vítima também ele de envenenamento, por recusar o protectorado subjugador da Rússia e olhar alto para a Europa à esquerda. Ninguém pode afirmar nada, nada pode acusar ninguém: a política tem sempre a subtileza de um pano de veludo como luva de uma mão de ferro – e ficamos restritos a enunciar factos, quando todos, nos cantos, anunciam, porque sabem, os criminosos. De resto, já não há informação independente na Rússia para dizer a verdade mesmo que alguém a desconhecesse: só na última década, 261 jornalistas russos foram mortos.

Paralelamente, no mesmo dia em que uma dessas mártires, Ana Politkovskaia, foi assassinada, Putin celebrou os seus 54 anos. José Milhazes, jornalista conhecido de alguns, que mantém um dos mais interessantes sítios da blogosfera (http://blogs.publico.pt/darussia), dava conta, in loco, das celebrações. Destacava, com ilustrações, o concurso lançado a crianças de todo o país, as quais eram convidadas a desenharem o presidente: o vencedor receberia um cachorro, irmão da cadela de Putin. O segundo premiado levaria um quimono de judo, desporto favorito do presidente, e o terceiro um manual de alemão pelo qual Putin, enquanto agente da KGB, estudara. Em meados do século XX, isto seria reconhecido como culto da personalidade.

De facto, é viva a ligação entre o chefe e o seu povo: Putin dá entrevistas, respondendo a perguntas dos internautas sobre a sua vida pessoal, compõem-se canções apresentando o presidente como paradigma de masculinidade, e o povo ama-o tanto que, na referida celebração do seu aniversário, na Tchetchénia, as autoridades organizaram uma reunião de 60 000 pessoas, pedindo que Putin altere a Constituição para que se possa recanditar uma terceira vez. Incrível!

Ao mesmo tempo, esse «povo», de acordo com a sondagem de uma rádio moscovita, concorda que o assassinato de Litvinenko foi “a realização da lei russa de combate ao terrorismo no estrangeiro”. Durão Barroso comentou, no novo cargo: «Temos um problema com a Rússia. Na verdade, vários problemas. Demasiadas pessoas forma mortas e não sabemos quem as matou.» As crianças, lá fora, no recreio, trauteiam: «O rato roeu a rolha da garrafa...».

22 December 2006

Artes Plásticas


Saiu recentemente em DVD a terceira temporada de Nip/Tuck, uma série americana de grande sucesso centrada na vida de dois cirurgiões plásticos. A série, polémica, aborda de forma inovadora a actividade destes profissionais explorando os dúbios limites éticos da sua profissão. Paralelamente, estreou na semana passada o novo reality show do canal quatro: Doutor, Preciso de Ajuda! Estou convencido que é a estação quem precisa de ajuda e dum facelift urgente.

A persistência e a insistência no modelo dos reality shows, progressivamente mais aberrantes e espectaculares que os anteriores, é algo que, mau grado a válida explicação sociológica, me começa a confundir. Certo: há a curiosidade natural, o voyerismo quase hitchcockiano, uma longa cultura de imprensa cor-de-rosa que assenta no mesmo sentimento. Também é verdade que nem todos os reality shows gozaram da mesma fama, alguns notabilizando-se pela negativa. Porém, que justifica que, ciclicamente, reapareçam? Raramente se fala da possível relação do fenómeno com a incapacidade criativa do espectador. O telespectador médio perdeu o sonho depois de ter sido criança e ter acreditado em duendes. Porque não é capaz de um exercício de ficcionalidade, porque toda a ficção surge ante ele como delírio especulativo, ele busca então os programas ditos reais ou os que reflictam prtensamente o seu real (telenovelas). Nietzsche pôs a tragédia grega vítima esganada às mãos de fenómeno análogo.

Doutor,... espelha a necessidade da aparência. O programa oferece aos seus participantes uma cirurgia plástica, transmitida publicamente: no fundo, cultiva-se o gosto que levou à morte, na semana passada, da jovem modelo brasileira Ana Carolina. Uma das primeiras concorrentes – relatava o Público – “47 anos, motard nos tempos livres, já é avó, mas acha as conversas das pessoas da sua idade uma chatice”. Aqui se mostra a hipocrisia profunda da sociedade: a candidata, ao submeter-se a uma operação de rejuvenescimento, vai-se disfarçar, com patrocínios. E, numa terra de máscaras, espantamo-nos com as declarações do primeiro-ministro húngaro de que é necessário mentir povo: somos cães da mesma raça.

Mas notai!: “No nosso programa há muita informação médica, há conversas com anestesistas, com nutricionistas, que explicam os passos tomados”, reafirma Miguel Stanley, ideólogo do projecto. Não se trata de qualquer ficção inconsistente: todos os procedimentos são cientificamente explicados, o que representa evidentemente um contributo impagável de educação pública ou até “uma forma de trabalho social”! Ai, que riso amargo!: sim, é trabalho social, porque trabalho para o social, para a aparência, para o inglês, que é português, ver.

Eduardo Moniz vem em defesa do programa explicando: “Não poderíamos passar este programa antes das 23h. Sim, porque nós cumprimos as regras!”. Por isso, pelo respeito pelas regras, é que 25% do emitido na televisão em Setembro foi publicidade e a TVI domina no valor gasto. E há regras, caro Moniz, que não se acham escritas em Diário da República algum... Essas são conhecidas pelo nome de ética. Mas “quem tem ética passa fome”. A TVI é um exercício de kitsch – mas isso é só um sinal de esterilidade. Porque, admire-se o recém-nascido!, também este Doutor,... não é mais que uma variante de um já testado estereótipo. De produtos artificiais como os D’ZRT (que precisaram de se legitimar chamando ao segundo álbum Original), passando por Inspector Max (cujo único excerto que vi, num restaurante, me convenceu da inabilidade primária do director de fotografia) até Doutor,..., a TVI chapinha de cópia em cópia, até criar pastiches sem consciência da sua essência ridícula.

Na América, há Nip/Tuck – em Portugal, Doutor,...: cada um tem o que merece.

O Processo


Quando o bicho espevitou o olho, permaneci adormecido – e guardei silêncio. Sabia em mim muita coisa e deixei que o mundo seguisse o seu curso natural. Há um prazer hediondamente cínico em rir por último: mas até o cinismo era entre os gregos uma escola de filosofia! Acolhi, pois, como um déspota a notícia dos jornais que ordenava que o Ministério da Educação repetisse apressadamente o exame de Química a uma aluna de Coimbra, cidade do conhecimento!, e que, a obter média igual ou superior à de acesso em Medicina, se abrisse nova vaga na vetusta Faculdade local. Ah!, que gozo, ah!, que espanto!

Recordo, vívido!, uma altercação na TSF, no dia em que me fui candidatar à Universidade, e o comentário de um ouvinte que afirmava que se geraria o caos se todos os exames fossem repetidos. E eu disse, deus feito: «Faça-se o Caos!» e o Caos fez-se por tribunal. Faço figas secretas agora pela desconhecida que se sentará numa sala vigiada por dois docentes e responderá certas às perguntas. E, nessa altura, se ainda houvesse honra, a Ministra demitia-se.

De um lado, pois, se erguem prometeicos exames prometedores; do outro, esgaravatam os cientistas da 5 de Outubro as suas pedagogias alucinadas e declaram eurekas!: Filosofia não terá mais exames nacionais. [Só há, coisa de somenos, cerca de 300 cursos que aceitam Filosofia como prova de ingresso.] A Ministra e a sua equipa são reencarnações, em linha directa, sem interrupção, dos juizes que condenaram Sócrates no Areópago: estabeleço definitiva a tese da metempsicose! A Filosofia é arma do pensamento: e o Governo não quer armas, e o Governo não quer pensamento: e o Governo não quer revolução! E o Governo quer poder.

O silogismo é breve: ou a Ministra é de uma ignorância tal que não consegue perceber a fundamentalidade da Filosofia e então, pobre!, falando como Cristo, perdoemos-lhe, porque não sabe o que faz; ou a Ministra é suficientemente lúcida para entender aquilo que está em jogo e, então, é claro a intenção propositada e maléfica nisto tudo. Não há inocência na política: e todos têm as mãos cheias do sangue de Lady Macbeth. Repito: está em curso um processo de estupidificação.

E não nos deixemos enganar pelas mentiras! Ontem, como hoje, os “cérebros” quando não fogem, são vandalizados. Prova disso é a recentíssima demonstração dos bolseiros da área das Ciências frente ao Parlamento: alheados do sistema de Segurança Social, estes jovens – tantos deles, demasiado deles! – vivem em absoluta precariedade, não tendo assegurada reforma ou não podendo, sem grande luta, conseguir um pequeno crédito numa instituição bancária. Não me cabe aqui discutir que outro sistema de bolsas pode ser reinventado, cabe-me assegurar que seja respeitada a dignidade destes manifestantes – e não que sejam achincalhadas pelo Estado.

A nossa educação é kafkiana, isto é, não tem sentido nenhum. Os velhos gregos primavam por que as suas crianças desde cedo fossem cultivadas na música, na língua, na ciência e na filosofia. A primeira, ninguém sequer se levanta para discutir a sua inclusão obrigatória a substituir ridicularidades como Área de Projecto; a língua, com a nova terminologia, pode ter ficado mais cientificamente correcta, mas aparece hidra às crianças que se têm de fazer Hércules para a vencer; quanto à ciência e filosofia, já falámos. Estamos cada vez mais distantes do tempo absoluto de Sophia, esse tempo que aprenderíamos do exemplo dos helenos. No último Jornal de Artes & Letras, sugeria-se um referendo aos currículos: estou plenamente de acordo. Mais, faça-se um referendo à Ministra e sua equipa! Mais ainda, faça-se um referendo à interrupção voluntária do Governo!

Negativo


A 13 de Outubro – esse dia de azar, sexta-feira – a Academia do Nobel (dispensa-se a leitura à la Saramago) galardoou Muhammad Yunus com o Prémio Nobel da Paz 2006: sorte grande dos pobres! A 2 – o único canal que vale a pena ver, agora que o Dr. House acabou na TVI – emitiu sábado passado um documentário sobre a revolução, como dom, que este professor de economia ofereceu aos miseráveis (num tempo em que Vítor Hugo já morreu). O conceito de microcrédito, patenteado por ele, é tanto mais fascinante quando compreendemos que não se trata, como inicialmente seríamos tentados a fazer, habituados que estamos, de um donativo de caridade, mas sim de um verdadeiro e formal empréstimo, inclusive com juros. Eis que o capitalismo – esse bicho amorfo que uns viam castrado de fazer bem – se mostra, esplendoroso, pela coisa simples, mas nunca antes experimentada – a solução esperada.

É notável o relativo pouco destaque que alguns meios de comunicação social deram ao anúncio norueguês, mas tristemente mais espantoso é como pessoas com a têmpera de Yunus permanecem ostracizadas pelos media, por escolha destes últimos: em contrapartida, uma revista de há duas semanas noticiava com importância que José Castelo Branco tinha sido contratado para um circo. É que Yunus não devia ser propriamente desconhecido: só este ano, já tinha sido galardoado com o Prémio da Paz de Seul e o Prémio Madre Teresa. Entristece-me mais ainda, contudo, saber que, para o ano, poucos se recordarão do nome deste filantropo – para não querer ter de admitir que, se um inquérito fosse feito, provavelmente já agora quase ninguém reconheceria o nome Muhammad Yunus no nosso país – país em que, de resto, pouco valor parecem ter os direitos humanos, quando, numa recente sondagem do Público, 41% dos portugueses é a favor da pena de morte para homicidas e dois terços defendem a legalização da prostituição: nitidamente, ainda não viram Transe, o novo filme de Teresa Villaverde.

Porém, hoje é o dia em que a minha esperança não se abala. Se há quinze dias, em «Fotografia», constatava a naturalidade do mal, hoje é o tempo em que revelo a inversão das coisas, e da fotografia fico com o «Negativo»: a possibilidade, tão real quanto a outra, de o ser humano ser agente de bem. Provas, como dons, apresentam-se, para quem as queira detectivar: esta semana que passou foi a Semana para o Mundo Unido, promovida pelos Jovens para a Unidade; este domingo em que redigo a crónica, é Dia Mundial das Missões; e, no anterior, pomposa e grossa, mas justa e merecida, assistimos todos, concelho, à magna celebração dos ínclitos cem anos da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada – realidade tão próxima (e tão necessária) de nós que mais me ratifica esta certeza da bondade.

Algures no documentário já aqui referido dizia-se que a dignidade humana passa, entre outras coisas, por não ser pobre. Numa sociedade como a nossa, em que as crianças vilipendiam os pais no peditório de um 3G – e, maior agravo! – os pais as satisfazem, essa dignidade passa também por não ser demasiado rico, ou, antes, por saber pôr a riqueza nas coisas certas e duradouras – e saber dar, numa cultura de ter. Já na homilia da missa de 15 de Outubro, D. Albino Cleto apontava essas palavras no Evangelho do dia. Podemos sempre indagar que diferença fará o nosso contributo, mas aí são válidas as palavras, sobre o microcrédito, com que Yunus fechou o documentário e com as quais termino: «Quando os irmãos Wright voaram com o seu avião pela primeira vez, este manteve-se no ar por 20 segundos e percorreu 36 metros. Na altura, dissemos: “E então?”. Mas isso mudou o mundo. Seres humanos voaram pela primeira vez. Nós somos o avião dos irmãos Wright. Estamos a percorrer apenas 36 metros.»

Fotografia


As crianças vão, levadas num jipe quasi-militar, cinzento. O rapaz, mudo, com a sombra que lhe lança o chapéu de palha maior que a cabeça, esconde os olhos, fixo no que deixa enquanto o veículo arranca. O nariz é a parte mais visível e distinta, estreita, sulcando o rosto. Do lado esquerdo, a rapariga, com a sua toca vetusta, curiosa criminologista, concentrava-se na cena, incompreendendo. E, ao centro, escondida dentro, a garota, assustada, comprimida, com os dedos de fora segurando ferozmente a janela traseira do transporte, observando, receando e receosa, de olhos muito azuis. Há um certo verde de campo como pano de fundo baço.

É a fotografia – que ilustra a notícia.

As crianças fazem parte da comunidade amish, onde a semana passada um homem, aparentemente comum, assassinou meticulosamente várias alunas que tomara como reféns na escola local. O massacre foi o terceiro em menos de uma semana nos EUA, estes ainda precedidos do mediático tiroteio numa escola no Canadá. Há um qualquer absurdo em todos estes cenários. Há um mal, puro e inteiro. Podemos invocar causas psiquiátricas que justifiquem este acto que firmemente pretendemos rotular de irracional. Porém, quanto mais remetemos a explicação destes comportamentos para a área da loucura, menos nos consciencializamos da horrorosa verdade da sua lucidez. Todos estes ataques não resultaram de um delírio momentâneo do criminoso, mas de profunda preparação e cuidado.

O ser humano lida mal com a sua faceta obscura, crendo-se civilizado e racional. Veja-se o caso de Hitler, sistematicamente achincalhado com problemas psicológicos na busca das pessoas de uma explicação para a ditadura: o ditador era, na verdade, bastante normal – e parte do «pecado» do excelente filme A Queda foi tê-lo retratado assim. O Mal é, verdadeiramente, uma escolha, feita com a mesma dose de consciência com que, alternativamente, uma pessoa pode alinhar por um comportamento dito concordante com as normas sociais. A bondade, a correcção, não são essências, fixas; mas estados. Entrar numa escola a disparar é algo que pode acontecer a qualquer um de nós, sem qualquer razão justificativa (até porque não a pode haver). Em comentários ao seu cru Elephant, uma reconstituição parcial do massacre de Columbine, o realizador Gus Van Sant, que nunca, ao longo da película, indica uma causa concreta para o que aconteceu, explicou que a primeira cena, em que se filmam, longamente, nuvens, era uma forma metafórica de levantar a hipótese de o móbil dos assassinos não ser outro que o tempo nublado. De facto, tudo serve de justificação – porque a não há, senão o capricho.

Repito, porque é essencial a compreensão desta verdade: não estamos perante psicopatas. Um jogo gratuito na net permite ao utilizador tomar o lugar dos assassinos de Columbine e reproduzir a matança. Este RPG teve 40.000 downloads: vamos acreditar que todos os utilizadores que o descarregaram sofrem de terríveis e ominosos distúrbios psicológicos? Contudo, não caiamos na falácia de julgar então estes jogos como os responsáveis pelos instintos violentos dos jovens: eles vêm-lhes responder, o que é diferente. A forma fácil como se desliza para o «lado negro da força», para usar a gíria da Guerra das Estrelas, é ilustrado brilhantemente em obras como o aterrador O Deus das Moscas, do nobel Golding.

Aceitar, parafraseando Hannah Arendt, a banalidade do mal é custoso – e mais fácil de não ser feito. Filosoficamente errado, o povo associa ao normal o correcto – e o que difere olha de soslaio e condena. Mas não há qualquer relação de causalidade, menos ainda de sinonímia, entre os dois conceitos. O Mal pode ser banal – mas não menos absurdo, não menos horroso, não menos destruidor – e, ai!, há esse lado que não escolhe: o lado da vítima inocente. «...as crianças, Senhor,/Porque lhes dais tanta dor?!...» Deixai o jipe levá-las, deixai...e elas não vejam o horror!