17 June 2005

Presépio Futurista

Tive um sonho de Natal, uma alucinação. E se de são e de louco todos temos um pouco, então a vossa parte louca deverá achar curioso este desvairo de minha mente.

Vi nessa demência minha um presépio de proporções gigantescas. Curvado perante ele, mais por dever da inconsciência que por escolha livre do arbítrio, foi com maior admiração que observei as estranhas figuras que o faziam, todas elas de tamanho desproporcionado. Tudo parecia uma realidade elevada ao quadrado. O gosto pelo espectacular e monumental é velho no homem, para o bem ou para o mal.

Uma senhora explicava à criança que levava pela mão a origem daquele bizarro presépio. Tinha mergulhado no futuro: estava a conhecer o último quartel do século em que redijo agora esta crónica. A mãe do pequeno dizia-lhe que o presépio que ele agora tomava com os olhos fora, no tempo dos seus avós, fortemente diferente. Ao que consegui captar, fora mudado pelos países europeus. Tudo começara neste ano que agora se fecha sobre nós e se contorce já em dores que não se percebem se são de morte e agonia, ou do parto iminente dum ano novo que se abeira.

Em Inglaterra, nesse ano que é o nosso, haviam montado um presépio cuja Sagrada Família era um jogador de futebol e sua mulher, ambos então famosos, que toda a fama é efémera. Segundo a progenitora, tal presépio adulterado acabou por ser barbaramente vandalizado. Que se violasse a imagem de Jesus e Maria, isso, era secundário, uma mesquinhice e implicação dum grupo de malucos e que em nada escandalizava ninguém. Agora que o Mr. Beckham fosse maltratado, ainda que só em estátua, isso era sacrilégio!– gritava o povo.

Na América, também nesse ano, num liceu, tinham-se proibido as canções natalícias que referissem alguma personagem cristã, pois isso era violar a laicidade das escolas públicas. E assim os meninos haviam-se contentado a cantar músicas sobre bonecos de neve, trenós e Pai Natal. Sim, que se Deus tem de ser banido, o capitalismo americano, esse, tem de ser exaltado sempre, na imagem perpétua do Pai Natal, vermelho apenas por causa da Cocacola. Adorá-la e cantá-la é legal; Jesus, esse é um fora-da-lei, já diziam os poderosos no Seu tempo.

Parece que, a uma certa altura, tais países resolveram que era preciso refazer o presépio à imagem dos tempos modernos e sem referências religiosas. No papel de S. José, o Pai Natal. O que mais nele estranhei era o não-ser das suas barbas: haviam desaparecido! Também isso o zunzum ininterrupto da turba clarificou: queria-se era a juventude, o culto desse físico ideal!

Nossa Senhora havia sido substituída por essa personagem, caricatura criatura da Sonae, a Leopoldina. Se Maria quer dizer ‘Senhora dos Mares’, a Leopoldina é a Senhora do Oceano! Quanto ao Menino Jesus, em nada se assemelhava ao Nosso: era uma criança gorda, anafada, com um pacote de batatas fritas gordurosas na mão inchada de gordura. A sua excessiva obesidade devia-se à exacerbada quantidade de horas que passava em frente às televisões, uma de cada lado, aquecendo o menino em vez do tradicional burro e boi.

Também a figura do pastor se vira radicalmente adulterada: aos ombros trazia cordeiros manipulados geneticamente de pele cor-de-rosa fluorescente, e pela mão conduzia uma horda de ovelhas bem maduras engordadas com os incógnitos venenos para a produção em massa dos ovinos. Tudo é produção em massa: pessoas, cidadãos em massa, de cérebros já moldados, prontos a sucumbir sem resistência às tentações do materialismo consumista.

Pouca coisa de facto sobrara do presépio nosso conhecido. Só mesmo os três reis magos haviam sido poupados. O primeiro transportando o ouro precioso –incentivo ao desenfreado luxo; o segundo, carregado com o incenso, que, assim ouvi, adquirira numa coffee shop: era sempre bom mostrar publicamente apoio às drogas leves.

Como alguém tão pomposamente gritou para cerrar a cena de minha tonta alucinação dentre o magote informe que corria as ruas: ‘Eis, irmãos, o Natal – 5€ levam um e outro igual!’. o corvo

Publicado a 22 de Dezembro de 2004 - Considerada por muitos a melhor crónica

Quem atura esta Literatura?

Tenho por hábito vaguear por livrarias, na minha rotina sempre igual na sua regularidade, que por vezes contorno em inesperadas revoltas contra o hábito, tendo elas, contudo, já virado também costume, por seu turno, pela sua frequência. Pelo puro prazer de ver e saber que não posso ter, e moer-me então em desejo, entro pois nessas casas de cultura (que não são as de Santana Lopes), cultivando o meu saber acerca das novidades editoriais, o que mais recentemente se deu à estampa.

Cada minha visita, porém, me tem feito abandonar cabisbaixo aquele abrigo onde antes encontrava refúgio para a leviandade intelectual do mundo que nos circunda, porque, como dizia Torrente Ballester, «A pior forma de solidão é a de dar-se conta de que as pessoas são idiotas». É desmotivante observar as novidades escritas em português, por lusa pena. É que é mesmo uma pena e, não fora trágico, seria ensejo de chorar. A literatura nacional de maior mercado tornou-se o desprezável equivalente à música comercial das rádios ou às comédias hollywoodescas.

Primeiro, o futebol, de todas a maior prioridade nacional. A proliferação de livros escritos por jogadores/treinadores/dirigentes de clubes ou por adeptos com reputação firmada, nomeadamente jornalistas, bem como obras de descrição dum dada temporada ou da conquista dum certo troféu converteram-se num nicho profícuo de vendas, que inunda as prateleiras. Lado a lado com ele, quase evocando a trilogia dos três ‘F’ portugueses do tempo salazarista, aparecem-nos os livros religiosos, hoje em dia aliados aos esotéricos, tendo-se, nas mentes dos livreiros e das pessoas, esbatido a diferença entre os dois sectores. Este boom da literatura religiosa ganha essencialmente com o famoso Código Da Vinci e com a eleição do novo papa. Assim, uma panóplia vergonhosa de livros sobre ambos os sujeitos têm pululado as livrarias, num claro intuito de vender – todos os livros passaram a ser “o livro que inspirou o Código Da Vinci”, remodelaram-se as capas dos antigos livros de Ratzinger. Na literatura nacional, não podemos esquecer o seu expoente: a filha de Raul Solnado, essa grande profetisa, que nos tem vindo a elucidar sobre o que o Jesus Cristo que nos fala quer de nós para este milénio: dinheiro.

Conjuntamente, não podemos esquecer essas obras-primas que têm vindo a engalanar a nossa produção nacional, como por exemplo o recente “Amanhã à Mesma Hora – Diário de uma Stripper Portuguesa” editada pela prestigiada D. Quixote, ou tantos blogues agora impressos com capa – o mais recente o do ‘Gato Fedorento’, ou a libertinagem das publicações humorísticas, que agora, sob a chancela da Texto Editora, invadem o mercado. Mas como ler é aborrecido e cansativo, os engenhosos senhores das editoras contornam o problema anexando aos livros CDs com o melhor deles, ocasionalmente ainda preenchidos com imagens. Algo está podre no reino da literatura de Portugal... E literatura lhe chamar é já um eufemismo, se não uma total hipocrisia.

Escritor amador como gosto de ser nos meus tempos livres em que livros componho, tenho amigos que se me juntam e confessam a sua angústia de não conseguirem publicar o que pretendem. A tal medo, eu lhes replico simplesmente «O que quer que tu escrevas há-de ser melhor do que aí corre, por isso, não te preocupes!». Ou talvez nos devamos inquietar, porque os artistas, os verdadeiros, amadores que se tentam atirar para esse circo de feras das editoras, vêem constantemente barrados os seus caminhos pela lógica capitalista de hoje, pela mentalidade retrógrada dos nosso leitores. A cultura escrita portuguesa está viva? o corvo

Publicado a 15 de Junho de 2005

Ai, que saudades do Faroeste!

Muitos de nós ainda terão presentes na cabeça as imagens do magnífico e chocante documentário Bowling For Columbine, de Michael Moore em que o lobby americano das armas era denunciado em toda a sua crueza, mas sempre num invólucro de corrosivo humor como só este realizador nos sabe oferecer. Muitos contestaram a película, argumentando ser ela parcial e deturpada. Não escrevo para a justificar, mas dos dados que se seguem, cada um tire conclusões.

No dia 11 de Maio do presente ano, a Secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, afirmou que a segunda emenda à Constituição (que garante o direito das pessoas guardarem e transportarem armas) é tão importante como a primeira (que salvaguarda a liberdade religiosa, de expressão e de reunião). Rice declarou ainda que “devemos ser muito cuidadosos quando começamos a reduzir direitos que os nossos Pais Fundadores consideravam muito importantes”, criticando, assim, subtilmente as organizações contra a tão fácil obtenção de armas na América.

Na Florida, foi aprovada já em Maio uma nova lei que legalizou ainda mais o uso de força mortal, ao permitir que, inclusivamente em locais públicos, desde que o cidadão se sinta ameaçado, dispare contra o possível atacante. Antes tal direito estava apenas reservado à propriedade fechada (casa e carro, por exemplo) e em espaços públicos o cidadão tinha o dever de primeiramente tentar fugir daquele que o ameaçava. Com a nova lei, esse dever foi abolido e, portanto, à mínima suspeita, somos livres de usar força mortal. Ao assinar a lei, o irmão de George Bush, governador da Florida, declarou, naquele jeito que já vem sendo típico dos Bush, «É do senso comum permitir às pessoas defenderem-se.»

Este recente diploma vem recolocar na ordem do dia aquela que é, a meu ver, uma das maiores discussões com que as nossas sociedades modernas se debatem. Cada vez mais a segurança se torna uma prioridade dos governos e, sob a sua bandeira, numa bandeja entregam os cidadãos a sua liberdade. Ironicamente, quanto maior a obsessão pela segurança física, tanto maior é a insegurança psicológica. Entra-se numa insana paranóia do medo. A nossa liberdade é tanto mais ameaçada se pensarmos no controlo exercido por toda a estrutura da sociedade moderna, que nos obriga a deixar rastos indeléveis das nossas actividades, permitindo a reconstituição delas. Após o 11/9, os serviços secretos americanos chegaram a pesquisar suspeitos baseando-se no registo de livros lidos nas bibliotecas públicas – o medieval Índex regressara. Pela segurança, tudo.

A velha polémica americana das armas é só mais um reflexo desta obsessão pelo inimigo desconhecido que se encarna em cada transeunte com um ar menos simpático. Esta lei, incompreensível para a maioria de nós, distantes da louca realidade dos EUA, resume-se a mais uma manifestação desta deturpada hierarquia de valores, em que a segurança se impõe à liberdade. É necessário realizar, por parte de todas as nações, a escolha entre os dois valores. Eu fiz a minha: a liberdade é o valor mais alto e mais humano que define a pessoa, pelo qual se deve pugnar incessantemente, especialmente num mundo, como o actual, em que ela é tão ameaçada ainda por países que se dizem democráticos, mas continuam a atentar contra ela impiedosamente, só que sob formas mais subtis e delicadas – a perícia da malícia é muita e variada. A cada um de nós cabe a sua escolha e dela deriva a nossa perspectiva sobre o mundo actual. Que ele saiba adequadamente perceber que a segunda emenda não é tão importante como a primeira... o corvo

Publicado a 1 de Junho de 2005

A Lição da Educação - II

Continuando a crónica iniciada há quinze dias, aqui se apresenta a segunda vaga de propostas para um melhor sistema de ensino em Portugal; sugestões estas resultantes das minhas próprias ideias e dum debate com um colega.

6. Obrigatoriedade de exames nacionais de final de ciclo. Uma das principais razões da gigante taxa de iliteracia portuguesa é o facto de, em nome do não elitismo do sistema, consecutivamente se transitarem alunos aquém dos objectivos que deveriam ter atingido. Uma forma de evitar esses favorecimentos, a meu ver, merecedores de tanto repúdio como uma cunha, passa pela efectivação da medida proposta. Caminha-se já em Portugal para essa situação e não se deve nunca ceder às exigências dos estúrdios que reclamam o cessar de tais avaliações e o fim da nota mínima de entrada na universidade. No dia 22 de Abril, o Ministro Mariano Gago reafirmou a sua determinação na obrigatoriedade da nota mínima de 9,5 para entrada nas universidades para assegurar um ensino superior de qualidade mínima. O facto de um governante ter de proclamar isto é a prova suprema de que vivemos numa país retrógrado. Se dúvidas ainda restassem do nosso atraso, basta rir-se com as declarações doutros sectores políticos acusando o ministro de ainda mais favorecer o elitismo do ensino. Sem nota mínima, onde estariam os valores do trabalho, do esforço, do mérito pessoal? É importante a afirmação e valorização do labor de cada indivíduo.

7. Redução dos agrupamentos e maior versatilidade na passagem entre eles. A nova reforma do secundário, entrada em vigor este ano lectivo, só complicou mais a vida aos alunos de nono ano que, face a uma maior gama de ofertas, cada vez mais especializadas, são obrigados a fazer uma escolha vital cada vez mais cedo. Isto só vem entravar a mudança de agrupamento numa fase posterior que só com quatro áreas já é complicada.

8. Forte redução da carga horária. Esta é claramente excessiva e nem a introdução das famosas aulas de noventa minutos a solucionou, porque o tempo que se perdeu com elas (cinco minutos por cada hora, em comparação com os horários antigos), foi somado e recuperado em novos blocos rotativos destinados a retomar esse tempo perdido. As manhãs livres deviam acabar e serem substituídas por tardes, o que é muito mais proveitoso. Já no básico, poder-se-ia acabar com disciplinas sem sentido como Estudo Acompanhado e Área de Projecto; tudo disciplinas que visam desenvolver o lado social do aluno, sem entenderem que isso é tarefa multidisciplinar, comum da família, amigos e sociedade em geral.

9. Mudança do currículo no secundário. Devia acabar a separação entre Português A e B e a Matemática devia tornar-se obrigatório para todos os agrupamentos, sem simplificações para os não-científicos. Isso evitaria muitas falsas vocações (sempre, contudo, cada vez menores) em Humanidades, para além de fornecer aos alunos uma bagagem intelectual imprescindível.

10. Fim de todas as reformas educativas, pelo menos durante um longo período. Acaba por ser frustrante e péssimo em termos de estabilidade educativa as constantes reformas que os diferentes governos promulgam e que de ano para ano mudam tudo, frequentemente para pior. Há que elaborar um pacote radical e profundo de alterações que reúna um vasto consenso partidário (ou, pelo menos, de dois terços da Assembleia), aprovar essa última reforma e deixá-la ser aplicada. Só vários anos mais tarde se poderia considerar uma revisão, depois duma inteira geração ter passado por ela e ser, assim, possível avaliar os seus afeitos reais. Melhor educação é possível! o corvo

Publicado a 18 de Maio de 2005

A Lição da Educação - I

Um amigo meu de longa data, filiado desde o início deste ano numa juventude partidária coimbrã, falando comigo numa noite cibernética, contou-me que fora convidado para ser representante dos alunos do ensino secundário na comissão política dessa organização. Honrado com a proposta, aceitou-a. Apesar da minha postura reticente face aos partidos, não pude deixar de me alegrar com o sucesso deste meu colega. A propósito deste acontecimento, iniciámos um curto debate sobre a educação, nomeadamente a secundária – a que nos diz mais respeito. Dessa conversa amena surgiu uma série de ideias reformadoras que estão na base desta crónica.

1. As turmas deviam ser mais reduzidas. É um lugar-comum da pedagogia, mas a verdade é que na mais recente manifestação das associações de estudantes não era uma reivindicação, dando-se primazia a outros assuntos como o fim dos exames nacionais. A título de exemplo, a minha classe contém em si três diferentes que se fundiram numa só, o que leva a uma desigualdade de horários escolares tremenda: enquanto há colegas que usufruem de três tardes livres, um outro terço da turma só goza duma. E, é certo e sabido, quanto menos alunos, tanto mais a aprendizagem tende a ser mais efectiva e proveitosa.

2. A inexistência duma tal variedade de manuais escolares. Se o meu amigo pretendia um livro único, eu, não chegando a esse extremo, admito, todavia, apenas duas ou três variantes. Isto é, para uma disciplina dum dado ano de escolaridade, as escolas só devem poder optar por um número limitado de manuais, de modo a que haja uma muito maior homogeneidade entre os estabelecimentos de ensino do nosso país. É espantoso constatar que hoje em dia a mesma editora chega a oferecer dois ou três manuais para a mesma matéria. A aplicação desta norma facilitaria muito mais a transferência de escola a meio do ano lectivo para os alunos que o fizessem.

3. Uma efectiva intervenção do Estado, com um órgão controlador tanto do preço como da qualidade. É vergonhoso o peso no orçamento familiar que os manuais têm no início do ano lectivo. Outra forma de o reduzir seria assegurar a continuidade dos manuais escolares por um período de tempo mais longo do que o actual, de modo a que os irmãos pudessem, sempre que possível, reaproveitá-los.

4. A mudança profunda dos programas. O caso mais notório que eu e o meu parceiro de discussão comentámos foi o da disciplina de inglês, essa tal que agora também teremos na primária. O programa de inglês ao longo do básico e secundário é simplesmente infantil e ridículo, consistindo, a partir sensivelmente do meio do percurso escolar, duma recapitulação do anteriormente dado, que por si é tremendamente insuficiente para o nível de inglês que é exigido para a sociedade global em que vivemos. Em virtude disto, a maioria dos estudantes é simplesmente medíocre, incapaz de manter uma conversa de nível médio-alto durante um período médio-longo, sem bases para entender um texto literário ou escrever uma carta formal.

5. Fala-se em prolongar o ensino obrigatório até ao décimo segundo ano. Não tendo uma posição definida sobre o assunto, considero, porém, mais importante que se torne obrigatória a creche, que, sendo já uma prática muito comum em Portugal, merecia, contudo, um maior destaque, mais apoio económico e um maior desenvolvimento. o corvo

Publicado a 4 de Maio de 2005

Youth Of The Nation - II

O pensamento é fatigante e é mais fácil ser-se jovem praticante do vazio mental. Tal raça de gentes fazem contentes os manipuladores, senhores que pululam por todo o lado e se aproveitam destes inocentes mentais. Alguns jovens associam-se a juventudes partidárias, numa forma só um pouco mais sofisticada de consumo de ideias feitas, mas que, numa sociedade que é a nossa, os faz ganhar reconhecimento, mas nunca conhecimento. Mais provável é que provem o cunhacimento, cimento de toda a lógica partidária.

Há uma tolerância de opiniões que é indiferença, porque condescendência não é inexistência de diferendos e discussão. Cada um aceita a outrém opinião, mas não se procura apurar a verdadeira. A verdade não é prioridade desta juventude enquanto isso não a prejudica directamente. Por isso não há claridade, não há transparência, só aparência. “O mundo pode ruir desde que não me mate a meio do apocalipse” – vede o espiritualismo desta gente, tão desapegada da matéria e das coisas do mundo! Ironia, quão doce és, que nos fazes dizer verdades ao revés!

É preciso o confronto para que surja uma nova ordem. Mas esta é a juventude do “peace and love and money”, como pregava o anúncio recente dum automóvel. Não percebe ninguém, porém, como alguém escreveu, que “a paz dos homens é a guerra das ideias”? Não, ninguém entende, que este é o tempo da iliteracia que a todos se estende, como um polvo que sobre todos esparge a sua tinta negra e a ignorância faz-se regra. Ninguém precisa de entender, só tem de tender para onde tende a massa, o grupo – disso o sucesso depende, nem que isso signifique que o jovem – que o homem! – sua liberdade a uma caixa quadrada venda. Venda lhe tolha os olhos!

Nem a verdade nem a liberdade são bandeiras desta geração que só quer bandejas. Como se podem os jovens revoltar? Revolta implica pensamento. Revolta pede movimento. Mas é inércia o sentimento que doma e come toda esta geração. O mundo parte-se em bocados, o fim caminha a passos largos e aqueles que serão os governantes de amanhã dormem encostados, desencontrados do real. O mundo vai mal, mas não é esta juventude mole que o poderá mudar; ainda que o vá mandar, não o vai emendar. Onde está a rebeldia doutrora, meus irmãos? No armário em que o povo nos coloca nesta idade? Não sentis já o cheiro a mofo que o preenche?

Não, vejo-me ao espelho e comigo olho toda a juventude. Não encontro nos seus rostos o fulgor que construiu maios de 68 e hippies, ou o que monta agora marchas de liberdade no país do cedro, Líbano distante. Não, a juventude portuguesa o melhor que consegue fazer é trancar a Porta Férrea e pôr uma carrinha à frente porque a meia dúzia de gatos pingados que a velavam têm de ir tomar um café. Não, a juventude de hoje só consegue protestar para não ter de pagar propinas para lhe sobrar mais dinheiro para ir à discoteca. Não, a minha juventude só consegue reclamar para ter educação sexual porque infelizmente são todos uns coitados ignorantes que nunca ouviram falar de sexo e afins. Não, esta juventude só consegue lutar pelo aborto porque o prazer libidinoso deu para o torto e mais vale ter fora o caroço do que ter de tratar do bebé moço.

Assisto à sesta deste bicho que sou eu e os iguais a mim e ao declínio do nosso poder, ao enrouquecer da nossa voz, ao enlouquecer de nós, que só a loucura justifica esta decadência. E aguardo o fim da nossa demência... o corvo

Publicado a 20 de Abril de 2005

Youth Of The Nation - I

O título desta crónica é homónimo duma música dos P.O.D. cujo refrão é precisamente este grito cantado pelo vocalista e um coro de jovens: We are the youth of the nation (“Nós somos a juventude da nação”). A letra acaba, contudo, por revelar a delinquência, violência e decadência da massa escolar de alunos, mostrando bem que juventude da nação é aquela apregoada pelo cantor. Enquanto jovem, não posso deixar de reflectir sobre a minha condição e a da minha faixa etária: o nosso estado, os nossos objectivos, os nossos problemas, a nossa identidade. Os jovens são a minha comunidade, a juventude é a minha sociedade. Porém, eu olho em volta, volto a face e peço que me enterrem a cabeça na areia, tal avestruz, porque não encontro luz ao fundo do túnel para os meus irmãos.

Sinto, apalpo mesmo, nos seus rostos e nas suas mentes, em tantos, uma indiferença a que tudo votam indiferentemente. São agnósticos do mundo. Face a qualquer assunto, encolhem ombros, enrugam a face, calam a boca: nada é objecto de opinião entre eles – opinar é trabalhoso, empinar ideias feitas, menos moroso. É este o nosso tempo: a era dor produtos light, a época do microondas. Um tempo em que se compra tudo em pó e do pó tudo se ergue ao fim de cinco minutos, para logo a gula o consumir e tornar pó de novo. Um tempo em que Roma e Pavia são feitas num dia, porque só para um dia são precisas. Vivemos num mundo descartável.

Para quem, contudo, a mente deixa dormente, mente-se se se disser que são ideias complexas, essas que os jovens na sua preguiça tomam para si. Não, tudo se resume a escassos esquissos, e não porque a obra final ainda está longe, mas porque não interessa mais do que ter a ideia geral. É este o nosso tempo: o tempo dos livros de resumos e dos resumos dos resumos, onde a informação é em segunda mão e, assim, é o tempo do ouvi dizer que se ouviu falar, dos boatos que batem em campanhas eleitorais e tantas situações mais. É o período da segunda mão que a criação é dolorosa e custosa, e ninguém quer ter calos nos dedos.

Esta indiferença, este contentamento com a contenção do saber, com o não ter mais que meio rabisco sobre tudo, incomoda-me, mais ainda porque se mostra como moda, numa soberba de exibir ignorância que me recorda a nobreza doutros tempos e que aqui encontra a sua reencarnação, numa massa jovem que se sacrifica por tendências voláteis, por um consumo que é sumiço do dinheiro que nem é seu. Como bicha-solitária, esta juventude definha as finanças da casa para satisfação do seu egoísmo, em vez de tudo arranjar por si mesma para si mesma, numa solidão que lhe dita o nome com que a coroo. Coro de vergonha por ver que esta juventude que é a minha não sonha com nada mais alto, não quer dar o salto para um futuro incerto.

Este materialismo é só o reflexo do niilismo intelectual a que tudo se reduz entre os jovens. A quota que era do espírito transborda na ânsia de satisfação para a carne e aí procura o colmatar da mente que lhe falta. Não percebem que o saber tem uma vantagem: não ocupa lugar. Mas os brinquedos que adquirem para distracção da inocuidade em que transformam as vidas deles não cabem para sempre nos recantos em que os armazenam. A necessidade de ter enche-lhes a alma e logo, pois, para que o novo venha, deitam fora o velho. A tudo é dado prazo de validade – perdeu-se a noção de eternidade. Ninguém mais luta por vencer a memória curta humana, por se imprimir eterno nas páginas da história, por ser herói e artista. Quer-se tudo temporário, porque compromissos a longo prazo são promessas que não agradam fazer, porque só uma regra lhes parece regular a vida: o devir, a mudança, uma perpétua dança entre experiências. Os jovens hoje são atletas que passam a vida a mudar de pista, mas nunca arrancam da partida, porque nem sequer têm meta ou mote que os guie... o corvo

Publicado a 6 de Abril de 2005

13 March 2005

Um problema dos diabos

Perdoe-me o leitor esta nova incursão no campo teológico-filosófico, área de pensamentos intrincados e não muito propícia a ser posta em crónica. Contudo, uma curta discussão amigável me lançou em cogitações sobre o tema deste texto e não pude evitar dar-lhes um corpo escrito, que aqui quis partilhar. Me interrogo pois sobre essa figura que é o diabo.

Há quem diga que a existência do diabo é requerida pela liberdade com que Deus quis abençoar o homem. Deus seria a fonte do bem e o diabo, a do mal, permitindo tal dicotomia maniqueia o exercício do livre arbítrio humano. Mas será mesmo o diabo uma exigência do nosso alvedrio? Analisemos a estrutura da liberdade. Esta só existe se houver escolha. Há escolha se houver pelo menos duas opções que são, se não totalmente, pelo menos parcialmente, opostas. Ora, o mal que o homem pode engendrar por si existe porque Deus entendeu, e bem, que mais vale ao homem ser livre que feliz. O que eu defendo, é que o mal é independente da existência duma figura que o encarne e promova. Isso revê-se na própria história cristã de Lúcifer, aquele que transporta a luz, numa tradução etimológica.

Lúcifer, ainda anjo, ainda não diabo, e num tempo em que tal criatura nem sequer existia, pôde optar por seguir o caminho do mal, numa decisão livre e assumida. Daqui se conclui, que o mal existia antes do diabo, pois só o mal poderia levar a que um anjo se corrompesse para ser diabo. O diabo é posterior ao mal. Daqui se concluiu, que a inexistência de diabo em nada atenta contra a minha liberdade e o poder do mal é tão forte numa situação sem diabo como com ele: o mal devia já ser muito poderoso, para poder fazer com que a criatura mais alta de todas, o melhor anjo, se voltasse contra o seu senhor e quisesse ser seu antagonista. Deus deixava-nos ser livres, e bem livres, sem diabo. Se se afirma que o diabo existe, então Deus consentiu nele.

Na sua omnisciência, Deus sabia decerto que dos anjos que criava, um deles lideraria uma rebelião contra Ele e contra os homens. Se Deus consentiu no diabo, parece-me que foi só para ter o prazer de o derrotar no Apocalipse. Porque de resto, não é preciso diabo para nada – o ser humano já é mau por natureza, e ainda que o não fosse, está na sua natureza compreender o bem e o mal e poder optar livremente por um e por outro, isto, independentemente da existência do diabo ou não.

Só se evita este problema se o diabo não tiver sido a degeneração duma criação de Deus. Mas então ele é uma força primitiva, tão primordial quanto Deus. Mas porque não o aniquilou Deus, se Ele é omnipotente e, pelo menos assim querem que creiamos, mais poderoso que Lúcifer? Se Deus não pune o diabo, que sentido tem que puna os homens pérfidos condenados ao Inferno? Se o não pune, é porque nele consente ou não tem poder para o destruir, porque sabe que o diabo é tão poderoso como Ele. E assim o universo assistira a uma invisível Guerra Fria...

Ainda recentemente o Vaticano abriu um novo curso sobre exorcismo, num gesto incompreensível para mim, pelo menos se entendermos exorcismo na acepção comum do termo. Este não é o meu Deus. O meu Deus é amor, não consentiria no diabo. Se há diabo, parece-me então que Deus é tão diabo como o diabo. Só me resta pois concluir: o diabo que vá para o diabo! o corvo

Crónica Inédita

Semana Passada

Há semanas atribuladas que merecem ser contadas. Desculpem-me os leitores esta crónica se debruçar sobre a minha vida pessoal, mas julgo que os três acontecimentos que narrarei a seguir são fortes em mensagem.

Na minha escola, encontrava-me ligado à Associação de Estudantes, ocupando o cargo de director do jornal escolar, um projecto promovido pela lista que actualmente detém o poder. Aconteceu que dinheiro desapareceu, o que causou, naturalmente, um clima de desconfiança geral entre todos os membros da lista. Com um grupo significativo, evocando falta de unidade e condições para prosseguir o trabalho, demiti-me. Foi um acto que me custou bastante. Crera eu ali achar mudança, honestidade, humildade – essas palavras chaves que tanto haviam sido apregoadas durante a campanha. Fiquei defraudado. Mais isto me convenceu do lugar-comum que é o dito de que o poder corrompe. Não há poder que não se constitua que entre os honestos não tenha os corruptos. Todo o poder é uma desilusão.

Um amigo meu foi ao Dia da Defesa Nacional na terça, respondendo às suas obrigações enquanto maior e cidadão masculino do estado português. O que ele me relatou, que eu já em anos passados ouvira doutras bocas, reclama ser descrito e tornado público para que se conheça claramente o absurdo e truanice que em tal dia são praticados. Começa o quadro do dia com o degredo da juventude nacional, embebida e embebedada em Licor Beirão, cumprindo um “dever nacional”, assim lhe chamariam os oficiais que os interpelaram a consumirem bebidas alcoólicas nacionais. Mas os sábios conselhos dos nossos oficias não se cingiram a esta recomendação, exortando os jovens a se aproveitarem de jovens estrangeiras para lhes mostrarem como o nosso país é bom. Sim, que – como disse outro oficial – “o nosso país é pequeno, pobre e feio, mas é dever nosso protegê-lo.” E vejam, leitores, qual a qualidade daqueles incumbidos de tal missão... A acrescentar a tudo o já contado, há o uso repetido de linguagem explícita, grosseira e baixa, tanto por parte de oficias masculinos como femininos – viva a igualdade dos sexos! E, por fim, no arrear da bandeira, depois dum aviso sonoro para que todos respeitassem o símbolo máximo da nação, ainda a bandeira não está toda descida, e um oficial se começa a rir, e com ele, todos, exército e mancebos. É esta a comédia do Dia da Defesa Nacional.

A tragédia da vida é outra. Uma colega que me era muito querida anunciou-me, a mim e a outros colegas, que vai ter de abandonar a escola para ir trabalhar e assim ajudar a mãe. Deixa para trás os seus sonhos, os palcos de teatro que ela tanto queria conquistar e tão bem o fazia, numa arte e mestria incomparáveis! De tudo abnega pela mãe, por decisão própria, sem que ninguém a tenha obrigado. São pessoas como ela que me fazem crer que ainda existe algum bem no mundo, que nem todos os corações humanos são podres e insensíveis, de que o altruísmo – o heroísmo! – ainda é possível nesta terra decadente. O seu gesto foi uma das mais poderosas lições de moral e vida que algum dia me pregaram. Que eu saiba aprender com ela na memória saudosa da sua pessoa que nunca me deixará. Obrigado por tudo, Cláudia! o corvo

Publicado a 16 de Março de 2005

Preto no Branco

Um dos maiores ganhadores da noite de eleições não foi entrevistado. Falo do voto defendido por um nobelizado português no seu último livro e por um anónimo movimento (www.umrumoparaportugal.com): o voto em branco, que sofreu um incremento fenomenal. Este quase duplicou quando comparado com 2002, atingindo os 1,81% e saldando-se em mais de 103 mil votos. Em Lisboa foi a sexta força e valeria um deputado. Na nossa terra sofreu um aumento exponencial, atingindo os 250 votos, mais que todos os partidos menores somados, que se ficaram pelos 148.

O voto em branco é uma bomba nuclear da democracia, que está nas mão dos donos de todo o poder num regime assim: o povo, que contudo ainda não se apercebeu do enorme potencial que reside nesse gesto de expressão tão inequívoca. Dum boletim assim deduz-se, preto no branco, insatisfação e descontentamento, parelha de sentimentos que podem abarcar um sem número de diferentes interpretações. Dentro desta panóplia de leituras, entre os que acham o branco um sinal antidemocrático e os que nele vêem uma tentativa de melhorar o regime, encontra-se um denominador comum, que todos confirmam: quem assim escolheu, mostra uma clara recusa do leque que lhe é oferecido. Porque na democracia, a cavalo dado olha-se o dente.

As razões por detrás de tal negação da ementa política são, logicamente, a abjuração dos «políticos incompetentes» do Sr. Silva, para o chamar como o Sr. Jardim, que jardim algum gosta de silvas. O voto é branco é um grito de quem pede uma reestruturação duma política que olha e vê caduca, oca de ideias e rouca de tanto bradar demagogias e populismos. É o voto de quem não se revê, mais do que em caras, em partidos em cuja ideologia (se é que há alguma no seu gene) não encontra a resposta que sente que o país precisa. Um voto contra o sistema? Certamente, quando, por sistema, o sistema nada concretiza, banhando-se em promessas vãs.

Muitos recusam o voto em branco, apelidando-o mesmo de absurdo, por o julgarem um tiro no escuro. Mas só se for um tiro no escuro que é a noite da nossa política, tão embrenhada, como todos sabemos, em erros e enganos. E muitos tiros no escuro atingem decerto o alvo – o acaso levará uma bala ao destino. Consideram-no tantos sem sentido, porque não elege ninguém nem exprime nenhuma alternativa. Contudo, também não o exprime o boletim para quem assim vota, não achando em candidato algum uma opção. Quem vota em branco vê que a política está preta. O seu acto é um pedido de inovação, de mudança. É uma oração por uma outra forma de fazer política. Quem assim reza, pode não saber que utopia é aquela que pede, mas sabe que precisa de ser pedida, e só lamenta que os homens não se sentem para a discutirem e do abstracto dela passaram ao físico.

O Movimento que surgiu nestas eleições foi vital para que os votantes em branco percebessem que não estão sozinhos, mas que se podem organizar e cooperar, articular uma estratégia. O Movimento fez o eleitor branco tomar consciência do seu grupo e arranjar uma forma de expressão pública, que se materializou em cartazes e reportagens acerca deste fenómeno. Acima de tudo, teve o mérito de provar que o voto em branco é um voto útil (este sim). Bons augúrios nos esperam se esta forma de manifestação aumentar futuramente, colocando a nossa política entra a espada – arma branca – e a parede, exigindo-lhe mais. Aguardemos com expectativa. o corvo

Publicado a 2 de Março de 2005

26 February 2005

Ilações das Eleições

1. O gozo do espectáculo há muito se perdera: a vitória rosa era já antes da noite claramente afirmada, firmada em sondagens (aquelas que Santana contava processar) e no comum senso (para muitos sonso). Insosso deve pois ter sido o êxtase socialista, desprovido do gosto do inopinado. A dúvida inquietante era ainda a maioria absoluta, mas até o sabor de tal surpresa roubou Sócrates aos seus, de tão certo estar nela. Talvez por tudo isto, o desfile que é costume no triunfo não se viu cantado por caravanas de carros correndo a cidade. Lamento o gordo sucesso: é o cessar dum debate que era tão preciso e que o absolutismo dispensa.

2. O descalabro laranja é ímpar e imparável se acentuou à medida que o sufrágio se terminava. Santana é o fenómeno axial que percorre, unindo e dando coesão, todo este naufrágio. A seta laranja surge-me aos olhos desfasada da realidade, quando a comparo com a linha dos resultados. Mas tal queda era uma aposta previsível, até pecou por não ter sido mais. Santana retratou-se, retractando-se do fracasso, a ele mesmo, num discurso de muitos gumes e facas. O bebé morreu estrangulado nos tubos da própria incubadora. Fez-se de mártir para o bem do partido, partindo dele. Terá setenta virgens à espera no céu.

3. Os comunistas e o seu partido satélite (ou direi mais parasita?) ecológico recuperaram o seu terceiro posto, acompanhando a suprema subida da esquerda. Também no nosso concelho conseguiu inverter os resultados tendencialmente descendentes, ganhando pouco menos que uma centena de votos. Eis mais um caso em que a mudança de líder recompôs a marcha: a rouquidão de Jerónimo ainda teve força para cantar vitória.

4. Os democrata-cristãos sofreram uma ligeira derrota quando olhando para o passado, mas uma forte desilusão se considerarmos o futuro a que se candidatavam. Portas abriu a porta para um substituto, no melhor discurso da noite: viu-se um político sem hipocrisia, ave rara nesta selva que é a política nacional. Era tal a translucidez do seus discurso sem rodeios e malabarismos demagógicos ou vitimizantes que o fez, se não um vencedor, por certo não um vencido. Como Santana, a saída de Portas abre um futuro mais promissor do seu partido. O seu sempre sorriso não abafava o quase-ódio que lhe era movido por uma camada da população a um nível irracional, mas que latejava forte. Um novo líder não terá tal estigma absurdo, mas real.

5. O Bloco fracassou, como os populares, os seus objectivos declarados, mas isso quase se torna irrelevante quando olhamos para a sua astronómica subida (bastante previsível e aqui pecou-se por defeito). Tal passo de gigante já amputou o Bloco, contudo, de duas daquelas que eram, a meu ver, das características mais apelativas dele: a inexistência da imagem dum líder e a rotatividade dos lugares no Parlamento, cujo fim Louçã já anunciou. O risco do Bloco é tornar-se um partido institucionalizado, como todos os outros. A adesão que recebe nas camadas mais jovens apresenta-se-me como consequência de ser um partido muito recente, cuja ascensão pode ser seguida por uma nova geração, a primeira posterior à Revolução dos Cravos, tendo em conta que já passaram 30 anos.

6. Um dos maiores ganhadores da noite não foi falado. Não convém muito, especialmente num país onde cientistas políticos o intitulam de ‘antidemocrático’. Falo do voto defendido por um nobelizado português no seu mais recente livro e pelo Movimento Um Rumo Para Portugal (www.umrumoparaportugal.com): o voto em branco sofreu um incremento fenomenal. Calculo que esse politólogo, em consonância com o dito na entrevista que concedeu à revista ‘Pública’, esteja agora a “olhar com atenção” essa “subida interessante”. O voto em branco quase duplicou quando comparado com 2002, atingindo os 1,81% e saldando-se em mais de 103 mil votos. Em Lisboa foi a sexta força política e valeria um deputado. Na nossa terra sofreu um aumento de aproximadamente 175% face às legislativas anteriores, atingindo os 250 votos, mais que todos os partidos menores somados, que se ficaram pelos 148 votos. O voto em branco provou ser uma opção digna de crédito e promete grandes surpresas para o futuro. o corvo

Crónica Inédita


O Quinto Império do Cinema Português

Alguns dir-me-ão ignorante e um filho da massa. Mas a minha opinião é descendência somente de mim próprio. O que aqui venho anunciar é a decadência do cinema português. O cinema português está morto. E o pior é que na sua urna cerrada vê a casca de noz que era o universo onde Hamlet era rei! E assim cego vai...

Há poucas semanas estreou nas salas portuguesas o mais recente filme de Manoel de Oliveira: ‘O Quinto Império – Ontem como Hoje’. E, de facto, eu anseio pelo Quinto Império do cinema nacional, essa utopia tão bela!, porque ontem, como hoje, a sétima arte lusa morre, morre lenta, e não virá mais numa manhã de nevoeiro, que as bilheteiras só abrem à tarde. A fita mais vista no ano passado (‘Shrek II’) teve o quádruplo dos espectadores de todas as películas lusitanas juntas. E, curioso!, anexo ao artigo onde o soube, expressava-se o espanto de incompreensão desta situação, não percebendo ninguém ao certo o sucedido.

Ai, é este argueiro na vista que nos tolda! E com uma trave assim cravada no olho, dificilmente a câmara sonha com beleza na sua imagem, que nunca se viu míopes fazendo fitas, só neste país onde tudo ocorre e decadente o cinema morre. O cinema português está invadido por um complexo de inferioridade, por uma arreigada convicção da existência duma sétima arte própria e lusitana, mas a tal ponto o filmado é típico português que as salas se enchem na sua contemplação. Ah, ironia, quão doce és! E ah, cegueira, quão oportuna!

E falam que é arte o que o ecrã grande revela a meia dúzia de loucos que se aventuram no deserto de Alcácer-Quibir da cinematografia lusa, e afirmam que é genialidade. Não, não é arte nem génio, é mau jeito. Há quem, como a revista francesa Cahiers du Cinéma, exalte João César Monteiro (o homem por detrás da absolutamente negra ‘Branca de Neve’) e Manoel de Oliveira. Mas hei de dar crédito a uma revista elitista, desfasada, que manifesta uma falta absoluta de respeito pelo leitor/espectador? Insultando o público só resta mesmo elogiar o realizador; se não, quem compraria tal publicação?

Não, não é arte nem génio, é mau jeito e é mau gosto. Os filmes portugueses pecam em cada cena que a bobina descobre e ao espectador expõe. Primeiro, em Portugal não há uma classe de actores, mas há muitos actores sem classe. É frustrante saltar de película em película e achar sempre os mesmos actores, eternamente, como se cá dispuséssemos somente desses poucos que se repetem em cada monótono filme português. Segundo, as partes técnicas da fita são descuradas duma forma repugnante. Raras, raríssimas!, são as bandas sonoras; o tratamento de som é nulo; o de imagem, menor; e os argumentos, frequentemente, são inócuos e enfastiadiços.

O cinema português é claustrofóbico. Porém, eficaz é o seu acérrimo esforço para exorcizar os espectadores. A cinematografia portuguesa carece terrivelmente dum sentido de marketing. Eu não posso honrar um morto cuja existência (falarei melhor se escrever não-existência?) desconheço. O nosso cinema é um fantasma que, infelizmente, não assombra nada, muito menos o escuro das salas de cinema– essas são para ele casas abandonadas. «Existir é ser percebido.», dizia Berkeley, e o cinema português não existe porque não é percebido, notado.

Mais grave, porém, é quando isso tenta. Os produtores portugueses não têm noções cinematográficas. E, assim, se parte numa loucura sebástica para a feitura dum trailer. Para o homem de cinema português, um trailer é uma cena tediosa do filme passada a eito. Para além do mais, os filmes circulam nos círculos restritos de Porto e Lisboa, mas como podemos ansiar que eles mais se espalhem pelo país se não são vistos? Este é o nosso ciclo vicioso...

Anseio pelo dia em que alguém tiver a coragem de fazer um filme dito americano (esse conceito vago que define para o invejoso cinema nosso tudo o que tem sucesso) em Portugal. Dito curto, um Filme (escrito com letra capital). Nesse dia os corvos– minha raça!– poderão rejubilar-se com os cadáveres de fitas passadas enfim enterradas (que elas agora ainda se contorcem em convalescença funérea). Nesse dia, terá nascido o Cinema Português: é a aurora do Quinto Império, e o Ontem não será como Hoje. o corvo

Publicado a 16 de Fevereiro de 2005

Hipocentro: alma

E o maremoto tudo levou (e lavou). Ficaram paisagens macabras de destruição para os olhos chocarem a alma. Afirmou o fotógrafo Cartier-Bresson que num retrato procurava o silêncio dalguém. Talvez seja por isso que não conseguimos ouvir os gritos de pranto e revolta nas fotos que chegam às redacções dos jornais. Contudo, causou espanto, facto irmão do 9/11: tal como a pequena igreja junto às torres desabadas que sobreviveu intacta, assim se conservaram muitos dos Budas da Tailândia. As imagens de Deus resistiram e questionam-nos: onde estava Ele naquele dia? A inevitável pergunta da teodiceia que nos assalta...

Se a pergunta se nos ergue, é pela nossa concepção judaico-cristã de Deus, que Lhe chama criador, bondoso, omnipresente, omnisciente e omnipotente. Ora como se explica que um Deus assim tenha composto um mundo tão tosco, que se agita em convalescenças várias, carrascas de tantos? Parece-me a questão tão pertinaz, que sou tenaz em querer aqui indagar o crer. É que o hipocentro de toda este drama é, no fundo, nossa alma.

Tarefa árdua e labuta complicada. Se Deus criou o mundo e suas leis, que a ciência tão bem revela, devia ter feito nossa casa sem mácula e bela. Mas a orbe flutuante que é o mundo, sabemo-lo bem, é longe da perfeição e sempre dela aquém, imperfeita como a humana natureza. Ora então Deus ou não a criou ou ela sozinha degenerou. Se, porém, ela decaiu pergunta-se se o Criador já não saberia que isso ia acontecer. Se não sabia, não é omnisciente, e logo se vê privado do sábio adjectivo. Mas se sabia, então não é bondoso, pois criou um mundo que iria tornar-se mau e causar sofrimento aos seus filhos, os humanos.

Se Deus não fosse criador (podendo assim continuar a ser bondoso e omnisciente), ou a matéria se teria desenvolvido por si, ou seria obra duma força maligna. Então atormenta a alma a interrogação inquieta sobre porque Deus não o corrigiu. E de novo duas vias nos são dadas: ou Deus não é omnipotente (e como tal não o podia emendar) ou não é bondoso, e não está pois interessado em o remendar. Pela primeira escolha, em vez dum senhor omnipotente, teríamos um peripotente, isto é, com muito (peri, em grego, muito) poder, mas não um infinito e desmesurado, como a dor que abala a terra hoje. Seguindo a segunda, voltaríamos à terrível ideia de Descartes dum génio demoníaco acima de nós.

A minha mente inclina-se a arriscar mais uma tentativa de reabilitar o Deus criador. Ele poderia ainda criar o nosso planeta, não fora Ele omnipotente. Se ele não fosse omnipotente, estavam esclarecidas as falhas da orgânica geóloga da nossa casa, pois significaria que Deus não poderia ter feito melhor na sua peripotência. Mas para que continuasse a ser um ser bondoso, teria também de não ser omnisciente, pois se soubesse a priori que a sua criação era defeituosa e traria, em virtude disso, grande sofrimento ao humano género, então, Deus, sabendo tal, se persistisse na sua criação, seria cruel.

Todavia, houve outra via ainda não mexida que se agita para ser considerada. Parte da negação do Mal, dizendo que ele não existe enquanto algo autónomo. Limita-o a uma ausência de Bem. Como certo filósofo expôs: «Não há trevas, somente ausência de luz.» Deste ponto de vista, toda a catástrofe era só fruto duma falta, ausência de Deus. Mas se assim fosse, Deus não seria omnipresente, pois só a sua peripresença poderia justificar a sua ausência momentânea.

Há ainda, porém, quem proclame que do Mal pode vir grande Bem e que Deus não permitiria o sucedido, se dele nada de positivo se retirasse. Mas se quer ilibar Deus com este argumento, é, horror!, como se afirmássemos que para Deus os meios justificam os fins.

A terra é fecunda em turbulências nas nossas existências, inquirindo-nos com dúvidas que reclamam as nossas respostas ou, pelo menos, pensamento. Podia temer que Ele fosse só ilusão, mas a alma que em mim arde o nega. A existência de bondade neste mundo é algo tão sobrenatural como a existência de Deus. Obtive-se o maior volume de dádivas de sempre para ajudar as vítimas do Sudeste asiático e da Somália. Esta última repetidamente esquecida nos telejornais, que África é bom que fique na penumbra: choca ver o mal que se quer esquecer...Corvos, crocitai e acordai os homens! o corvo

Publicado a 2 de Fevereiro de 2005

Partidário

Na rotunda da Nacional 1, que atravessa a Mealhada como um rio e que deixa que se vire para Casal Comba, confrontam-se dois grandes cartazes, um socrático, outro santanista. Sendo pendulares minhas migrações, todos os dias os confronto e sucessivamente, estranho!, eis que encontro o socialista rasgado, mal colado ou desaparecido. Não percebo o bizarro caso, se vem de humano ou natural erro. O que é certo é que o laranja, desta feita, não fez publicidade enganosa: resiste realmente colado às chapas metálicas onde o puseram «contra ventos e marés».

Esses cartazes, que agora aí se erguem, continuam estrada fora até Coimbra, onde não menos inocente é a campanha. É de espantar ao forasteiro os ternurentos anúncios que pululam na cidade, anunciando a «brevemente uma realidade» do hospital pediátrico que enfim chega para substituir o já rendido à idade. O que é curioso é que esse novo edifício de Coimbra só agora vê começados os alicerces. É um brevemente demorado, aquele que nos prometem, se considerarmos que em Portugal não há obra sem atraso, como a Biblioteca da Mealhada...

Esta campanha, neste período do campeonato, surge suspeita a meus olhos e a de tantos outros, nomeadamente a CDU, que já contra ela protestou. Mas as diversões desta pré-campanha não se fecham aqui. Ainda na mesma cidade, foi com surpresa (já devia há muito ter aprendido a não me espantar com estas estultices que grassam pelo país!) que reparei num cartaz do CDS desgastado pelo tempo e uso que ostentava uma velha lista de candidatos por Viseu. Erro da agência que devia colocar os cartazes, que acabou por cobrir o erro com um anúncio do PSD. No mínimo caricato, mas não o é toda a política portuguesa agora?

Temos pena que o espectáculo das listas tenha durado tão pouco, pois quão divertido se afigurou! Auto-retrato da política portuguesa. Os dois únicos partidos com possibilidade de ganhar mostraram gostos e práticas masoquistas, com facadas auto-infligidas, se quisermos utilizar a mais recente terminologia política. Meio PS atacou PS, protestando pelos lugares atribuídos nas listas, e o mesmo, em escala mais grave, sucedeu com o PSD. A ânsia de poder causa sempre conflitos. É uma virtude desse pomo da discórdia que tantos almejam.

A situação política que temos em Portugal neste momento é, nalguns fortes aspectos, análoga àquela da América em Novembro passado. A escolha no país para lá do Atlântico era complicada: quer um, quer outro dos candidatos não se revelava minimamente competente para o lugar; se Bush já tinha esbanjado provas da sua inabilidade política, Kerry também não oferecia muito mais segurança nem uma visão para o futuro animadora. O panorama luso é uma réplica menor deste: dum lado, temos Santana; do outro, Sócrates; sem que nenhum se apresente como um sério estratega que possa solucionar as questões do país.

A alternância irritante e partilha do poder entre estes dois partidos maiores, apenas quebrada pela entrada do PP nestes dois últimos governos, é desanimadora. Basta observar o sector da educação, aquele que me atinge mais directamente, que tem sido alvo de sucessivas reformas de inúmeros governos, que não conseguem acordar num modelo pedagógico. Em Portugal, não se consegue ter um fio unitário de poder coerente: cada governo resume-se a moldar as coisas à sua forma, não reciclando o que herdou, mas destruindo-o por completo.

De facto, este é um mal intrínseco à democracia do nosso país. Para que um partido da oposição possa alcançar o poder, tem necessariamente de contrariar e combater as medidas tomadas pelo executivo em posse. Se prometer o mesmo, ninguém votará nele, pois que compensam as rédeas do poder em mãos diferentes para o mesmo galope? Só certificando que vai alterar as políticas do governo a que se opõe nas mais diferentes áreas é que a oposição pode ansiar sair vencedora nas urnas. Em conquistando S. Bento, logo renega e deita fora as velhas medidas anteriores e tudo renova e faz a seu jeito. Mas quatro anos depois, o mesmo lhe sucederá. E, assim, nos achamos presos neste ciclo vicioso...

Há que dar um sinal aos partidos de que este esquema caducou e é inaceitável: só com uma maior cooperação entre todos podemos aguardar algo de melhor para Portugal. Mas ninguém pode cooperar chamando-se de oposição...o corvo

Publicado a 19 de Janeiro de 2005

Ano Novo, Mealhada Nova

Estamos a um dia do dia de Reis, que encerrará a quadra natalícia. Entretanto, passámos de ano e começamos a avançar no ainda tenro mês de Janeiro, que se vai desbravando pouco a pouco. Atordoado talvez por estas mudanças cronológicas, estava-me a ser difícil achar assunto para esta crónica, pelo que resolvi fazer dela um cacho de pensamentos sobre o tempo que passámos e o espaço mudado em que agora caminhamos quotidianamente: a nossa terra.

Foi pois assim que no último dia do ano já ido comecei a minha peregrinação pelas paisagens mealhadenses. Se buscava achar algo de novo, tinha, obrigatoriamente, de começar tal caminhada na maior novidade que a terra ergueu: a sua ínclita biblioteca. O parto foi longo, sucessivamente adiado para desespero daqueles que, de forma peripatética, percorriam círculos na sala de espera. Mais dramática a demora foi quando se viu feita a biblioteca e esta apenas esperava o recheio que lhe competia guardar. Que tal período se arrastasse tanto constituiu uma situação quase degradante, acima de tudo exasperante, para os sequiosos de descobrir o nosso edifício do saber mealhadense, agora posto mesmo no centro da cidade.

Na demora tão longa de tudo acontecer podíamos ver um símbolo de como tarda o saber, cuja vinda foi abrandada por um concurso público de mobiliário. Chega quase a ser ridículo, um paradigma de todo o país nosso. Por burocracias que se arriscam a superar os piores pesadelos de Kafka, tudo se delonga conduzindo à loucura qualquer um. E depois, espantam-se os médicos que Portugal seja dos países onde mais anti-depressivos se consomem! Por sorte, não sofri tanto com o atraso de abertura da Biblioteca Municipal que tivesse de tomar um Prozac.

Valeu a pena? Confesso que sim. Deixo de lado a pena satírica, que sou obrigado a elogiar a obra com que nos presentearam, obra essa duma grande qualidade. A BM (Biblioteca Municipal) é de facto um espaço aprazível e onde se respira e vela pelo gosto pela leitura. O espólio literário é devedor de certas contribuições que se fizeram e que só contribuíram para enriquecer mais a quantidade de livros que, esperemos, seja sempre crescente, tanto em número como em qualidade. Mas não só de livros são hoje feitas as bibliotecas. A BM está apetrechada de vários computadores modernos, bem como dum espaço de audiovisuais onde se podem ver comodamente DVDs vários. Também nela achamos um confortável espaço para a leitura de várias revistas, cuidadosamente seleccionadas. Os mais pequenos têm um espaço que é monopólio seu e os deliciará. Fiquei, de facto, deveras surpreendido com a qualidade, material e literária, da Biblioteca e espero poder regressar lá várias vezes, que bem me deixou esse desejo.

Continuei pela avenida abaixo, a tal semaforizada, com semáforos já sem botões para os peões carregarem para mudar a cor do sinal. Não que isso lhes interesse muito: verde ou vermelho, sem carros, é tempo de passar. De facto, parece-me que concelho da Mealhada e sinais de trânsito não são duas expressões muito compatíveis: basta olhar para as recentes alterações no Luso, de modo nenhum felizes. Indo portanto por essa rua, descubro um grande painel branco, ainda embrulhado em plástico transparente, daqueles em que se colocam cartazes publicitários. Poucos o notaram, mas já está lá um cartaz pronto a ser revelado, que surgiu a meus olhos, quando eles se aproximaram bastante do curioso alvo painel, como um verdadeiro roteiro da Mealhada, fazendo uma apologia da terra e as suas virtudes. Esse é pois o lado reservado pela câmara. A mania de ser cidade ainda não abandonou a Mealhada.

Cheguei-me à praça do Choupal onde se resolveu instalar recentemente alguns bancos. Aproveitei para me sentar e descansar. Tenho de admitir que conferiu àquela zona todo um ar dum imenso jardim, que a tornou num belo sítio para se passear, ainda que a sua vegetação não seja mais que erva bem aparada e algumas árvores. Lá achei igualmente uns caixotes do lixo cinzentos, que enviam os meus pensamentos sempre para a minha escola, que possui uns exactamente iguais. Vê-se que há um esforço para uma Mealhada mais limpa. Os caixotes é que não são propriamente dos mais belos...

Ali bem perto, não pude deixar de contemplar o ainda em construção Arquivo Municipal, essa magnífica obra de arquitectura moderna, com tanta cor que parece um desenho dum menino de cinco anos e que tem as letras que o identificam todas tortas. É espantoso o imenso esforço que se fez para harmonizar o Arquivo, que as árvores nuas agora revelam claramente, com os prédios envolventes: as cores, por exemplo, combinam perfeitamente (o castanho tem imensa afinidade com o verde pálido e o vermelho forte, todos o sabem). É um belo sítio para se concluir uma peregrinação, pensei eu.

Voltado a casa, percorri os diversos canais em busca dos programas respectivos de passagem de ano. A criatividade das estações televisivas apanhou-me de surpresa: a TVI passava o ano (de novo) à espera da vitória já de todos antecipadamente conhecida do José Castelo Branco; a SIC servia mais Herman e a RTP parecia que tinha ido buscar o programa do ano anterior e se tinha limitado a alterar as referências a 2004 para 2005. A nossa televisão é muito original. À meia-noite, apareceu a Superbock a fazer a contagem decrescente nos três principais canais. Foi talvez a única coisa diferente dos anos anteriores- a publicidade não era a mesma, o que me perturbou, pois não aceitei logo aquilo como a passagem de ano, que agora não é mais do que outro produto comercializável do capitalismo. Bem, as pessoas embebedaram-se e ficaram felizes. Viva 2005! o corvo

Publicado a 5 de Janeiro de 2005


Requiem a Santana (Tocado por violinos de Chopin)

A autópsia foi conclusiva: o infante estava clinicamente morto (mentalmente, há muito assim se achava). As causas exactas não se revelaram claras e os doutores em brancas batas hesitam e ponderam. Os maus tratos familiares terão levado a tal defunto Estado? O espectro da cabala, que hoje tudo domina, floresceu logo numa tese da conspiração. Um corte da ficha de alimentação podia, se podada fora a energia à incubadora do perecido, ter precedido a extinção deste e à sua jovem morte conduzido. E, pena do menino!, foi estranho também seu caso, mas o acaso não se lhe deu para que também este em bamba corda estivesse no morre-acorda do velho Arafat! Ia ser circo divertido de acompanhar...

De circo, já cercados fomos porém durante estes últimos quatro meses que, enfim, se acabam! Caibam aqui todos os números do espectáculo e logo vo-los mostro! Deles, porém, só amostra curta esta crónica acarta, que nestas linhas pouco espaço se arranja sobre o desarranjo do governo e do país. Eis, pois, que enfim o presidente fora manda Santana e o seu populista mando! O mundo santanista que governou esta nação rui por fim! Santana com as suas trapalhadas súbitas foi na semana volvida rejeitado, depois de ajeitado seu governo na quarta anterior. As chaves do poder lhe foram tiradas, depois de se retirarem pelo próprio pé no domingo de há uma semana atrás. E com essa saída do henriquino Chaves de alma traída, a terra se começou a fender para Santana...

Duvido que mais gozo tão divertido tenhamos tido do que nesta curta ocupação do trono por Santana. Honremo-lo: ele foi o nosso Bush, até este presidencial Putsch. Na sua prática do contraditório, entreteve o lusitano auditório, como se de revista do seu parque Mayer restaurado se tratasse. O preço do bilhete foi, contudo, exacerbado: a conta (e a Compta) foi ruinosa. E no deserto político e social a que chegámos não se vê oásis, nem sequer aquele que ele ergueu na larga Praia da Claridade.

O extracto detalhado do talão do concerto mostra o que por consertar ficou. Pior, revela o gosto macabro dos seus actores nas desgraças que eles fizeram subir ao palco. Nem o pó de talco das assessoras de imagem de Santana lhe valeu. O espectáculo foi, no mínimo, mórbido. Primeiro acto: a espera das listas– uma reflexão metafísco-prática sobre a influência das máquinas na sociedade moderna e o controle exercido pelos computadores sobre o indivíduo. Segundo acto: o silenciar os incómodos- um ensaio sobre o lixo televisivo acompanhado de algumas considerações sobre a influência manipuladora dos mass media e passos para a instauração no país do regime italiano de controlo da televisão pelo primeiro-ministro. Terceiro e derradeiro acto: quinta lição de xadrez sobre o movimento conhecido por roque, em que se rodam duas peças nucleares de modo a que uma mais crítica fique mais “resguardada”, num gesto cujas designações linguísticas variam entre reajuste e remodelação, dependendo do ponto de vista. Fim.

Sim, de mau gosto no mínimo, este teatro. E o seu actor principal pôs agora em xeque o seu partido, que agora partido o queria ver para outros lados. Mas como, quando no congresso apoio mais expresso lhe investiram nas urnas? E para as furnas atrás do líder a laranja se vai enchendo de bolor... Parece que nem o astral salvará Santana no final: sua astróloga nos confessa que o tempo derradeiro dele se apressa, pois que o ano dele, a crer no chinês calendário, se encerra agora– aproxima-se a última hora do Macaco!

Com certeza, ela com firmeza avança, ainda com data não estabelecida. Provavelmente, conta-se por aí, virá mascarada e disfarçada. Estou deveras convencido de tal, pois a sabedoria popular não se engana e já ela mo revelava num velho conto da minha meninice, que alguém nomeou de ‘O Pedro e o Lobo’. Pedro acorre ao vale em falso alarme e as gentes o socorrem aflitas, para constatar a mentira. Mas atira Pedro de novo essa calúnia à cara do povo, e eles o acodem e o mesmo que antes verificam. Uma terceira vez, quando de facto o terror sucede, e o lobo vai fero devorando as ovelhas, e Pedro busca auxílio, das gentes só acha exílio. Quem mente, há-de vir a altura em que, precisando mesmo, nem mesmo a verdade convencerá. Está na hora de Santana compreender essa lição. o corvo

Publicado a 8 de Dezembro de 2004

Controlo com trela

Era inevitável, como meia dúzia de coisas o são na vida. Há sempre esse grupo que se deixa domar pelo destino que fatalmente, inexorável, sobre nós tomba. Como acto de rebeldia, podemos tentar escapar, mas o nosso fado aproxima-se então do das tragédias helénicas: quanto mais o herói da sorte marcada se esquiva, com mais renovado fulgor nele o destinado se criva. Foi pois vã a minha “glória de mandar”, emendar meu capricho foi a única saída. Saúda pois meu teclado, agora, esta crónica nova, e que a escrita se apresse, que a pressionam e aprisionam por esse país luso em uso nocivo.

Não tentarei aqui discorrer sobre a corrente central da acesa polémica, a martelada questão marcelina. Para quê invocar os personagens desta comédia tão badalados a cada badalada do relógio nos noticiários televisionados, em nome dos quais tantas canetas já foram sangradas, tantos cartuchos despejados de impressora? Dá a impressão, contudo, que com tudo o que dactilografado foi, só mais confuso se acha agora o mais vulgar lusitano. Não comente eu pois o comentador, despeça-se a crónica desse despedido por pé próprio.

Sim, o caso maior do professor cegou-nos, chegou-nos para alertar para a utopia em que vivíamos, mas não para nela melhor repararmos; nem para a repararmos, construindo uma verdadeira livre expressão sem pressão. Os mais recentes episódios passados na RTP desenterraram as velhas frases dum já conhecido ministro. Atente-se no atentado à independência televisiva que constituem as declarações do ministro da presidência. Como reagir quando se refere que são necessários “limites à independência” do operador público, que há que haver “uma definição por parte do poder político acerca do modelo de programação” desse mesmo canal, e se conclui dizendo que “a RTP ainda tem um longo percurso [a percorrer] a nível dos conteúdos”?

Anunciou pois o sargento Sarmento que a programação da RTP é competência estatal. Estatela-se desajeitado com tais impensadas afirmações o senhor ministro, ao qual aqui ministro minha veemente crítica, repreendendo aquele que assim vai prendendo esse direito tão fundamental! Mais se reforça a minha convicção quando leio, com espanto e admiração, a invocada e justificativa razão para esse intento. Sem tento defende-se Morais argumentando que “não são os jornalistas nem as administrações que vão responder perante os eleitores”. Ó leitores, como se preocupa o santo ministro tanto connosco, nós que às urnas, armas nossas, iremos!

Que vê ele na sigla de RTP, que significado oculto? Quiçá, Rádiotelevisão do Partido? Ou, tendo em conta a necessidade de pensar nos votantes, será porventura Rádiotelevisão da Propaganda? Rádiotelevisão do Pedrinho? Qualquer que seja aquele que o ministro mais prefere e deseja, será sempre uma Rádiotelevisão Parcial, e não uma Rádiotelevisão da Palavra. Uma palavra livre e plural. Basta observar o que sucedeu agora tão recentemente! Até os Santos são corridos! Valha-nos a Alta Autoridade para a Comunicação! Aquela, cujas conclusões o ministro acusa de falta de credibilidade: crédito não tem é o Estado (até mesmo nos seus cofres!). Estejamos cientes: calados e calcados se acham hoje os nosso direitos de expressão!

E do ecrã pequeno para a vida saltam mais exemplos do controle de que falo. É no desporto, o dragontino treinador espanhol, castigado pelo frustrado desabafo: “Isto é falta!”. Pois é falta, é! É falta de liberdade! E que dizer do cidadão pombalense que alega ter sido despedido por pressões da sua autarquia junto da sua empresa, por o munícipe ter um blog no universo cibernético em que criticava a câmara? Ah!, e não se salte o problemático assunto da direcção renovada do ilustre Diário de Notícias! E como sob tudo isto a manopla da manobra ilegal paira, e pára assim, discreta e secreta, o que perturba a turba dos interesses estabelecidos!

Sim, altere-se o provérbio! “Quem cala, consente” é adágio que a adaga dos tempos modernos últimos se encarregou de matar! Fale-se hoje antes o oposto “Quem cala, discorda”. Pois é a seita de interesses que não aceita o ‘contraditório’ que cala. Cala o eminente e o menor. (Ao menos no calar há igualdade neste país!). Mas há uma certeza e dela faço minha conclusão desta crónica triste, com Alegre citando: “Há sempre alguém que diz não”! o corvo

Crónica Inédita

Semáforos Urbanos

Acreditou a Mealhada feita cidade que lhe faltavam os semáforos. Cidade que se preze, há que ter semáforos. Pois que a cidade reze para que lhos tirem, agora que postos são!, é o que eu grito. Que jeito pomposo da urbe de se crer e querer altiva! Onde está tua humildade, ó Mealhada? Orgulha-te antes de quem te habita e não do semáforo que o trânsito apita! O que acreditaste que te havia de trazer louros, provou ser coisa de loiros, a acreditar nos falsos preconceitos anedóticos do povo sobre as gentes de cabelo cor de espiga!

Fiaste-te que os homens, de dentro e de fora de ti, haviam de celebrar a inauguração desses polícias sinaleiros de metal com gáudio. Antes com gládio no punho os combatem! Acaso há semáforos para parar e mandar andar entre a aorta e o miocárdio, músculo do coração? Pobres de nós se assim sucedesse, que tombaríamos todos de imediato para o solo, sufocando por falta de sangue! O sangue quer-se que não pare, que flua incessante! E tão bem junto ao jardim da nossa cidade esse fluir antes era imitado! Limitado é ele agora por máquinas tricolores!

Revolveram-se as entranhas da terra para aqueles postes verdes espetar, e espectar tais torres é agora nova função dos automobilistas presos pelo símbolo escarlate! Com o tráfego congestionado, na avenida da data da lusa liberdade, vê-se preso o morador para sair de sua garagem! Quando enfim vê escoada para outros lados a fila que o impedia de avançar, e consegue por fim que as rodas do seu carro pisem o negro alcatrão, mira o sinal, e choca com um forte vermelhão! E mais dois minutos aguarda encravado pelo semáforo que maldiz.

Corre e conta-se por aí, que pelos peões se puseram no cruzamento tais desamadas invenções. Percorrendo eu a cidade, pude pois constatar o logro que tal afirmação em si carrega, mentira que notei especialmente nas múltiplas vezes em que eu mesmo e outros fomos obrigados a atravessar pelas passadeiras junto aos sinais. Pois atente-se nas seguintes palavras. Quando o peão passa, sente-se obviamente incomodado, visto ter sido ele o responsável por parar toda a circulação naquela artéria da urbe e apressa-se a passar, para não apanhar com os irados e desesperados olhares dos condutores. É que nas grandes cidades, quando alguém passa numa passadeira, jamais anda sozinho: uma manada de pessoas acompanha a sua procissão. Na minha amada terra, a Mealhada, cada vez que o sinal vira verde para os passeantes, passam dois indivíduos: um de lá para cá, e outro de cá para lá. E isto quando sucede os dois encontrarem-se.

Quando por sua vez o polícia automático aponta o vermelho aos peões, qualquer das três passadeiras fica inutilizada para os caminhantes. De facto, estou convicto de que os sinais são precursores duma degeneração dos costumes e bons valores. Concebamos a situação pré-semáforos: um peão está do outro lado da rua quando vê um carro aproximar-se, decidindo por isso não atravessar. O automobilista, vendo o pobre homem esperando, num gesto afável, deixa-o passar. Agradecido, o peão levanta a sua mão em sinal de reconhecimento.

Imaginemos a agora a nova realidade que nos foi imposta. Os condutores, em vez de serem simpáticos, maldizem os peões que lhes bloqueiam durante dois minutos os movimentos da viatura, pois o tempo de espera é colossalmente desapropriado e desajustado. A afabilidade tornou-se em ódio, irritação e impaciência. O peão, por sua vez, nada tem a agradecer, ou será que se deve sentir grato frente aos semáforos? Ao contrário, atravessa o alcatrão, mas passa-o pleno de indiferença.

Não conheço ninguém, nem da nossa querida cidade, nem do exterior, que se tenha alegrado ao ver estas novas aquisições da nossa pólis. Todos contra elas têm barafustado, e eu limito-me, por meio desta crónica, a dar voz a uma cólera e revolta generalizada que eu igualmente partilho. Mais descabidos se tornam ainda os sinais pois afastam do jardim o trânsito, que opta por entrar na Mealhada pelas duas outras rotundas da estrada nacional. Ora, o pouco trânsito que resta e que circula por essas vias semaforizadas, carrega o fardo de suportar sinalizações que estão concebidas para regular engarrafamentos caóticos urbanos. Todos saem penalizados e, para mais, o investimento não é recuperável. O melhor que ainda havia a fazer, é colocar os sinais a mostrarem a amargura de ali estarem, pondo-os, para isso, a olharem-nos com um falso sorriso amarelo perpétuo. Bem branco seria o nosso riso então. o corvo

Publicada a 24 de Novembro de 2004