30 April 2006

Paris Universal!

A França é dos países mais interessantes do mosaico ocidental, pelo temperamento muito próprio dos seus habitantes. Depois dos subúrbios, os distúrbios revolucionários reencarnaram na Sorbonne. A questão do CPE (Contrato Primeiro Emprego) é apenas uma sinédoque de todo o problema maior, não francês, mas europeu, com que a juventude se confronta actualmente. Na edição de quinta do Público, o jornal registava a confissão dum jovem italiano, licenciado em economia e com mestrado feito em Buenos Aires, que afirma que, tivera 1000 euros como salário, prontamente se casaria e compraria casa. Pelo contrário, porque recebe somente 300 euros, continua a viver com os pais. Encontra-se contratado por seis meses apenas: tivera ele mais estabilidade, por certo não hesitaria em se autonomizar. Tudo se acha invertido: numa altura em que a terceira idade cada vez mais necessita que sejam os jovens, com trabalho redobrado, a suportarem-na; são os mais velhos que sustentam os jovens, que não se conseguem empregar.

Correríamos a tentação de, ante tal demografia, rejubilar perante a perspectiva próxima da reforma de toda uma série de funcionários. Porém, a esperança é errada, pois, ainda que estes saiam, não entram novos – assim o exige a remodelação da administração pública. A título de exemplo, olhemos o caso dos professores – com tantos desempregados há anos, que lugar no sistema se reserva para os novos?

Alguns criticam os jovens por não estarem dispostos a um futuro precário: argumento fácil para aqueles que têm assegurada a profissão. Dizem-nos: há que ser polivalente e flexível, têm de estar preparados para exercer profissões que não estão ligadas ao que cursaram. A título de exemplo, ainda há umas semanas atrás, a revista Dia D entrevistou jovens recém-licenciados, registando como sobreviviam em trabalhos completamente alheios ao seu canudo. Uma rapariga estava empregada como caixa e outra, de noite, indicava os lugares no escuro dum cinema. Comentarão então os sábios iluminados que estamos perante dois casos notáveis de bem-sucedida adaptação ao mercado, independentemente da sua formação universitária. Erguem-se-me, porém, duas perguntas: é este desperdício de recursos humanos intelectuais que esses senhores querem apoiar? Num período de contenção orçamental, nada se faz para travar esta sangria de dinheiros públicos, com profundos investimentos em jovens que, simplesmente, não fazem uso daquilo que estes lhes proporcionaram?

Entretanto, Mariano Gago veio avisar que já no próximo ano lectivo, os cursos universitários que não tiverem 20 matrículas no primeiro ano deixarão de ser financiados pelo Estado. Obviamente, várias universidades expressaram já o seu desagrado, considerando que existem cursos nucleares – técnicos e artísticos, entre outros – que não podem ser dispensados. (Estranho as Associações Académicas permanecerem passivas ante toda a situação –compreendo!, não falamos de propinas...). Pessoalmente, não fora a Universidade de Coimbra ter afirmado que financiaria o curso que pretendo, deixaria de poder candidatar-me ao ensino superior no próximo ano. Não só deixámos de ter emprego, deixámos de ter ensino; não só não podemos trabalhar, não podemos estudar.

Acena, no Sena, a angústia juvenil... Paris, faz-te universal! ■ o corvo

Publicado a 12 de Abril de 2006

03 April 2006

Regresso À Cidade...

1. O governo anunciou, pela secretária de Estado dos Transportes, no início do mês que se esquece, que tenciona expandir a rede do sebastianista – porque se espera e não vem – Metro Mondego através da criação de um eixo Norte-Sul que una Mealhada a Condeixa, com um possível alargamento até à Figueira da Foz. O sistema do tram – como se designa este tipo particular de carruagem que pode servir-se quer das tradicionais linhas de comboio quer das linhas próprias de metro, saltando entre os dois sistemas sem entraves – ligaria, deste modo, uma vastíssima área do centro litoral, da qual a Mealhada seria a fronteira. Porém, o Presidente da nossa Câmara apressou-se a esclarecer, ao Público, que «Estamos em condições de dispensar o metro»; mais, «Ainda seríamos mais mal servidos pelo eléctrico».

Estamos «razoavelmente servido[s]» pela CP e pelos autocarros, mas porque não superar a mediocridade de um “razoavelmente”? Encontramo-nos perante uma oportunidade única de reforçar a nossa união á área metropolitana de Coimbra – da qual, de resto, já fazemos parte. A possibilidade de, apanhando o metro na Mealhada e, sem o abandonar, circular por toda a Coimbra, e, em dia de Verão, estender a viagem até à Figueira, é cenário quase futurista não fosse a iminência da sua muito plausível concretização nos tempos próximos. A sua construção não invalida a do troço da EN1/IC2, entre Sargento-Mor e a Anadia, essa prioridade pela qual o Presidente não troca o tram. A recusa do metro não pode servir como pressão para tal variante – que jeito estranho de negociar politicamente! Estaremos tram-ados?

2. Baixo agora a pena crítica e descanso a postura de corvo irritante que bica os transeuntes para me sentar num ramo da árvore e, arrisco!, cantar até (efeitos, talvez, da Primavera). Guardo o dedo indicador e, mãos abertas, ovaciono. Como noticiado no número anterior do jornal, esteve entre nós Mário Augusto em mais “Um Café Com...”. Pude participar na conversa com o entrevistador e isso recordou-me a significância cultural do Cine-Teatro Messias no panorama cultural do concelho.

A temática de todo o serão – o cinema – ainda mais fortemente me fez meditar no papel do espaço onde me encontrava. Senti que fazia um regresso a casa. Há uns cinco anos atrás, pouco ou nenhum seria o meu interesse em participar em tal sessão: ia duas vezes ao cinema, quando estava de férias, emigrado na praia – e todo o mais ano era um deserto. Foi, em 2001, a recuperação do Cine-Teatro, que me fez mergulhar, irrecuperavelmente, nesse mundo. A proximidade inédita aos bens culturais que gerou, permitiu uma mudança qualificativa dos meus gostos – e dos de tantos outros mealhadenses.

E, porque o Cine-Teatro fez-se por justaposição, no seu segundo termo revela, explícita, a sua segunda força. Com um recinto à altura, a Mealhada começou a acolher grandes representações teatrais e criou as bases para o posterior desenvolvimento de grupos teatrais, como a Oficina de Teatro do Cértoma. A título de exemplo, só este mês de Março que se fina, o Messias assistiu a um monólogo de Sofia Alves e ao clássico Felizmente Há Luar! – que, nem a propósito, eu comecei, nessa semana, a estudar a Português.

E porque um palco não serve apenas à dramaturgia, como esquecer os concertos que já proximamente preenchem de novo a nossa sala de espectáculos? E quantas pequenas – mas nem por isso menos belas ou significativas – exposições não cruzaram já aquele recinto? Indubitavelmente, a recuperação do edifício e da área envolvente foi a maior benesse com que a população da cidade se viu agraciada nos últimos anos (e o tram pode vir a ser a próxima...) – que ela saiba continuar a fazer justo e saudável uso dela.

Publicado a 29 de Março de 2006

Munique-Mealhada


Já aqui o referimos, ainda ele não tinha atingido – pedra no charco – as salas portuguesas. Agora que escrevemos, bate, pesado, às portas da nossa cidade. Munique, de Steven Spielberg, está em exibição no Cine-Teatro Messias a partir de amanhã. Tendo já visto a película, não posso evitar tecer sobre ela alguns juízos, não tanto do ponto de vista cinematográfico, mas mais sobre o seu conteúdo, ainda que, no que respeita ao primeiro, como seria mais do que expectável, ela venha, mais uma vez, justificar a razão do prestígio do seu realizador – apresenta-se como verdadeira obra de arte.

O sentimento mais instantâneo com que abandonei a sala de cinema foi o de uma profunda impotência: o filme revela bem – àqueles de nós mais cegos, ou inocentes (qual, dos dois, o meu caso, desconheço) – como as grandes decisões neste plano (o militar) estão completamente fora do âmbito de acção do cidadão comum, cuja opinião é irrelevante nesta matéria. Assim o verificámos, por exemplo, aquando da guerra do Iraque, em que, não obstante a mobilização mundial contra o conflito, este foi desencadeado – para ainda hoje se arrastar.

Sendo uma apresentação equilibrada dos dois lados (palestiniano e israelita), a fita revela, nuamente, como as razões de ambas as partes são as mesmas, logo, inconciliáveis: tanto uns como outros recorrem ao argumento do sangue, da família, da terra. Num dos diálogos do guião mais reveladores a esse respeito, um palestiniano comenta que o seu povo está disposto a esperar milhares de anos para recuperar a sua terra, tal como os israelitas, desde a destruição de Jerusalém, também esperaram, vendo só concretizado o sonho do regresso à pátria. Perante argumentos desta natureza, era inevitável que o filme se fechasse com uma triste mensagem de desesperança: a fita não prega moral, apenas constata a impossibilidade de paz.

A única, mas grande, diferença nos métodos entre palestinianos e israelitas é o facto de, pelo menos intencionalmente, os últimos não assassinarem inocentes, ou, sendo mais precisos, civis: pois nem sempre a culpabilidade dos alvos a abater pelos israelitas está suficientemente bem provada, deixando espaço à dúvida – e ao consequente abatimento de inocentes. Pelo menos, a informação, dentro dos seus limites que comportam a inexactidão que acabámos de referir, não era deliberadamente fabricada: como aconteceu na Guerra do Iraque, com a CIA e as “provas” das armas de destruição maciça.

Ainda assim, esta política de eliminação selectiva – como lhe chama Israel, que já avisou que prosseguirá com ela, pondo na lista inclusive o recém-eleito primeiro-ministro do governo Hamas – tem verdadeiros efeitos práticos? A película é, garanto, profundamente deprimente. A resposta que nos dá é um redondo não, ainda que, em defesa de tal estratégia, um dos personagens argumente que não deixamos de cortar as unhas só porque elas voltam a nascer, para explicar porque, a seu ver, se deve continuar com tal política, ainda que o terrorismo surja, claramente, como uma Hidra, em que uma cabeça cortada dá logo lugar a duas. Avner, o protagonista, não aceita a explicação, resignando-se à vanidade das suas acções.

Munique é também um magnífico ensaio sobre como a violência altera para sempre um homem. Os membros da Mossad destacados para assassinar os responsáveis pelo planeamento de Setembro Negro começam, gradualmente, a ter dúvidas sobre a justeza moral da sua missão: ou não estarão eles, para todos os efeitos, a assassinar também?

«Uma oração pela paz»: assim chamou Spielberg ao seu filme que divide quantos o vêem. Deixemo-nos também dividir – é o convite que vos lanço.

Publicado a 29 de Março de 2006

Apelo Público

Três acontecimentos distintos precederam esta crónica. Nas últimas semanas antes desta pausa lectiva, alguns colegas meus dos agrupamentos de economia e artes tiveram de fazer um teste para aplicarem os seus conhecimentos gramaticais recentemente adquiridos: assim o obriga a inclusão de tal matéria – não leccionada em anos anteriores – no exame, forçando professores e alunos a verem num ano o que deviam ter visto em três. Se isto fora bastante para suspirarmos de requiem pela organização do país, acontece, porém, que algo mais de grave escondia o estudo dos meus amigos. Olhando para as suas fichas de trabalho, constatei a panóplia de nomes e designações gramaticais várias com que jamais me havia cruzado na minha carreira estudantil. Pedi-lhes que mo explicassem, o que prontamente fizeram, revelando-me que aqueles termos tinham sido difundidos por um qualquer iluminado do Ministério da Educação. Era o disparate cumprido e encarnado – para não mencionar o disparate intrínseco que é aprender gramática no secundário: de todo despropositado, se a Literatura é tão mais apaixonante.

Outro dia, numa amena conversa com outro meu conhecido, ele rejubilava, porque tirara boa nota num teste de português. Perguntei pela matéria da prova e ele respondeu-me: “discurso político”. Fiquei atarantado, sem compreender: não era ele do 11º de Humanidades? Nunca eu, em igual agrupamento, aprendera tal coisa. Esclareceu-me que era uma matéria dada agora em conjunto com o Sermão aos Peixes de P.e António Vieira, uma vez que os programas de português A e B haviam sido fundidos. Mas se era para fundir, que o programa de B se elevasse ao nível do A, nunca este se baixasse ao outro! Inquiri mais, e descobri – quão pouco informado andava! – que Amor de Perdição ou Folhas Caídas deixaram de constar das obras de estudo. Obviamente, algo de podre exalava cronicamente do reino do ensino do Português...

A minha imaginação é que não podia conceber barbárie como a que finalmente se revelou em todo o seu esplendor, há uma semana, num artigo de Maria do Carmo Vieira, aparecido no Público. Aí, denunciam-se Vpps, adjectivos relacionais, nomes epicenos, nomes agentivos. Se o leitor não percebeu, não se preocupe: eu também não. Mas estes são os palavrões inventados por um qualquer linguista que, doravante, devem ser ensinados no básico para classificar aquilo que antes eram adjectivos e substantivos.

Tenho vindo a denunciar sistematicamente nesta coluna atentados à inteligência dos alunos. Se não me engano (era tão bom que me enganasse!), daqui a pouco tempo, de novo me encontrarão vituperando sobre o mesmo assunto. Porém, o que hoje aqui apresento é, de tal forma, visceralmente repugnante ao trucidar a nossa pátria – que a “minha pátria é a língua portuguesa”, como dizia Pessoa – que exige que algo se faça contra tal. Lanço, pois, aqui o meu apelo público. Apelo para ti, aluno, não só porque isto é um claro atentado à tua dignidade e uma tentativa burocratizada de te estupidificar, mas porque desnecessariamente te complicam o que é simples; apelo para ti, professor, a quem esta reforma linguística obriga a que assistas pateticamente a acções de formação e que sabes, lucidamente, o quão errada ela é; apelo para ti, encarregado de educação, porque estão, obviamente, a manipular o teu educando, castrando-lhe a cultura; apelo para ti, cidadão, porque, com um ensino assim, permites que se fabriquem patetas que governarão o país em que vives. Apelo, no fundo, para todos os homens de boa vontade – e, mais que isso, de bom senso, que é o que falta abundantemente à Ministra.

Publicado a 1 de Março de 2006

Caricato(ura), não?

«Medo é remorso antecipado», confessava-se na peça de José Rodrigues Miguéis, O Passageiro do Expresso, que a Oficina de Teatro do Cértoma já representou entre nós. E o medo de Kåre Bluitgen parecia conter em si já o remorso pelo acto, como que, numa omnisciência estranha, previsse o que se seguiria. Embora poucos o saibam, este é o homem que espoletou toda a controvérsia dos cartoons, ainda que indirectamente. Autor do livro O Corão e a Vida do Profeta Maomé, o escritor teve grandes dificuldades em encontrar ilustradores para a sua obra, publicada este ano, por medo dos desenhadores de represálias de extremistas islâmicos. Foi em sabendo do caso que o director do obscuro jornal dinamarquês resolveu propor a alguns caricaturistas que representassem o Profeta – causando a confusão.
Compreenda-se que, em primeira análise, o que irritou a comunidade muçulmana foi a simples representação de Maomé, que é interdita segundo o Corão. Não podemos limitar a liberdade, num estado laico, a preceitos religiosos: existem hindus em Portugal e, tanto quanto saiba, ainda não houve qualquer petição para interditar o abate de vacas. Em segundo lugar, circularam pelos países árabes caricaturas de cariz sexual explícito, envolvendo o Profeta, que não foram publicadas em qualquer jornal ocidental. Houve, evidentemente, um aproveitamento do caso por parte das comunidades islâmicas. De facto, toda esta questão foi devidamente empolada pelos líderes religiosos dinamarqueses que, não obtendo a reacção tempestuosa que esperavam, elaboraram um dossier de 43 páginas que fizeram circular pelo mundo árabe, procurando assim espicaçar os seus irmãos de fé, para conseguirem a solidariedade que sentiam faltar-lhes. Tal atitude representa uma tentativa descarada de inflamar os ânimos. Registou-se um óbvio aproveitamento político da situação – que está longe de ser meramente religiosa.
Finda a Inquisição cristã, eis que se ergue, violentamente, o Santo Ofício de Alá. Os autos-de-fé não queimam pessoas, mas incendeiam embaixadas – e as fatwas já estão lançadas. Já em 2004, o filme de Theo van Gogh, Submissão, uma curta-metragem de dez minutos sobre a violência nas sociedades islâmicas contra as mulheres, acabou por ser a sentença de morte do realizador. O mesmo recurso à força agora é, para todos os efeitos, e independentemente da opinião que se possa ter sobre a polémica, uma transgressão muito mais gravosa das regras do Estado democrático do que a publicação dos cartoons. Não teria o cartunista que desenhou Maomé com um turbante-bomba, até um certo ponto, dentro dos limites de uma certa facção dos muçulmanos, acertado argutamente na sátira?
Reservando-nos ao direito de, moralmente, concordar ou discordar das caricaturas, não podemos, porém, unilateralmente, proibi-las. Esta caso está a abrir um precedente na opinião pública – tendencialmente favorável aos muçulmanos – que poderá ser hábil e erradamente manipulado. O direito de se exprimir – e com humor, como convém ao cartunista – não pode, não deve, ser interditado. De tal forma que, na mesma Dinamarca, foram publicados outras doze caricaturas satirizando o primeiro-ministro e a o tratamento dado por este ao caso. A partir do momento em que abrimos uma excepção para as religiões (e quantas vezes não foram satirizados cristãos e judeus?), temos de passar a considerar outros grupos como não passíveis de o serem, como ideologias políticas ou correntes filosóficas. E eis que, em nome do convívio saudável entre todos, a civilização da liberdade deixa-a cair, conquistada por uma falsa paz e pelo medo. Caricato(ura), não?

Publicado a 15 de Fevereiro de 2006

22 February 2006

Munique-Teerão

Amanhã estreia Munique, o novo filme de Spielberg, sobre a retaliação israelita após o sequestro, por palestinianos, da sua comitiva olímpica em Munique, em 1972. O espectro da vingança perpetrada por democracias ocidentais é tanto mais válido como tema de discussão se atentarmos nas recentes declarações de Chirac, defendendo o uso de armas nucleares para "a segurança dos nossos abastecimentos estratégicos" e como meio de dissuasão para “os dirigentes de Estados que utilizem meios terroristas, assim como aqueles que tencionem usar armas de destruição maciça”.

Se a proposta francesa força as fronteiras da razão, entrando no delírio, levanta, contudo, a mesma questão da fita de Spielberg: haverá um dever do bem de aniquilar, violentamente se preciso, o mal? Maniqueísta, a pergunta é dúbia, pois implica sempre uma definição de herói e de vilão. E se para o Ocidente o inimigo é o fanatismo muçulmano, para este, o Grande Satã é América e Israel. Elucidativas a este propósito são as afirmações de Ahmadinejad, presidente do Irão, que considera o Estado judaico “tumor maligno a riscar do mapa”, congratula-se pelo coma de Sharon, apelida de “mito” o Holocausto e sugere a transferência de Israel para a Europa.

Estas opiniões ganham tanta mais relevância quando o programa de enriquecimento de urânio foi, aquando da eleição de Ahmadinejad, retomado. A actual crise iraniana começa a atingir cumes insuportáveis, com o claro desprezo a que o Irão votou a Agência Internacional de Energia Atómica e a própria ONU. O acesso à energia nuclear por um tal fanático não é, por certo, para fins pacíficos, antes com o intuito de agressão ao Ocidente.

O Irão terá de/será atacado. Segundo país no «Eixo do Mal» de Bush, o ataque ao Irão é uma possibilidade remota neste momento, não obstante a necessidade que se lhe possa reconhecer. Só há três forças que poderiam comandar uma ofensiva e nenhuma agirá tão rapidamente. Israel encontra-se num clima de incerteza que não se dissolverá senão em finais de Março, quando for eleito um novo governo. Os EUA estão imobilizados: as suas tropas estão demasiado dispersas e as campanhas de recruta angariam cada vez menos jovens. Só com o abandono total do Afeganistão e do Iraque é que uma tal acção militar poderia começar a ser ponderada. Em termos de opinião pública, a América sofre do problema de Pedro e o Lobo: tendo mentido aquando do Iraque, agora, ainda que as razões sejam justas e acertadas, ninguém acreditará. A Europa, essa, nunca avançará sem os EUA, se bem que se coligará efectivamente – não como aquando do Iraque – com eles.

Porém, uma tal intervenção bélica poderia não redundar nos efeitos desejados. Os regimes islâmicos radicalizaram-se, tanto em Agosto com a eleição de Ahmadinejad, como na semana passada com a vitória expressiva do Hamas na Palestina. A violência no Iraque persiste – o plano para o Médio Oriente parece estar redondamente a falhar. Um ataque-relâmpago, o suficiente para resolver a crise a curto prazo, obrigaria a um segundo ataque dos EUA, posteriormente, tal como aconteceu após a incompleta primeira guerra do Golfo. Porém, um mero ataque aéreo às fábricas atómicas poderia desencadear uma resposta violenta, como o confirmou um Guarda da Revolução: “Se formos alvo de um ataque militar, usaremos a nossa muito eficiente defesa de mísseis”. O Irão poderia avançar com uma invasão do Iraque, gozando do apoio da maioria xiita iraquiana – ou, pior, atirar-se a Israel. Eis a nova Guerra Fria: passada nos desertos, quente como eles. ■ o corvo

Publicado a 1 de Fevereiro de 2006

Belém (e não é Natal!)

“Como não vamos ter novo contacto antes da realização desse evento, é inevitável que falemos disso.”, escrevia o Helderix, na última semana. Inevitavelmente, pois, aqui crocito, sobre o mesmo, mais: grito de corvo entre as macacadas de velhos lobos nestas presidenciais.

Há um candidato, cujo nome não me relembro, que insiste em ser discriminado pelos media – não, não é Garcia Pereira, cujo protesto seria até inteligível. É outro, cujo nome – maldição! – não me ocorre, esquecido, por decerto, devido à sua parca cobertura mediática. Candidato mp3, chamam-lhe os jovens da sua candidatura, mas o mp3 parece-me mais vinil: muda o disco e toca o mesmo. “Soares é fixe!”, gritam esses seus pequenos apoiantes, mas a verdade é que aquele-cujo-nome-não­-me-lembro é fixíssimo: palavra do próprio! Para além de que, profissionalmente falando, é versado em jurisprudência, filosofia e história: em suma, político profissional, coisa que a Esfinge afirma não ser. Mas porque recorro a um impropério do fixíssimo? Ele mesmo confessara na pré-campanha que não mais atacaria os outros adversários: porque infrinjo no meu crocito o que o concorrente tão bem praticou? Se acaso deslize houve no cumprimento do juramento, foi erro, tal como é erro, se Cavaco ganhar, a candidatura do mp3-vinil: assim ele nos garantiu há uma semana. Erro é pois, de facto.

É assustador verificar que o grande objectivo das candidaturas de esquerda é travarem a direita, num regime em que o Parlamento é, por maioria absoluta, dessa mesma esquerda. Fosse de direita, e entenderia a necessidade de equilibrar os poderes – não é o que sucede. Mais, todo este discurso maniqueísta esquerda/direita pretende somente radicalizar o adversário de uma forma estúpida e o facto de Cavaco continuar a subir nas sondagens só demonstra como este técnica falhou rotundamente. Em contrapartida, o falso sebastianismo cavaquista tem singrado, com um messianismo envolvendo a sua figura, usurpada a Soares, o “Pai da Pátria”, que passou a “grande perturbador nacional”. Este coitadismo, este fazer-se de vítima, era típico de um outro político: Santana Lopes. Não me espantaria ver Soares a clamar pelo contraditório...

A Cavaco parece pouco import(un)ar Soares, que tratou de se encontrar com Valentim Loureiro, quando o Sr. Silva foi recebido na Madeira (por aquele que Louçã expulsaria do poder). Alegre, para não ser incomodado pelas companhias, escolheu um morto, mas até assim o partido comunista criticou a invocação em vão do santo nome de Cunhal, o que é só mais um testemunho da infeliz campanha de Jerónimo. Este, no insulto, seguiu as passadas de Soares, apelidando Cavaco, por exemplo, de “sábio macaco”. Igualmente lamentável foi o discurso primitivo comunista sobre os apoios capitalistas da campanha de Cavaco. Quando foi feita pressão para que Cavaco revelasse os financiadores da campanha, só Alegre revelou simpatia para com o criticado – talvez por a sua própria campanha não ter dinheiros partidários. Pois nestas presidenciais temos candidaturas suprapartidárias, semi-partidárias e ex-partidárias!

Não vai haver segunda volta porque as pessoas estão cansadas de “muito barulho para nada”, como dizia a comédia de Shakespeare, como diz a comédia do país. Cavaco ganhará como César: ueni, uidi, uici. Vencerá porque as pessoas estão cansadas – há uma saturação de política: os eleitores desejam que o farrobodó cesse, cesse depressa. A tal esquerda perderá – e a culpa é toda e inteiramente sua. ■ o corvo

Publicada a 18 de Janeiro de 2006

Elegia Natalícia

Anunciava o Expresso, na sua edição de 23 de Dezembro, que o postal de Natal do presidente Bush aos seus concidadãos omitia qualquer referência a Jesus e dele não constava a palavra Natal, desejando-se antes uma boa holiday season, ‘época de férias’. O artigo do semanário continuava garantindo que o presidente da Câmara de Nova Iorque inaugurara não uma árvore de Natal, mas uma “árvore das Festas”. O caso recordou-me quando, na altura da invasão do Iraque, devido à oposição francesa, na cantina do Senado, as batatas fritas (french fries) viram o seu nome mudado para “liberty fries”, o que omitia as referências aos franceses. A linguagem é pródiga em manipulações hábeis na verborreia política.

A mesma linguagem, contudo, é explícita nas suas raízes: Natal, etimologicamente, significa nascimento – um homem velho de barbas tem, por natureza, de estar deslocado de uma quadra assim intitulada. Deambulando pela nossa terra, porém, descobri Pais-Natal subindo escadas dependuradas da varanda. O objecto ridículo, saído de uma qualquer loja dos trezentos, indigna-me pela sua a-estética e mau gosto, produto descartável – como as fraldas.

Estas decorações confirmam que enfrentamos uma campanha exaustiva de erradicação do imaginário cristão do Natal. Na festividade original, pagã, à qual parece termos retornado, adorava-se o Sol (celebrava-se o solstício de Inverno); hoje, venera-se o Pai Natal, escalando nas suas escadinhas excêntricas as varandas dos mealhadenses e outros portugueses. A própria figura do homem de vermelho tem origens cristãs (comemoradas, por exemplo, na Alemanha), mas mesmo isso foi propositadamente ignorado para se tornar num simples produto de mercado.

Esta operação de maquilhagem dos símbolos religiosos, levada ao extremo, obrigaria à remodelação completa das decorações públicas natalícias: desde a inocente estrela até ao presépio do jardim frente à Câmara. Por detrás desta perseguição, redescobrimos a mentalidade subjacente à polémica da retirada dos crucifixos. Se condeno, de ambas as partes, o comportamento (o número de escolas ainda com crucifixos era irrisório), ele constitui, porém, um sinal claro de toda uma forma de pensar anti-religiosa. Ironia – com essa ironia da hipocrisia humana, para homenagear Sá Carneiro no aniversário da morte, optou-se por uma cerimónia de cariz religioso. São incoerências assim que minam toda a credibilidade de quem as pratica.

Há um mal-estar com a religião, como se se tratasse de algo anti-natura, repelente até. Em Portugal, relega-se a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica para horários inconvenientes, ou seja, última hora do dia. Em países “retrógrados”, como a Finlândia, trata-se de uma cadeira obrigatória – de nome diferente consoante o credo do estudante – e, no caso dos ateus ou agnósticos, existe, em alternativa, ‘Ética’. Aqui, na tradição histórica do cultivo da aparência, guardamos a casca – e cuspimos a polpa. Instalou-se, paulatinamente, este pensamento moderno de que não é preciso ser-se crente para celebrar o Natal, sob a tese de que se trata de uma festa sem conotações bíblicas: uma reunião da família, tempo de paz e amor. Porém, acaso os ateus, nos países muçulmanos, celebram também o Ramadão? Ou, em Israel, comemorarão eles a Páscoa judaica? Acontece que, tanto quanto sei, em nenhuma dessas outras festividades se oferecem prendas, pelo que, posto isto, penso enfim perceber a falta de interesse que têm em as comemorar…o corvo

Publicado a 4 de Janeiro de 2006

«É Milhor De Decer Que De Subir»

Já o preguei várias vezes deste meu púlpito e não cesso de o fazer: nas escolas portuguesas está em curso um processo de estupidificação dos alunos. «O analfabetismo protege o analfabetismo» acusava Vasco Pulido Valente na sua coluna do Público, a propósito do fim dos exames nacionais a Português, medida entretanto revogada. Contudo, só a disposição, por parte da malograda ministra, de o fazer deve preocupar. A situação recorda-me a proposta polémica, de há uns anos, de retirar os Lusíadas do secundário.

O conhecido professor Carlos Reis denunciou, argutamente, que a retirada do exame é a definitiva subalternização das ditas Humanidades aos cursos científicos. Tudo se processa no sentido inverso: acertado para a ministra seria, por exemplo, retirar a distinção entre Português A e B. Não deve um cientista ou economista conhecer Camilo e Antero, dois dos renegados da segunda variante? Enquanto desdenha estes, o programa mitigado contenta-se em ocupar os alunos ensinando-lhes conteúdos gramaticais aprendidos no segundo ciclo, mas, agora, com designações novas. Inconcebível é igualmente o estudo cronologicamente desordenado dos autores previsto no programa, não permitindo uma visão de conjunto e continuidade como o faz, por exemplo, o seu irmão mais velho, o Português A. E, entrementes, alegremente concebemos iliteratos. O que mais indigna é a Associação de Professores de Português ter-se pronunciado pelo fim do exame – não entendi ainda o paradoxo.


Semelhantemente queria a ministra fazer a Filosofia, disciplina que seria dramaticamente reduzida em Coimbra, não fora o exame ser exigido como prova de ingresso pela Faculdade de Direito e ser obrigatória – por ora! – no décimo e décimo primeiro anos. Os currículos de Filosofia podem ser comparados aos de Ciências pelo primitivismo de ambos. Em pleno século XXI, aqueles que não optaram pela via científica no liceu, chegam ao final do ensino básico sem terem ouvido falar da teoria da evolução, da complexidade do genoma humano, da física quântica ou da teoria da relatividade. O que desta conheço é graças ao livro Mais Rápido que a Luz, de João Magueijo, físico português que ensina em Inglaterra.


Do mesmo modo, no fim do décimo primeiro ano, a Filosofia, não foram abordados Kant, Hume, Descartes, Nietzsche ou Hegel. O desconhecimento deste último, a título de exemplo, implicou que tivesse de ser a professora de português a dar umas noções muito gerais de Hegel aquando do estudo de Viagens na Minha Terra, onde a teoria do filósofo alemão ocupa lugar de destaque. A triste verdade é que, fora Piaget e a Fenomenologia, aprendi mais lendo O Mundo de Sofia de Gaarder do que ao fim desses dois anos de Filosofia escolar; e, no que respeita à Lógica, o que sei devo ao pouco que li d’ O Lugar da Lógica na Filosofia, do português Desidério Murcho, mais um emigrado em terras inglesas.

Tiram-se exames quando estes deviam ser aumentados. Se o grau de exigência não subir, ao invés de diminuir, como constantemente verificamos, prosseguiremos com uma nação decrépita. Sem conhecimentos linguísticos decentes, os alunos são até incapazes de perceber os enunciados matemáticos. Mas, ai!, é que em Portugal, para todo o obstáculo, para todo o monte no caminho, para todo o desafio, ecoam aqueles versos do Poeta «...aquele outeiro/É milhor de decer que de subir»!

Publicado a 21 de Dezembro de 2005

11 December 2005

Quiçá, Banda

Os cartazes ameaçadores que se espreguiçam já por Coimbra inteira recordaram-me dessa recente novidade do panorama musical nacional – a banda da novela Morangos com Açúcar, que da ficção partiu para a realidade: os D’ZRT. Seja-me permitido omitir os comentários sobre o nome, abreviatura telemobilizada inglesa para ‘sobremesa’ – lógica de linguagem que parece ter-se espalhado também aos livros escolares com o manual francês ‘Kestudi’, à letra, qu’est-ce que tu dis? – e avançar directamente para factos que, no mínimo, nos devem preocupar.

O álbum de estreia da banda, homónimo, em apenas quinze dias conquistou o primeiro lugar no top de vendas nacional, onde ficou mais de vinte semanas, sendo quíntupla platina. Ao longo de todo o Estio, os D’ZRT realizaram mais de cinquenta concertos por todo o país, tendo gravado um DVD. Já há inclusive bonecos dos cantores para venda.

Do acima referido, deduz-se, obviamente, o estatuto de puro produto de consumo, filho do marketing e associação com a novela, dos D’ZRT. A qualidade deplorável da banda – comparável ao “crescimento” negativo da economia portuguesa – seria de esperar dum conjunto cuja lógica é a mesma da fast food. Cito palavras dum dos membros: «Como era um álbum que tinha de estar preparado num curto espaço de tempo por causa dos "timings" da novela...».

Terá sido esta premência de celeridade na apresentação das músicas que, quiçá, esteve na origem dum facto que só recentemente foi revelado no espaço cibernético. Descobriu-se que o single de lançamento e grande hit do grupo, intitulado Para Mim Tanto Faz, não é original senão na sua letra, pois a melodia foi – assim o esclarece o aviso da editora discográfica quando confrontada com as acusações dos internautas – comprada à sua compositora, a cantora japonesa Nami Tamaki, autora da música High School Queen. À luz desta alteração, talvez melhor se compreendam as palavras de Angélico: «...pudemos alterar as músicas de forma a ficarem a nossa onda e, desta forma, foi possível depois escrever as letras à nossa maneira» [itálico nosso]. Ironicamente, a coordenadora da série declara que «Eles têm um mérito muito próprio...», afirmação que sai reforçada quando se descobre que o único original no CD é Percorre o Meu Sonho.

Os D’ZRT podem ser mesmo vistos como mais uma encarnação desse deturpado conceito de banda, em que esta se cinge às vozes, relegando para a obscuridade os instrumentistas. Assim o reitera um membro do quarteto: «O objectivo era que as músicas viessem minimamente arranjadas para as nossas vozes...», ainda que confesse que, posteriormente, lhes fizeram algumas alterações, como se referiu. Um grupo destes baseia-se, necessariamente, para alcançar o sucesso, mais na aparência física dos seus elementos do que nos seus talentos. Tudo isto é triste quando pensamos numa série de bandas de garagem com bem mais arte – algo também não particularmente complicado – que não conseguem vingar no mercado por falta de apoios e a seguir nos deparamos com os números astronómicos de vendas dos D’ZRT.

Uma reportagem do Correio da Manhã mostrava como todas as celebridades – as que não ficaram fechadas num quartel e puderam ser entrevistadas – também acompanham e admiram os D’ZRT, talvez por se identificarem com a mesma mediocridade. Essa mediocridade que é o ar infesto que ensombra Portugal, da satisfação com o pouco e do elogio do baixo. Dilato as narinas, e entre o odor fétido, perscruto um ligeiro cheiro de morangos... o corvo

Crónica saída a 7 de Dezembro de 2005

Recordar Laranja Mecânica

A revista Sábado começou a lançar uma série de DVDs do mestre Kubrick, que se inaugurou com a mítica Laranja Mecânica. Este poderoso filme mostra-nos o delinquente Alex, que com o seu grupo de amigos se entretém a espancar e a violar noite dentro, sem qualquer objectivo senão o gozo que daí retira. Ainda hoje polémica, a película é uma crítica à juventude desprovida de valores, obcecada, como o protagonista, com Beethoven, sexo e sangue.

O mundo futurista de Kubrick tornou-se, com o tempo, bem real. Os recentes acontecimentos em França vieram revelar uma juventude sedenta de distúrbios e de manifestações de força. Os críticos têm procurado explicar este fenómeno com a integração deficitária dos jovens dos subúrbios e uma discriminação latente na sociedade francesa. A estes factores, juntam a falta generalizada de perspectivas das camadas mais novas e o desemprego de massas que aflige estas zonas. Porém, nem mesmo as afirmações, quiçá imprudentes, de Sarkozy – o qual, como o próprio fez questão de apontar, é descendente de imigrantes, como o seu apelido regista – ilibam os adolescentes.

Embora a princípio pudesse haver um objectivo político – e que objectivo político esse, tão reduzido que apenas pede a cabeça de um ministro, sem uma visão global para a sociedade!, rapidamente este movimento incendiário perdeu essa conotação, tornando-se numa mera diversão. Assim se explica o seu alastramento a outras cidades do Hexágono e, mais notavelmente, aos países vizinhos, onde não havia qualquer razão imediata para a sublevação dos bairros, senão o mimetismo.

O fenómeno de delinquência juvenil não é exclusivamente francês. Na América, há todo um historial dos massacres escolares, apenas uma outra faceta do mesmo problema. Recordem-se as declarações de Brenda Spencer, responsável por um massacre escolar, que se justificou afirmando: “Eu não gosto de segundas-feiras. Isto anima o dia.” ou “Não houve razão nenhuma para tal, e foi imensamente divertido.” e “Era como alvejar patos num lago”.

Em Inglaterra, este ano veio revelar o assombroso happy slapping (à letra, ‘bater feliz’): enquanto um transeunte ao acaso é espancado (com ocasionais violações ou disparos), um membro do grupo, com uma pequena câmara ou mesmo o telemóvel, grava o acto para mostrar a conhecidos ou pôr a circular na internet, onde se compete pela melhor agressão. Mesmo a situação em França, no mesmo dia em que morreram os dois adolescentes cuja electrocussão acidental espoletou todos estes eventos, um homem foi espancado até à morte em frente a dezenas de pessoas, que, passivamente, assistiram à cena.

Atribuir as culpas às televisões, aos videojogos, ao metal, é como atribuir a “intifada francesa”, como lhe chamou o Público, a toda a série de factores que os críticos enunciaram, esquecendo-se do principal: o genuíno gosto da destruição. A verdadeira causa deste é a tremenda perda de valores, resultante da educação que os pais (não) dão aos seus filhos e pela qual o Estado é também co-responsável. Enquanto não o percebermos, a Laranja Mecânica continuará a espremer o seu sumo... ■ o corvo

Crónica saída a 23 de Novembro de 2005

Das Teorias da Conspiração

Lançado no mercado português recentemente, não posso deixar de referir o novo livro de Dan Brown, A Conspiração. Não tendo editor que ma publique, venho eu, neste exíguo espaço para tão revolucionária ideia, apresentar também a minha teoria da conspiração. Declaro:

Há uma conspiração para que haja conspirações!

Tudo começou com o escândalo da Casa Pia que, anuncio!, não passa duma grande cabala! Seguiu-se a cilada armada a Fátima Felgueiras que, inocente!, contra essas movimentações maquiavélicas de bastidores, teve de se exilar no Brasil! Ela própria prova-nos a trama infame: «Falam de um saco de uma cor qualquer, o saco da vergonha para todos os que criaram e alimentaram isso»! Como não havemos de crer em tão sinceras palavras? É conluio! E o Ministério Público? Esse órgão, tão desejoso de poder, essa renovada Inquisição!, não lhe bastando estas vítimas, logo se lançou na caça de novas e não tardou a acusar Valentim Loureiro e Pinto da Costa – dois honráveis senhores do futebol português – para invocar os seus nomes a propósito do processo Apito Dourado! E o venerando e veterano Vale e Azevedo? Esse explicitou tudo no seu livro A Armadilha, onde se pode encontrar um historial de todas as cabalas portuguesas, comparando-se o visado aos reis traídos. É maquinação! Ainda não contentes, à cruzada impiedosa que aqui vimos enunciando juntaram-se os jornais, que recentemente acusaram de controlo de meios informativos o mentor Alberto João Jardim, cabeça da Madeira, que à ilha trouxe o progresso! Claro que também, em toda a sua profundidade de saber, Jardim compôs a sua própria resposta, contra-argumentando com outra conjura: o país está a ser dominado por grupos maçónicos que nos conduzem para o iberismo e anexação à Espanha. «É uma pouca-vergonha.», conclui.

E não é tudo! É tal a influência de todas estas tropas difamatórias, que conseguiram que o Presidente demitisse o competente e bem intencionado Santana! Não espanta pois a sua magoada imagem: «Tem sido difícil para quem está na incubadora, ver passar a família e, em vez de acarinhar, haver membros da família que dão uns estalos no bebé»! Conjuração! E que comentários tecer do ultraje promovido por Paulo Morais, numa mesquinha campanha contra as imobiliárias e as autarquias, numa das mais pérfidas cabalas a que o nosso país assistiu? Como reagir então ante a ignóbil trama que se concebeu contra Mário Soares, tentando abafar a energia de tão jovem candidatura, para o destruir politicamente? E não se esqueça aqui a conspiração horrenda que o Governo está a mover contra a classe média, com as suas reformas tão desnecessárias e supérfluas, ou não fosse o nosso erário abundante!

Exposta aqui esta revolucionária ideia que lança novas luzes sobre toda a história portuguesa, anseio, doravante, o convite para a publicação deste meu bestseller. E tal como Dan Brown, já preparo a minha sequela: revelar ao mundo a enorme conspiração que une o suicídio de Antero de Quental frente a uma igreja com o 11 de Setembro, ocorrido uns exactos 110 anos depois! Ainda que não pareça, um é consequência do outro. Para fechar a receita, só me falta meter a Igreja Católica algures... Ah, o Convento da Esperança! ■ o corvo

Crónica saída a 9 de Novembro de 2005

Lendo os Astros cá em Baixo

Ouvindo o noticiário da Antena 1, há duas semanas, fiquei a saber que uma tenda de campanha – oportunamente enviada para o Sudeste Asiático aquando do tsunami – pertencente ao Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, jazia há seis meses na Alfândega de Lisboa, custando já à citada entidade cinco mil euros. Refira-se também que só há mais um equipamento do género em Portugal e que, para cúmulo, teve de ser a Alfândega a avisar o interessado, que desinteressado me parece.

Se quando escutei a reportagem não contive o riso, chegado a casa, não sustive o medo. Episódio pontual, situação caricata, este acontecimento não é senão um símbolo, uma metáfora, como o autocarro de Lisboa engolido pelo asfalto – era Santana ainda presidente dessa câmara – era o código secreto em que se profetizava o declínio luso. É Portugal quem espera naquele porto; porém, todos passam e ninguém se interessa por essa estranha realidade ancorada ainda no domínio da utopia. Mas a indiferença paga-se cara e o preço sobe dia a dia – como o petróleo.

Os sinais do Apocalipse multiplicam-se, com as trombetas dos anjos ressoando mais e mais. Do céu – porque Deus é brasileiro, como dizia o filme homónimo – desce já a senhora de Fátima, para o seu último e maior milagre: o de Outubro. Independente? Indecente! Felgueiras é o triunfo da verborreia. Chamava-lhe o Diário de Notícias “nova Evita”, mas ninguém a evitou, antes lhe deram maioria absoluta, absolvendo-a de toda a sua prática dissoluta! «Nem sei se era assim tanta a esperança e a alegria no 25 de Abril» afirmou ela. Nem eu sei se então era tanta a parvoíce que hoje se revela! «O povo em democracia é soberano», disse da sua vitoriosa janela. Mas este mesmo povo, na sua ingenuidade e erro, cava a sua cova. Sócrates, o filósofo, já defendia que a ignorância era fonte de todos os males – quer-se maior prova?

Mas quando até os cultos vultos fazem tão estultos comentários, de Alegre fico triste. «Ele é um ídolo da juventude. A minha filha gosta muito de o escutar». falou assim Manuel, o poeta, de Pacman, o vocalista dos Da Weasel, mandatário para a juventude da sua candidatura presidencial. Referindo-se à versão hip-hop da Trova do Vento que Passa: «Fiquei comovido ao ouvi-lo. E fiquei ainda mais depois de saber que ele nem sequer havia escutado as versões anteriores, interpretadas pelo Adriano e pela Amália.» Não condeno a escolha, condeno o elogio. Condeno a apologia da degenerescência da juventude que tem de encontrar tais ídolos. Condeno que se exulte a ignorância da arte passada. E se Pacman não ouviu as versões cantadas do poema de Alegre, creio eu que Alegre não leu os versos escritos de Pacman. Como reagiria o candidato ante a “arte poética” do hit da banda: «Vou levar-te para casa - tomar conta de ti/ Dar-te um bom banho, vestir-te um pijama e…/Fazer-te uma papinha, meter-te na caminha/ Ler-te uma historinha e deixar-te bem calminha»? Que história cantaram a Alegre, desconheço, mas decerto vai-lhe ser dado um bom banho e ele irá para casa, lamentando o seu despenho.

«...e todo o país não é mais do que: uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam. É uma nação talhada para a conquista, para a tirania, para a ditadura...» assim se anuncia na primeira das Farpas de Eça. Lendo os astros cá em baixo, a minha astrologia remete-me para a mesma triste conclusão e assim se murmura na confusão e as vozes clamam por uma mudança de regime: novo D. Sebastião que aguardamos. Por ora, nevoeiro apenas... ■ o corvo

Crónica saída a 26 de Outubro de 2005

Morangos com Bolor

Uma série de acontecimentos recentes – inclusive uma reportagem da revista Xis sobre o tema – incutiu em mim o desejo de analisar mais este produto de lixo televisivo duma estação que é o paradigma da falta de qualidade: Morangos com Açúcar (McA), a novela juvenil da moda.

No fundo, em McA temos a versão portuguesa de novelas como Malhação/New Wave, no seguimento da estratégia da TVI de produzir – sob a aura meritória da produção nacional – versões emuladoras dos êxitos da sua concorrente directa, a SIC. É o mesmo pensamento que está subjacente, por exemplo, ao Inspector Max, unanimemente visto como uma tentativa mal sucedida e fraca de copiar a fórmula da vitoriosa e fascinante série Komissar Rex. Note-se a semelhança assustadora entre os dois nomes. Quando, contudo, a TVI ousa tentar ser original, temos nomes como McA, que levou a um amplo gozo. Convém ainda acrescentar que, apesar de ter caído no esquecimento geral, o primeiro passo dado no que respeita a novelas juvenis lusas não coube à quarta estação, mas à pública, com o saudoso Riscos (1998) – série bem mais séria.

Numa reportagem, a coordenadora da novela, Patrícia Sequeira, afirma «Queremos que sejam [os McA] vistos como reais». O triste é serem-no e não o serem simultaneamente. Parte substancial dos adolescentes vê-se retratados nas personagens, com uma vida que é tão comezinha como a novela, tão reduzida e redutora como ela. Os McA estão inseridos na acção sincronizada dos media de estandardização da classe juvenil, em conjunto com as rádios e as revistas como a Bravo ou mesmo o novo suplemento dominical do Público, a Kulto. A frase de Patrícia Sequeira – «...mas tem de seguir aquilo que eles querem.» – vem confirmar que este género de produtos juvenis vendem e, mais, são desejados. Num ciclo vicioso, os seus consumidores fomentam a proliferação destes manifestos anticultura, mas eles asseguram que novas gerações da mesma massa continuam a surgir perpetuamente.

Porém, retomando o declarado acima, é enganador julgar que os McA possuem uma relação com a realidade que não seja somente acidental. A novela marginaliza – formando no espectador uma ideia estereotipada da juventude nacional – toda uma série de adolescentes, desde os punks até à outros subgrupos, tais como os góticos, que não se enquadram de modo nenhum na visão maniqueia dos McA. Uma panóplia de acontecimentos que afectam os jovens nunca foram abordados, tal é a obsessão da novela pelas tramas amorosas. Refiro-me, por exemplo, à morte de um amigo, à imagem do aluno sistematicamente repetente, ao ostracizado da turma, ao estudante que abandona a escola – tudo situações bem reais, mas omitidas, pois não esqueçamos as palavras da coordenadora da série «Achamos que é importante sermos didácticos [...] também queremos dar alguns valores, dar uma moral, dar umas liçõezinhas». Cinismo puro.

A qualidade – ou falta dela – de representação que os actores amadores demonstram é tal que se tornou recorrente, no seio da comunidade juvenil, quando se quer criticar o mau jeito de alguém para as artes dramáticas, referir a novela, que é um paradigma negativo de arte. Mas os McA seguem no seu alto astral: existem já agendas, discos que se vendem e ocupam os primeiros lugares nas tabelas de êxitos, e, até mesmo – perdoe-se o insulto que nos fazem! – livros! O primeiro dos quais esgotou a edição numa semana. Mais indescritível ainda é o fenómeno D’ZRT, indissociável da novela, a ver numa próxima crónica. Entretanto, os Morangos continuam cheios de bolor, mas as pessoas preferem chamar-lhe açúcar... o corvo

Crónica saída a 12 de Outubro de 2005

09 October 2005

O Arrastão ou O Cansaço de Pensar (III Parte do Ciclo Nipónico)

Este mês de Setembro trouxe aos leitores da revista de cinema Première a oportunidade de adquirirem, conjuntamente com a publicação, o filme Battle Royale, uma violenta sátira à sociedade nipónica, criticando a extrema tensão a que estão sujeitos os alunos nas escolas, onde domina um frenético regime de competição, com elevadas pressões sobre os discentes para que sobressaiam acima dos seus companheiros. Levando a um extremo cruento tal concorrência, a película retrata uma turma de nono ano em que os alunos são presos numa ilha onde têm de se matar até que só sobreviva um, num futuro distópico.

Se a ideia é abjecta, conduz-nos também a uma reflexão sobre o seu oposto: se esta obsessão desenfreada pelo estudo e pelo sucesso tem os seus efeitos nefastos, o mesmo se aplica ao relaxamento generalizado que degenera na estupidificação da juventude, entre nós. A exigência deveria substituir a indulgência, sob a asa da qual tantos maus resultados são permitidos. O ritmo de aprendizagem é definido pelos que obtêm piores resultados, obstruindo o progresso do aluno médio e retardando o do bom pupilo. Vozes erguem-se já para me classificar de elitista, contudo, já a primeira Constituição no âmbito da Revolução Francesa declarava que todos os homens eram iguais, sem qualquer outra distinção senão o seu mérito e talento. Ser elitista significa defender e premiar aqueles que trabalham mais, que se esforçam. Quer-se mão-de-obra qualificada, mas a Juventude Comunista Portuguesa não deixa de reivindicar o fim dos exames nacionais, pela óbvia discriminação que eles constituem, como bem sabemos.

Mas de que servem também tais avaliações se – como no caso da prova de Português de nono ano – roçam o cúmulo do ridículo, com perguntas maioritariamente de cruz e outras que parecem escarnecer das capacidades intelectuais dos alunos? É que – isto é importante que se compreenda – a nossa juventude – não obstante tudo o dito, até por mim mesmo – não é estúpida: ela é estupidificada; mais, é encorajada a deslizar para essa estupidez por pedagogias baratas que, de reforma curricular em reforma curricular, têm vindo a simplificar os programas. Há um célebre problema conhecido como “o problema da batata”, que é uma sátira impecável e implacável a este processo degenerativo do ensino. Por questões de espaço, é-me impossível reproduzi-lo nesta coluna, mas pode ser encontrado no sítio http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/Math/EvolucaoEnsinoMatematica.htm. A Filosofia, suposta disciplina do pensamento, somos levados a decorar, mais que compreender; a aceitar, mais do que a conquistar; a calar, mais do que a discutir.

Assim, com a sociedade incitando os jovens a não pensarem, fornecendo-lhes uma mundividência fabricada pelos mass media, nunca poderá surgir um cidadão no verdadeiro sentido do termo, ciente dos problemas da sua pólis, pronto a discuti-los na ágora moderna. Inversamente, como exposto na última crónica, o jovem comum ocupa-se só de si, dos seus conflitos, dos seus conhecidos e promiscuidades. À crise económica e política acrescente-se a crise dos vindouros. Os efeitos da tomada do poder por parte de um homem conotado com a diversão boémia e as mulheres – que ele apelidava de “os meus colos” – foram desastrosos. Imaginemos um país dum povo de análoga massa à deste homem. A essa evidente crise social que produziu tais homens, ajunte-se uma crise económica e política, com gentes que, já o diziam os romanos, “não se governam nem se deixam governar”. Onde desembocam os pesadelos? ■ o corvo

Altr-eu-ísmo (II Parte do Ciclo Nipónico)

O exacerbado consumismo, referido na passada crónica, das adolescentes japonesas – essa geração que apelidámos de “pedi, e ser-vos-á dado” reflecte, na sua forma mais pura, o vazio que as enche, se tal antítese é possível. E mais uma vez, a sociedade nipónica funciona como reflexo da nossa. O consumismo obsessivo das raparigas é uma alienação de si próprias, porque lhes falta uma individualidade, que elas a todo o custo transferem para as roupas, que passam a ter o encargo de demonstrar um dado estilo de vida. Muitos jovens adoptam modas sem compreenderem plenamente a mentalidade por detrás delas. O caso mais paradigmático é o vestuário gótico, que, agora, como que se banalizou, sem que haja uma verdadeira identificação com tal movimento, como se a roupa conferisse ao seu utilizador a cultura alternativa que lhe é implícita. Os jovens transferem para as coisas a sua personalidade, aquilo que são, sem entenderem que, como no filme Clube de Combate se diz: “Tu não és o teu emprego... tu não és quanto dinheiro tens no banco... nem o carro que conduzes... nem o conteúdo da tua carteira.”

Porque não se é nada senão um vazio, é necessária uma constante alienação de si, presente na nossa sociedade, em fenómenos como o consumismo e a premente socialização. Esta última merece uma maior atenção. Há uma constante vontade de estar acompanhado – o ser humano esqueceu-se do que é estar sozinho e os que o não olvidaram são chamados de misantropos. A personagem Mildred, em Fahrenheit 451 – obra de Ray Bradbury que tive o ensejo de ler estas férias, sobre um mundo onde os livros são proibidos – é a imagem perfeita deste comportamento, sempre agarrada à “família”, nome das três paredes falantes.

Parece que atingimos o cume do altruísmo, quando deixámos de procurar a solidão, para a substituirmos por uma companhia incessante, de que são instrumentos os telemóveis e televisões, que nos invadem a privacidade. O sofisma está em não perceber que este aparente altruísmo não o é; trata-se antes duma dependência. Convivemos com os outros, não vivemos para os outros – isso sim, o real desprendimento apregoado por tantas filosofias e teologias. Fazemos dos outros, nós. É esta diluição da separação clássica com o outro que alimenta os reality shows ou as revistas cor-de-rosa (outra encarnação do voyeurismo) ou ainda as novelas, onde as pessoas pretensamente se vêem reflectidas nos personagens. Por ser a cultura do outro, é a cultura do ver – de olhos fechados só nos podemos conhecer a nós, se algum dia nos conseguimos conhecer o suficiente. Deste culto da visão, vem a fé de Tomé dos dias de hoje, a incapacidade de abstracção (e consequente decadência da Filosofia) ou ainda a perda dos hábitos de leitura, substituídos pela televisão, que remete para o futuro imaginado por Bradbury.

Simultaneamente, atravessamos uma fase aguda de egotismo, em que a preocupação máxima de cada são os seus próprios problemas. Os dois fenómenos não estão de modo algum desconectados, sendo apenas um o produto racional do outro. Obsessivamente centradas no seu umbigo, as pessoas necessitam mais intensamente do que nunca dum divertimento, duma alienação – que acham nos outros – para esquecerem as suas preocupações. Como que retornámos aos velhos tempos romanos, em que a felicidade do povo era feita do seu pão e circo. Mas, como também então afirmava – já com Roma em decadência – Salviano, «Roma moritur et ridet.» - Roma morre, e ri. ■ o corvo

31 August 2005

Pedi, e ser-vos-á dado (I Parte do Ciclo Nipónico)

Na penúltima Pública – revista dominical do Público – pude ler um dos mais interessantes artigos deste ano, dedicado a um fenómeno social japonês que foi apelidado de “hikikomori”, palavra que se refere a jovens que, devido a uma depressão, se resolvem trancar durante vários anos nos seus quartos. Anexada à reportagem, seguia-se uma outra sobre as adolescentes do Japão. Nela, via-se como as raparigas nipónicas, extremamente mimadas, esbanjam todo o dinheiro que recebem, quer como mesada, quer dos seus trabalhos em part-time, em roupas caras, com as quais vivem obcecadas, sem aspirarem a nada mais alto do que serem donas-de-casa, com um marido rico que as sustente. É a geração do “Pedi, e ser-vos-á dado.”, em que os pais acedem a todos os desejos das filhas.

Seja-me permitido aqui reproduzir as palavras, citadas na reportagem, de Takahiro Hadaki, director duma revista juvenil feminina, procurando explicações para tal exacerbado consumismo: «A política não está bem, nem a economia. A população está a envelhecer, e eles
[os jovens] sabem que lhes cabe sustentar os mais velhos. Mas acham que não vão conseguir ter dinheiro, mesmo que trabalhem. Estão a desistir de ter esperança no futuro».


Fora de contexto, dir-se-ia que esta frase se refere ao panorama português. Entre os jovens – falo por aqueles que me são próximos e mesmo por mim – esse desalento quanto ao futuro assombra-os: o desemprego é a nova espada de Dâmocles. Em Humanidades, então, o desespero é generalizado. Cada vez mais colegas se inclinam para a hipótese de seguir Direito, o último curso com saída dentro do nosso cada vez mais decadente agrupamento. Os poucos que permanecem fiéis aos seus projectos originais (como Psicologia, História ou Filosofia), ano a ano, tomam maior consciência do suicídio profissional que professam. A título de exemplo, soube recentemente que um archeiro da Universidade de Coimbra é licenciado em Psicologia.

Assim, não é de estranhar que, entre os que obtêm melhores resultados, seja comum o desejo de emigrar. Também não é de admirar que o sistema de cunhas, parecendo ser o único meio de assegurar um emprego, ainda que mal pago, prevaleça: lugares bem remunerados, não os há suficientes para a juventude. Porque administradores da Caixa Geral de Depósitos há só nove... E para que tenhamos as indemnizações, primeiro temos de lá estar! Não que seja complicado: as quotas do partido só têm de estar em dia. Não posso deixar de apontar, a propósito, que, entre os meus conhecidos, é significativo o número de jovens que se têm vindo a registar em juventudes partidárias. Sinal dos tempos? Não obstante esta nova vaga, os partidos insistem em usar os seus velhos vultos, alguns na casa dos oitenta. De facto, como acima dizia Hadaki, «A população está a envelhecer...».

Perante isto, não será normal o descrédito em que caiu a política nacional? Esta está num ponto degradante e promíscuo, em que se misturam interesses do futebol e dos partidos, com seus boys e demagogias autárquicas. Não se entende – e perdoe-se-me o lugar-comum – que haja dinheiro para estádios, mas não para hospitais; haja dinheiro para a Ota e TGV, mas os bombeiros – os últimos heróis da nossa era – não tenham equipamento adequado nem meios suficientes para combater os fogos, que tornaram o ar nas nossas cidades literalmente irrespirável. Com auto-estima, justificadamente, tão em baixo, qualquer dia, é o país que faz “hikikomori”... o corvo

25 July 2005

Os Esquecidos ou O Oblívio e Minerva

Faço parte daquela que é a última turma de Latim da minha escola. Eu e os meus colegas somos os derradeiros e nunca mais se ouvirá nas paredes da nossa secundária esse falar vetusto quando para o ano concluirmos os nossos estudos. Um pouco por todo o país, o cenário é análogo e a herança romana vai-se gradualmente desvanecendo; a grega, essa há muito passeia manca em orfanatos escolhidos, raros como os trevos quadrifólios. Paulatinamente, o testemunho greco-romano, fundador, com o judaico-cristão, da nossa matriz cultural, vai sendo esquecido com consequências danosas para a sociedade, a começar por uma estupidificação generalizada.

O desconhecimento de nós e das raízes da nossa língua – que é a nossa pátria, como declarava Pessoa – conduz, primeiramente, a uma incapacidade de entendimento do mundo actual e a uma grave e preocupante iliteracia. Foi isso que nos vieram provar os resultados miseráveis e decadentes dos exames nacionais, onde cerca de um quinto reprovou a português e mais de dois terços no de matemática, onde, já várias vezes consecutivas, foi apontado que o principal problema é a inépcia dos alunos em entenderem os enunciados: reflexo da falta de bases linguístico-culturais que não são incutidas aos jovens, porque – argumentam certos senhores – não há necessidade e é uma carga excessiva para as crianças. Contudo, continuam a sobrecarregá-las com novos horários na primária para lá das cinco horas e com disciplinas sem sentido como Estudo Acompanhado e Área de Projecto.

Estamos perante, no fundo, um problema já aqui abordado que é o do mau ensino em Portugal, que mais uma vez verifiquei quando fui renovar a matrícula: prossigo com Francês neste ano final do secundário, mas o Inglês cessou já – foi a escola que assim o ditou, imitando muitas outras em Coimbra. Torna-se incompreensível atendendo à globalização que se serve do Inglês como língua de comunicação. Há tanta preocupação em iniciar já o ensino desse falar na primária, mas todos, pelo seu silêncio, são coniventes com esta situação. Ninguém nota que uma grande maioria – e não se tome isto como hipérbole – dos alunos atinge o final do secundário sem se conseguir exprimir, findos sete anos, duma forma minimamente fluente.

Porque eu sei isto – e sei porque o vejo, e sei porque o vi sempre, e não só a inglês – não me espanta o número de negativas nos exames, achando-as pelo contrário bem positivas. Eu venho proclamar: é preciso reprovar mais! Não podemos permitir que quem não sabe continue, porque é a falta de formação – como tantas vezes tem sido apontado – que torna os nossos trabalhadores muito menos qualificados. É importante a cultura – essa que foi toda banida dos currículos. Porque nos esquecemos das bases da nossa civilização, nunca nesse ponto poderemos competir com os terroristas que, ainda na semana passada, voltaram a actuar: porque eles sabem porque lutam, eles sabem o que defendem. Os políticos ocidentais falam da democracia e da liberdade – conceitos belos, mas aquilo que eles querem defender é algo muito mais complexo e de raízes que, por a população as desconhecer, nunca poderá compreender. Falamos em choque de culturas, mas a cultura atacada não se conhece a si mesma! Que seria, contudo, de esperar quando um recinto se enche – como na feira que recentemente a nossa cidade acolheu – para ouvir Quim Barreiros? E foi isto que substituiu gregos e romanos... o corvo

21 July 2005

Realidade e Ficção

O terror repetiu-se há quase uma semana atrás, com os (in)esperados atentados em Londres, mais uma vez com o cunho do islamismo radical. Apesar da contagem dos cadáveres continuar é, por certo, a acção menos mortífera da Al-Quaeda em capitais ocidentais. Tal facto não reduz a sua barbaridade. Foi cuidadosamente escolhida para desviar as atenções da imprensa da cimeira dos G8 – a primeira desde há alguns anos em que o terrorismo não ia dominar a agenda, ocupando-se com questões mais humanitárias e prementes.

Importante para a compreensão do fenómeno foi o rapto e morte, na semana passada, do embaixador egípcio no Iraque. Mais do que questões religiosas, são divergências culturais que animam este combate entre fanáticos e Ocidente. Este assassinato é uma tentativa de deter os outros países árabes que estão a reconhecer o governo democrático iraquiano. Pode ver-se falhas nesse regime, mas, como dizia Churchill «A democracia é a pior forma de governo com excepção de todas as outras que já foram experimentadas.»

No dia seguinte, já os londrinos regressavam às suas rotinas normais, como uma sondagem de Domingo dum canal televisivo britânico confirmava. Contudo, por muito imune que se declare, uma cidade atingida sofre. Os recentes atentados ressentem-se. Tal fenómeno é particularmente visível na América, depois do 11 de Setembro, por exemplo, no cinema. Este sábado foi anunciada a primeira longa-metragem, pela mão de Oliver Stone, sobre o atentado a Nova Iorque.

Veja-se “A Guerra dos Mundos”, que se estreou esta semana em Portugal. Spielberg já o admitiu: este é um filme pós-11 de Setembro, onde mais do que no cataclismo, a câmara se centra na devastação e no sentimento de desorientação dos personagens. Não se podem deixar de estabelecer outros paralelos: os terroristas estão sediados há muito nos países em que perpetuam os atentados, tal como os extraterrestres do filme, cujo lema de campanha é «Eles já estão aqui».

O primeiro filme de Shyamalan após o 9/11, o magnífico “A Vila”, aborda igualmente a ameaça invisível – as criaturas imaginárias que viviam no bosque em torno à aldeia – numa genial parábola sobre a cultura do medo que se vive actualmente em terras americanas. Regressando aos filmes em cartaz, é de notar o clímax de “Batman Begins”: o Homem-morcego tem de deter um comboio suspenso que colidirá com a torre Wayne. Estranhamente familiar, se tomarmos o comboio aéreo como a metáfora dum avião e alterarmos o nome da torre em questão.

É interessante constatar que as adaptações de bandas-desenhadas para o grande ecrã aumentaram exponencialmente após o 9/11. Apesar de outros motivos ligados mais à indústria cinematográfica, a meu ver, tal deve-se igualmente à necessidade de a América procurar um herói e de as pessoas se sentirem seguras porque alguém as protege.

Mas a ficção e a realidade vão mais longe a 4 de Novembro, com a estreia mundial de “V for Vendetta” (também adaptado da BD), que retrata as explosões levadas a cabo por um rebelde que por meio delas pretende opor-se ao governo fascista que domina a Inglaterra totalitarista num futuro imaginário em que os alemães venceram a Segunda Guerra Mundial. Há quem sussurre que o filme deveria ser adiado devido aos recentes acontecimentos, mas nada poderá adiar as questões inquietantes que ele promete levantar sobre a fronteira e a relação entre conceitos como liberdade, segurança, governo, revolução e terrorismo. o corvo

A Terra, os americanos, nós e eu

O encontro dos G8, que vai ter lugar em Gleneagles, Escócia, aproxima-se. O Reino Unido já estabeleceu quais as prioridades desta cimeira a que preside. Por um lado, o combate à pobreza, que continua a matar 30.000 crianças diariamente, números que justificam acções como o Live8 – oito concertos simultâneos em cidades como Berlim, Londres ou Filadélfia no dia 2 de Julho; palcos onde actuarão artistas de renome pretendendo convocar o maior número de espectadores para assim pressionar os G8 a tomarem medidas drásticas de apoio a África. O segundo grande tema que Tony Blair pretende tratar nesta cimeira é o clima, cujas dramáticas alterações já foram classificadas por ele de “provavelmente, o desafio mais importante que enfrentamos enquanto comunidade global a longo prazo.” Cerca de metade da poluição mundial é produzida por estes países, nomeadamente a América que mantém uma atitude céptica irracional. Esta descrença americana obrigou a que no projecto de declaração final da reunião dos G8, datado de 14 de Junho – como o Público indicava na semana anterior – frases como “o nosso mundo está a aquecer” e “sabemos que o aumento é devido em grande parte à actividade humana” se encontrem entre parêntesis, traduzindo uma discordância dentre os G8.

Mais revoltante ainda é a recente notícia do New York Times de que os relatórios científicos sobre esta temática foram consecutivamente manipulados por um funcionário da Casa Branca que antigamente liderava a luta das empresas petrolíferas contra os limites de emissão de gases. Outros funcionários da Casa Branca prontificaram-se a justificar tal actuação, chegando a afirmar que as alterações feitas aos relatórios científicos eram uma parte natural da revisão efectuada a todos os documentos de igual assunto. Não é descabido lembrar ainda a proibição da administração Bush, aquando da estreia do filme O Dia Depois de Amanhã, de que os cientistas da NASA se pronunciassem sobre a película, que era uma crítica à política anti-ambientalista da sua presidência e que versava sobre os cataclismos que o aquecimento global pode provocar.

Entretanto, enquanto a política de silêncio e inoperância prossegue pomposa, o mundo definha a passos largos. No início deste ano foi divulgado, por parte do Grupo de Trabalho Internacional sobre Mudança do Clima, um relatório onde se afirma que a humanidade tem aproximadamente dez anos para poder reduzir muito substancialmente as emissões de gases poluentes, caso contrário, o risco para ecossistemas e sociedades aumentará significativamente, envolvendo as consequências perdas agrícolas severas e forte escassez de água. O mundo dispõe duma década até atingir o chamado ponto de não retorno. Os estudos científicos mais apocalípticos indicam 2050 como a data em que a vida terrena se terá tornado insustentável.

Também Portugal não está isento. A seca actualmente vivida que tem levado a racionamentos de água como aquele que agora parece também vir a ser aplicado no nosso concelho são consequências directas da instabilidade climática. Um relatório da Agência Europeia para o Ambiente veio revelar, este mês, que fomos o quarto país europeu com concentrações de ozono mais elevadas no Verão de 2004.

Existe um site que propõe que todos saltemos ao mesmo tempo para desviar o planeta do seu eixo, o que supostamente pararia o aquecimento, através do aumento dos dias e da homogeneização do clima. Se nada for feito pelos G8, mais me vale inscrever nessa patética, mas desesperada acção: saltar para salvar o planeta... o corvo